Minhas Leituras #32: O alienista – Machado de Assis

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“Quem disse que clássico precisa ser chato?”

Título: O alienista
Autor: Machado de Assis
Editora: Penguin – Companhia das Letras
Ano: 2014
Páginas: 104
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“— Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura”. (ASSIS, Machado de. O alienista. Penguin – Companhia das Letras, 2014, p. 36)

Considerado por muitos “o maior escritor que Brasil já teve” (e considerado um pesadelo pelos alunos do Ensino Médio), Machado de Assis escreveu, ao longo de sua vida, diversos romances, novelas, contos, poesias e peças teatrais. Seu estilo de escrita teve variações ao longo de sua carreira, encontrando seu pico de criatividade no final de 1870 até a primeira metade da década de 1880. Foi um período onde trabalhou muito, escrevendo diversas obras. Do meio desse turbilhão criativo, nasceu a novela ‘O alienista’ (1882). Trata-se de uma histórica satírica sobre um psiquiatra que resolve criar um manicômio na vila onde reside.

Já imaginou algo assim ocorrendo no bairro onde você vive? Continue lendo e descubra mais sobre esse clássico da literatura brasileira.

Um gênio autodidata

Pode parecer difícil de acreditar, mas esse gênio das Letras não teve tanto acesso ao estudo formal. Estudou por um tempo em uma escola pública, porém seu conhecimento sobre literatura e línguas veio de sua curiosidade e de sua vontade de aprender. Trabalhou como aprendiz de tipógrafo até conseguir melhores cargos em diversos jornais da época. Teve, aos 16 anos, sua primeira obra publicada, o poema ‘Ela’, publicado na revista ‘Marmota Fluminense’.

O início de sua vida não foi nada fácil. Era filho de dois ex-escravos alforriados, vivendo num período pré-abolição, já que a abolição só ocorreu 49 anos após seu nascimento. Perdeu a mãe muito cedo e teve uma infância pobre. Sua dedicação e talento fizeram sua vida mudar, posteriormente, ao alcançar o sucesso com suas publicações. Além de escritor, também trabalhou em diversos cargos públicos.

Temos aqui uma história inspiradora, de superação e conquistas. Um homem que, mesmo sem estudo formal, se tornou um dos grandes nomes da literatura brasileira, sendo, também, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. E seu nome continua influente ainda hoje, mais de 100 anos após sua morte.

“A ideia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico”. p. 21

Crítica ao positivismo

Temos, ao longo do século XIX, uma grande influência positivista nas ciências. Essa influência também chegou à psiquiatria. ‘O alienista’ se passa no início desse século, num período anterior as diversas descobertas sobre o estudo da mente humana. A Psicologia ainda era arcaica, com o saber psiquiátrico falando mais alto. A loucura era tratada como um objeto de estudo pelos médicos, que utilizavam técnicas bizarras, que jamais seriam aceitas hoje, para descobrir a origem da loucura. Esse modelo positivista cria uma padronização do comportamento humano, considerando como patológico qualquer comportamento que foge dessa “normalidade“. A novela é, principalmente, uma crítica à patologização, sendo muito satírica nesse sentido.

Os psiquiatras desse tempo eram conhecidos como “alienistas”. Analisando a palavra, vemos que se trata de alguém que mantém o(os) outro(os) em estado de alienação. Era o que eles faziam, por mais que o objetivo fosse a busca de uma cura, com seus métodos nada éticos, o único resultado que obtinham era a manutenção do estado de alienação. Uma das críticas de Machado de Assis é sobre essa manutenção da alienação, que o protagonista de ‘O alienista’ se aproveita para utiliza para criar e aplicar suas novas teorias sobre a loucura.

A visão do autor estava à frente de seu tempo, pois estava criticando os manicômios e como funcionavam. Os profissionais da saúde deveriam conhecer essa obra e a crítica que carrega, talvez assim os grandes manicômios brasileiros da primeira metade do século XX, sequer teriam sido imaginados. Afinal, a lógica manicomial apenas mantém o paciente no estado de alienação, retirando sua autonomia e sua identidade, colocando-o num estado de dependência.

Mesmo sendo uma obra crítica, por se tratar de uma sátira científica e social, o leitor terá momentos de humor; muitos momentos de humor. Machado conseguiu criar uma visão escrachada da sociedade de sua época, com momentos que beiram o nonsense, devido aos comportamentos das personagens.

Quem disse que clássico precisa ser chato? Temos aqui um excelente exemplo para provar o oposto!

“Homem de ciência, e só de ciência, nada o consternava fora da ciência […]” p. 31

Como Itaguaí ganhou uma casa de Orates

Simão Bacamarte, um renomado médico e homem da ciência, começa a demonstrar grande interesse pela psiquiatria. Seu grande objetivo se torna o estudo da loucura. Vendo que os considerados loucos da vila de Itaguaí-RJ (hoje uma cidade), é precária, pois vivem trancados nas próprias casas, decide criar um manicômio, após conversar com o governo local. Aos poucos a Casa Verde, nome pelo qual o local ficou conhecido, passa a receber muitos “pacientes”.

Essa ideia não foi muito bem recebida pela população, que passa a protestar contra o médico, principalmente após ele realizar algumas internações compulsórias, pelos motivos mais absurdos possíveis (a patologização da normalidade). Com a eclosão de uma revolta, a situação política local fica comprometida, todo mundo passa a ter medo de Bacamarte, muitos fogem, pelo temor de uma possível internação.

Nosso alienista não se satisfaz e está sempre criando e testando novas teorias. Ele não mede esforços pela ciência. Entretanto, essa busca incessante pela origem da loucura fará com que ele tenha uma espécie de crise existencial. O que pode ser dito é que, nisso tudo, reside uma grande ironia.

“Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde”. p. 71

Sobre a edição

Esta edição faz parte da coleção de clássicos publicados pela parceria entre a Penguin e a Companhia das Letras. Sendo assim, acompanha o padrão editado pelo selo. Um livro paperback, capa mole e sem orelhas, miolo em papel Pólen Soft, boa diagramação. A arte da capa é bem simples, não traz nenhuma imagem, apenas o título, nome do autor, logo da editora e um fundo em cores sólidas.

Além do texto integral, há diversas notas de Hélio Guimarães, professor livre-docente na USP e pesquisador do CNPQ e uma introdução escrita pelo britânico John Gledson, professor aposentado de estudos brasileiros na Universidade de Liverpool. Como extra, existe uma nota escrita por Machado de Assis e a cronologia de sua vida e carreira.

“Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus ultra!” p. 85

Conclusão

Se você ficou traumatizado por ter sido “obrigado” a estudar o autor na escola, tente superar esse trauma. Dê uma nova chance ao autor. ‘O alienista’ é uma obra pequena, dividida em diversos capítulos bem curtos, o que faz a leitura ser rápida e fluida. Apesar de ser um texto antigo, a linguagem não é rebuscada, muito menos complicada.

Uma boa opção para iniciar sua aventura no mundo dos clássicos. História engraçada, que entretém ao mesmo tempo em que é crítica. Machado de Assis foi um autor versátil e muito criativo. Também é um livro que resgata a história de como eram as práticas psiquiátricas do século XIX, de grande interesse para quem estuda ou atua na área da Saúde Mental, como psicólogos, por exemplo.

Não se vê críticas como as encontradas em ‘O alienista’ hoje em dia, não com muita frequência.

“— A Casa Verde é um cárcere privado, disse um médico sem clínica”. p. 44

Minha nota (de 0 a 5): 4,5

Alan Martins


Links complementares:

O jornal ‘El País’ publicou uma matéria muito interessante sobre Machado de Assis. Você pode acessá-la AQUI.

As obras de Machado de Assis estão em domínio público e é possível baixá-las de graça, através de um site disponibilizado pelo Governo Brasileiro. Acesse clicando AQUI.


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Capa simples, seguindo o padrão adotado para as obras do autor.

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Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

37 pensamentos

  1. Gostei muito da sua avaliação dessa obra, Alan.
    Tinha uma versão em capa dura, de uma coleção bastante antiga, em casa, no Brasil. Infelizmente, os livros dessa coleção (e outros) estão em lugar inapropriado e provavelmente já estão em muito más condições. O que é uma pena, porque eles fizeram parte da minha infância/adolescência e eu passei muitas e muitas horas com eles…
    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Poxa, que pena mesmo. Uma coleção inteira, em capa dura ainda. Deve ser bem triste ver esses livros em situação ruim.
      Fico feliz que tenha gostado da avaliação. Você já conhece as obras do autor, então pode dizer se a análise foi apropriada ou não. Espero que seus livros não estejam tão danificados assim.
      Abraço!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Sempre achei demasiado ler Machado em idade pouca. Porque é preciso mais que meros treze ou catorze anos para você compreender Machado.
    Não gosto do estilo do autor, mas o considero um exímio construtor de personagens. Seus humanos são reais e intensos. Você acaba por se reconhecer neles ou ver pessoas próximas, tamanha riqueza. Mas o ritmo das histórias não me agrada. Mas li a maioria dos livros de Machado. Mas tenho paixão por Nelson. Ele é meu senhor na literatura brasileira. Gosto da acidez literária do homem.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Os autores do século XIX possuem uma prosa bem diferente das que encontramos hoje. Também acredito que é preciso mais idade para encarar esses clássicos, e mais bagagem literária também. É meio difícil uma criança se interessar por leitura a partir de livros assim. Começando com livros mais dinâmicos seria melhor, aí sim é possível encarar os clássicos.
      Ainda não li nenhum romance do Nelson, quem sabe mais pra frente. Me indicaria um?

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      1. Ah, meu caro, nem todos. Depende bastante do autor. Cada um possui um ritmo muito particular.
        Quanto ao Nelson, eu gosto de quase tudo que li dele, mas sugeriria ‘o casamento’ e ‘a cabra vadia, novas confissões’ mas esse último não é um romance, e uma seleção de crônicas. mas é ótimo. bacio

        Curtido por 1 pessoa

    1. Quem sabe. É bem pequenininho, você consegue ler em um dia só. Você vai gostar. Um livro muito importante e atual, mesmo que tenha sido escrito no século XIX. Faça uma forcinha, aí você me diz o que achou! 😀
      Obrigado pela visita!
      Abraço!

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  3. O Vico leu uma adaptação de “O alienista” chamada “O mistério da casa verde” escrita por Moacyr Scliar, que ele adorou e deixou bastante intrigado sobre a loucura e os tratamentos para a loucura. Foi ano passado. Não li o original. Deve ser maravihoso. Excelente post! Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Essa adaptação é a graphic novel? Eu ouvi falar de uma, mas não conheço. Antigamente, o tratamento da loucura era a loucura em si, de tão sem noção.
      Aproveite para ler o original pelo link que deixei no final do post, dá pra baixar de graça todas as obras do autor.
      Obrigado pela visita e pelo comentário!
      Abraço!

      Curtido por 1 pessoa

  4. Me lembrei de uma peça de teatro que li na época da Alliance Française: “Knock, ou le triomphe de la médecine” (1923) . O médico interiorano encontra enfermidades na village inteira, lucra muito com isso e acaba todo mundo internado, totalmente convencidos de terem alguma patologia.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olha, o enredo aqui é mais ou menos isso, porém o interesse do alienista são os fins científicos, mesmo que ele ganhe dinheiro com isso, seu interesse é buscar a cura e as causas da loucura.
      O que achou da peça? Não a conheço.
      Obrigado pelo comentário!
      Abraço!

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  5. Hey, esse é só um dos livros da minha vida 😀 Vou aproveitar o link e ler mais obras, thanks. Penso que, no caso específico do Brasil, uma das grandes precursoras contra esse positivismo e impulsionadora de um tratamento mais humano dos pacientes foi a Nise da Silveira. Adoro o conceito do Museu da imagem do inconsciente. Posso estar a ser redutora mas é o que eu conheço 🙂 Continuação de boas leituras!!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Aproveite para ler todas as outras obras do autor!
      Sim, Nise da Silveira foi uma das pioneiras em um tratamento mais humano das psicopatologias. Já assistiu o filme ‘Nise – O coração da loucura’, que conta um pouco de sua vida? Assistiu esse ano e gostei muito.
      Obrigado pela visita e pelo comentário! Fico feliz que acompanhe o blog.
      Grande abraço.

      Curtido por 1 pessoa

      1. Já tinha a referência do filme mas ainda não consegui vê-lo, com muita pena minha. Pode ser que consiga mandá-lo vir ou o encontre por aqui. Já vi, no entanto, alguns documentários sobre ela no Youtube. Esse é um tema que me é muito querido. Embora não seja a minha área de estudo a nível académico :D, gosto de ler, por curiosidade, tudo o que relacione a arte à psicologia. Como deves saber, essa é uma vertente muitíssimo rica e à qual a Nise se entregou de corpo e alma. Daí o museu. Continua com os bons posts 😉

        Curtido por 1 pessoa

      2. Foi muito interessante mesmo como ela conseguiu juntar a psicologia e a arte no tratamento de seus pacientes. Se não fosse ela, os CAPs (Centro de Atendimento Psicossocial) daqui do Brasil não possuiriam modelos de atendimento semelhantes. Quando tiver a oportunidade, assista o filme, tenho certeza que você vai gostar muito, pois é um tema pelo qual se interessa.
        Obrigado! 🙂

        Curtido por 1 pessoa

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