Minhas Leituras #67: Bíblia, vol. II – Novo Testamento: Apóstolos, Epístolas, Apocalipse

Bíblia Novo Testamento Apóstolos, Epístolas, Apocalipse

“Em busca da tradução mais fiel, parte II”

Título: Bíblia, vol. II: Novo Testamento: Apóstolos, Epístolas, Apocalipse
Autor: Vários
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2018
Páginas: 616
Tradução: Frederico Lourenço
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“Por isso és indesculpável, ó homem, tu, qualquer um que sejas, que te pões a julgar. Pois naquilo em que julgas outra pessoa, condenas-te a ti mesmo, já que tu — que julgas — praticas as mesmas coisas.” Rm 2:1, p. 167

Dando continuidade ao ambicioso projeto de Frederico Lourenço, a editora Companhia das Letras publica o segundo volume dessa nova tradução bíblica, completando a publicação do Novo Testamento.

Português ambicioso

Frederico Lourenço, além de tradutor, é escritor e professor de grego antigo. Leciona, desde 2009, na Universidade de Coimbra, uma das maiores universidades de Portugal e uma das mais antigas do mundo ainda em funcionamento.

Grande especialista em clássicos, já verteu para a língua portuguesa as principais obras de Homero, Eurípides, Hipólito e Íon. Porém, parece que traduzir todos esses importantes autores não foi o suficiente, pois decidiu dar início a um projeto de maior ambição: traduzir a Bíblia dos Setenta (Septuaginta).

Seu projeto não busca ser a grande revolução bíblica, uma tradução que anulará as demais. Trata-se de uma tradução crítica, ou seja, pretende se manter o mais fiel possível ao texto original, sem que quaisquer interpretações teológicas permeiem as palavras. Sendo assim, esse talvez seja o maior trabalho crítico de uma tradução da Bíblia para a língua portuguesa, o primeiro a se propor a traduzir toda a Septuaginta.

“O amor é paciente, prestante é o amor: não inveja, não fanfarrona, não se incha [de vaidade]; não é indecoroso, não procura as coisas [que são do interesse] dele; não se irrita nem contabiliza o mal [que lhe é feito]; não se alegra com a injustiça, mas se alegra pela verdade.” 1 Co 13:4-6, p. 254

Bíblia grega

Assim é conhecida, também, a Septuaginta. O nome vem da lenda por trás dessa versão da Bíblia. Dizem que setenta sábios, a pedido de Ptolomeu II Filadelfo (faraó do Egito, de 283 a 246 a. C.), foram reunidos com o intuito de verter o Antigo Testamento para o grego arcaico, conhecido como koiné.

Os manuscritos mais antigos, e mais bem preservados, dessa versão da Bíblia, datam do século IV. Conhecido como Codex Sinaiticus, o manuscrito foi descoberto no Mosteiro de Santa Catarina, em Sinai, Egito. Partes desse códice estão espalhadas por diversos países, porém sua maior parte encontra-se na Biblioteca Britânica. Sua importância é enorme, porque representa um texto mais puro, menos tendencioso, já que alterações, por parte de copistas, eram comuns antes da invenção da imprensa.

Como se sabe, os livros que compõem o Novo Testamento não precisaram passar por um processo de tradução, afinal foram escritos, originalmente, em grego koiné (isso é consenso entre os pesquisadores e críticos do NT).

“Porque se alguém é ouvinte de palavra e não praticante, essa pessoa é como um homem que olha no espelho para a cara [que tem] desde a nascença; viu a si mesmo e afastou-se e logo se esqueceu do seu próprio aspecto.” Tg 1:23-25, p. 474-475

Novo Testamento, segunda parte

O primeiro volume desse projeto foi publicado no Brasil em 2017 e apresenta a primeira parte do Novo Testamento: os quatro Evangelhos, que narram a vida de Jesus Cristo. A publicação desse segundo volume completa a tradução dessa coleção de livros tão importante para o Cristianismo.

Se nos Evangelhos conhecemos a história de Jesus, do seu nascimento a sua morte e ressurreição, nos demais textos do NT (Atos dos Apóstolos, Epístolas, Apocalipse) encontraremos o que aconteceu depois: os primeiros passos do Cristianismo.

Um dos mais importantes nomes para a divulgação da palavra de Jesus foi Paulo, que, até antes de sua conversão, era conhecido por Saulo, um judeu perseguidor de cristãos (as primeiras comunidades cristãs sofreram grande perseguição). A maior coleção de epístolas presentes no NT é de autoria paulina (críticos contestam a autoria de algumas dessas cartas, pois, segundo eles, foram escritas por autores pseudopaulinos), e boa parte de ‘Atos dos Apóstolos’ narra sobre os feitos e aventuras desse autor.

Paulo não teve uma vida fácil, sofreu muita perseguição e violência, assim como rivalizou com outros homens que espalhavam a Boa Nova, principalmente no tocante à circuncisão de novos cristãos, ato ao qual se opunha, mas que era defendido por muitos, como o apóstolo Pedro, por exemplo.

“Mas o amor perfeito atira o medo para fora, porque o medo tem castigo; e quem sente medo não se aperfeiçoou no amor.” 1 Jo 4:18, p. 527

Sobre a edição

Mantendo o design do primeiro volume, o segundo apresenta apenas uma alteração na cor, predominando, agora, o azul. Edição em capa dura com sobrecapa, miolo em papel Pólen Soft, boa diagramação. A edição contém uma fita para marcar as páginas.

A Companhia das Letras preferiu adaptar o texto ao português do Brasil. Acredito que isso não cause nenhum efeito negativo, é apenas uma tentativa de deixar a leitura mais agradável, se levarmos em consideração as diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal. Tradução cuidadosa e primorosa, o que se percebe ao ler as introduções e as centenas de notas de rodapé, onde Frederico Lourenço apresenta um grande trabalho de semântica e sintaxe.

“[…] nós que não olhamos para as coisas visíveis, mas sim para as invisíveis. Pois as visíveis [são] temporárias, ao passo que as invisíveis [são] eternas.” 2 Co 4:18, p. 275

Conclusão

Ler a Bíblia é algo que vai muito além da fé: é, antes de tudo, uma grande viagem pela história do mundo e da literatura. As bases de nossa sociedade são fundamentadas nos preceitos do Cristianismo, então nada melhor do que ler a fonte disso tudo. Ainda mais nessa brilhante tradução crítica (laica, sem pretensões teológicas, mas sim literárias). Por “crítico”, devemos compreender que a tradução se propõe a manter-se o mais fiel possível ao original, não que se trate de uma crítica à outras traduções, ou algo do tipo. O professor Frederico Lourenço, um grande conhecedor do grego antigo, buscou com esse trabalho apresentar o texto bíblico que foi escrito antes do surgimento das diferentes correntes cristãs. Sendo assim, não temos aqui a melhor opção para você expressar sua fé, porém você terá em mãos uma das melhores versões para estudos, o primeiro projeto a se propor a verter a Septuaginta (Bíblia grega) para o português. Versão muito indicada para quem gosta de literatura, história e semântica.

“Não sejas vencido pelo mal, mas vence o mal com o bem.” Rm 12:21, p. 202

Minha nota (de 0 a 5): 5

Alan Martins

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

18 pensamentos

  1. Um dos livros que mais me incomoda ao ler… já li em vários idiomas até para confrontar a história ali descrita. O incomodo é motivado pela contradição e pela maneira escolhida de narrar tudo isso. É nítido que a contradição foi o objetivo dos autores, até porque se não se permite contrários, não se cria mitos.
    Mas, serviu para perceber a questão cíclica… como as coisas se repetem de tempos em tempos. Da mesmas maneira que o cristianismo se impôs em outros tempos, o mesmo esta a se repetir com outras crenças que usam a seu favor o velho argumento humano: medo.
    Dizer amém é sempre mais prático que enfrentar o nosso reflexo no espelho e perceber que é por nossa conta.
    Eu gosto de estudar religiões e compreender a necessidade do homem em apenas acreditar e creditar ao outro os seus próprios passos.

    bacio

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    1. A vida fica um pouco mais fácil quando acreditamos em algo superior, que obteremos salvação após a morte. Até por isso a morte é tão assustadora: é o desconhecido. Religiões são confortos para as pessoas que acreditam.
      Há contradições nos Evangelhos sim, até por terem sido escritos em épocas diferentes, pode ser por causa de copistas, ou por várias variáveis, como o contexto da época em que foram escritos. Haverá quem justificará sua fé nisso, e haverá quem conteste, como você. Aí será uma questão pessoal.
      Tirando o lado negativo, de posições preconceituosas, a Bíblia é um livro lindo para ser lido, além de interessante.
      Seria injusto culpar a Bíblia se uma religião prega questões controversas, até porque esse é um livro muito mal interpretado (ou pode ser falta de caráter mesmo). É uma questão bem ampla, não?
      Obrigado pela visita e pelo comentário!
      Abraço.

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      1. Achei interessante o que disse: fica mais fácil para quem acredita. É um modo de pensar, mas não serve para todo mundo e nem mesmo para todo e qualquer momento da vida. Há instantes em que é preciso recorrer a nós mesmos.
        Eu gosto (já gostei mais) de estudar e pesquisar as religiões e seus efeitos nas pessoas, mas ao observar o que se fa.
        Eu não atribuo culpo a biblia ou religiões, até porque não lido com esse sentimento. O considero um equivoco do homem. Eu apenas considero que o homem poderia gastar mais tempo se conhecendo que gastar tempo demais lidando com mistérios inventados distrair e afastar desse conhecer-se tão necessário porque em algum momento os monstros escondidos em baixo da cama escapam e haja terapia. rs

        bacio

        Curtido por 1 pessoa

    1. Acho que vai gostar dessa versão, pois a releitura será diferente, trazendo novidades. Além de ler o texto bíblico, com essa versão você vai adquirir muito conhecimento sobre literatura, semântica e história. Recomendo a leitura!
      Obrigado pela visita!
      Abraço.

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  2. Post incrível, Alan. Já tem um tempo em que leio a Bíblia (minha versão é da Ave Maria – edição de estudos) sob o ponto de vista histórico-literário e tenho percebido o quão importante e rico é a leitura da mesma. Uso como base de estudos tbm o livro do Erich Auerbach – Mimesis. O autor delineia um estudo das pricipais passagens do antigo e novo testamento a partir da ótica histórica e subjetiva, comparando com os clássicos gregos e do cânone ocidental. Ainda não conheço essa edição da Companhia, mas pretendo continuar os meus estudos com ela tbm. Abraços, Agnes

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    1. Será uma leitura que complementará, e muito, os seus estudos. A ótica principal dessa versão é a literária, buscando os reais significados das palavras. O tradutor também faz comparações com textos gregos clássicos, muitos dos quais ele já traduziu para o português. Vai ser mais interessante quando sair o primeiro volume do Antigo Testamento, pois a tradução será feita a partir do grego, da Septuaginta. Mas só ano que vem agora.
      Fico feliz que tenha gostado do post! Muito obrigado pelas palavras.
      Grande abraço.

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  3. Conheço o gajo. Li a sua trilogia e gostei imenso. O Frederico é uma pessoa simples e muito acessível. Gosto de sua ficção. Como tradutor tem se revelado uma referência incontestável.Não li ainda esta tradução da Bíblia, mas penso que vai pelo mesmo caminho.

    Curtido por 1 pessoa

    1. É bom saber que um profissional como ele se mostra humilde, atencioso. Ele já contribuiu e irá contribuir muito para a língua portuguesa, com suas traduções e estudos de obras gregas. Dele, só li os dois volumes da Bíblia publicados até agora. Posso afirmar que são grandes traduções, um belo trabalho. Recomendo.
      Agradeço a visita.
      Abraço. Um bom domingo.

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  4. a leitura da Bíblia é uma leitura como você disse muito bem. a grande questão, sempre colocada, não em relação a fé, é o tempo em que foi escrita. ou seja, os apóstolos e seus evangelhos teriam sido escritos décadas após os acontecimentos. e há teses que trata-se de relatos baseados na tradição oral. no entanto, é importante conhecer a Bíblia assim como livros que versam sobre outras visões de religião. compreenderíamos melhor o mundo e por certo mais tolerância, respeito a diversidade e outros valores. um belo post. do que considero essencial. um grande abraço, Alan.

    Curtido por 1 pessoa

    1. O tradutor sempre levanta essas dúvidas sobre quando e por quem os textos bíblicos foram escritos. Os Evangelhos, como a maioria dos pesquisadores concorda, não foram escritos pelos apóstolos, sequer levam alguma assinatura. São questões históricas muito interessantes. Tirando algumas questões polêmicas presentes do Novo Testamento, o que encontramos são palavras de amor, repeito e boa convivência. Muito do texto original foi distorcido por diversas interpretações tendenciosas, por isso essa volta ao passado, ao original, é necessária. Conhecendo a Bíblia, muitas questões sobre o mundo atual ficam esclarecidas. E só lendo esse livro milenar para ter argumentos contra ou favoráveis.
      Obrigado pela visita e pelo comentário que vem a calhar, complementando o post.
      Grande abraço, caro Fernando. Um ótimo domingo.

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