Minhas Leituras #89: Ubik – Philip K. Dick

Capa livro Ubik Philip K Dick Aleph

“Desconfie, sempre, da realidade”

Título: Ubik
Autor: Philip K. Dick
Editora: Aleph
Ano: 2009
Páginas: 240
Tradução: Ludimila Hashimoto
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“Me incomoda que as pessoas se tornem hostis com relação a mim. Mas acho que não se pode viver muito tempo sem despertar hostilidade. Não se pode agradar todo mundo, porque as pessoas querem coisas diferentes. Agrade a um e estará desagradando a outro.” (DICK, Philip K. Ubik. Aleph, 2009, p. 34)

Basta ler um dos livros de Philip K. Dick e você verá que ele foi um homem que desconfiava da realidade. Em ‘Ubik’, uma de suas obras mais aclamadas, ele levou essa desconfiança ao limite, a tal ponto que fica quase impossível dizer o que é e o que não é real.

Ícone da ficção científica

Em vida, Philip K. Dick [1928 – 1982] não obteve o devido reconhecimento, nem o merecido sucesso. Isso só veio a ocorrer após sua morte, quando suas obras se popularizaram, muito pela ajuda de adaptações cinematográficas, séries de TV e videogames.

Conseguiu vencer alguns prêmios, como o importante Hugo Awards, o que o ajudou, mas não o tornou um popstar. Na verdade, a vida de PKD foi bastante conturbada, com muitos divórcios e problemas financeiros. O que pode explicar sua vasta produção literária (44 romances e 121 contos), afinal ele tinha que pagar suas contas, e seu emprego era escrever.

Hoje esse autor obteve o merecido reconhecimento e é tido como um ícone da ficção científica. Ficção científica que é apenas pano de fundo para discussões mais profundas, como o existencialismo, Deus e a realidade. Vivemos um novo período de redescoberta desse grande autor, que a escritora Ursula K. Le Guin chegou a chamar de “o Jorge Luis Borges dos Estados Unidos”.

“Tudo isso está acontecendo dentro de mim e, no entanto, eu pareço estar vendo do lado de fora. Estranho, pensou. O mundo inteiro está dentro de mim? Tragado pelo meu corpo? Quando isso aconteceu?” p. 135

Futuro absurdo

‘Ubik’ foi publicado pela primeira vez em 1969. O enredo se passa no futurista ano de 1992, que passou bem longe de ser o que realmente foi o verdadeiro ano de 1992 (talvez porque vivemos em uma realidade alternativa, vai saber). Essa década de 90 é recheada de pessoas com habilidades psíquicas, como os telepatas e os precogs. São indivíduos que representam perigo para as grandes corporações, pois são capazes de ler mentes, o que pode revelar segredos e estragar grandes negócios.

Para combater esses indivíduos, existem empresas que os rastreiam, anulando suas habilidades. Uma dessas empresas é presidida por Glen Runciter, homem rico e de idade avançada, que faz consultas sobre o rumo dos negócios com sua esposa falecida (sim, nesse futuro é possível entrar em contato com quem já morreu e teve o corpo e mente preservados, um estado chamado de meia-vida).

Joe Chip, o protagonista, é um importante funcionário da Runciter Associados. Ao receber uma proposta de trabalho, de um magnata da Lua (sim, mais uma vez, o homem, nesse futuro, colonizou a Lua e Marte), Runciter convoca Joe Chip e alguns de seus melhores funcionários. Entretanto, algo dá errado nessa missão, há a explosão de uma bomba. Todos acreditam que Runciter morreu, até que coisas estranhas passam a acontecer, como mensagens estranhas do antigo patrão, o dinheiro ficar diferente e o tempo ficar todo desconjuntado.

É quando aparece a solução para todos os problemas, o misterioso spray Ubik, de 1001 utilidades, que está em toda parte. Mas quem será que realmente precisa de ajuda? Runciter? Joe Chip? Os funcionários? E uma dúvida ainda maior: o que diabos é a realidade?

“Se Deus aprovasse a meia-vida, cada um de nós nasceria num caixão cheio de gelo seco.” p. 91

Simples e profundo

Apesar de ser um livro curto e, num primeiro momento, parecer até uma premissa simples, ‘Ubik’ esconde discussões mais profundas, motivo pelo qual foi considerado, pela revista TIME, um dos melhores romances da língua inglesa, publicados a partir de 1923.

Para começar, PKD nunca foi um cara religioso, porém se interessava por teologia; seus últimos trabalhos, como ‘VALIS’, refletem muito seus questionamentos teológicos, sobre Deus. “Ubik” deriva da palavra “Ubique”, que, em Latim, quer dizer “em toda parte”. O spray Ubik está em toda parte, assim como Deus. Tessa, ex-mulher do autor, disse uma vez que acreditava se tratar de uma metáfora para Deus, o que faz muito sentido (o Cristianismo, por exemplo, diz que Deus é onipresente, onisciente e onipotente).

Além disso, há uma crítica ao consumismo desenfreado, que alavancou a economia dos EUA após a Segunda Guerra Mundial. No início de cada capítulo do livro há uma propaganda sobre Ubik, dizendo o que o produto é capaz de fazer (até parecem as propagandas da Polishop). E esse mundo futurista de 1992 é tão consumista que chegou ao ponto de as pessoas precisarem pagar suas portas, para que abram e seja possível sair ou entrar (o mesmo acontece com as geladeiras, pague para abri-las).

Todavia, o grande questionamento desse livro é sobre o que é a realidade. Será que estamos vivos, ou estamos mortos, aguardando uma reencarnação, ou algo do tipo? Será esse um estado de meia-vida? Essa é uma leitura que vai dar um nó na sua cabeça, e você vai adorar.

“O inferno é frio, tudo lá é frio. O corpo representa peso e calor. Agora, o peso é uma força à qual estou sucumbindo, e o calor, o meu calor, está me escapando.” p. 198

Sobre a edição

Edição comum, seguindo o padrão adotado pela Aleph para os livros de PKD. Brochura, capa com orelhas, miolo em papel Pólen Soft 80g/m², boa diagramação.

Tradução de Ludimila Hashimoto, que já traduziu outras obras desse autor e realizou um ótimo trabalho.

“Acho que quando você sobe a esse patamar, concluiu Herbert, é preciso agir de determinado modo. É preciso parecer mais que um humano com falhas comuns.” p. 15

Conclusão

Temos em ‘Ubik’ diversas características marcantes de Philip K. Dick: questionamentos sobre Deus, sobre a realidade, o tempo todo desordenado, um futuro absurdo e muitas críticas. Esse livro é bem curto, com uma narrativa dinâmica e empolgante. O autor não precisou de muitas páginas para escrever uma grande obra, ele conseguiu condensar muito bem suas ideias, deixou tudo no tamanho ideal; essa era uma grande capacidade de PKD. No ano de 1992, existem empresas especializadas em neutralizar as ações dos psis, pessoas detentoras de habilidades psíquicas, como a telepatia. Joe Chip trabalha para Glen Runciter, dono de uma empresa desse ramo. Os dois viajam à Lua, acompanhados de um grupo composto pelos melhores funcionários, para realizar uma missão. É aí que as reviravoltas têm início. Se prepare, sua cabeça pode fundir (é capaz que até saia uma fumacinha). Trata-se de um dos melhores livros de PKD, apesar de não ter recebido nenhum prêmio importante (premiações nem sempre são sinônimos de qualidade). Para quem é fã do autor, essa é uma leitura obrigatória. Para quem não o conhece ainda, é um excelente ponto de partida.

“O início — Runciter ecoou com sarcasmo — o que isso quer dizer?” p. 205

Minha nota (de 0 a 5): 4,5

Alan Martins

Livro Ubik Aleph Philip K Dick
Seguindo o padrão adotado pela Aleph para as capas dos livros de PKD.

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Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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