Minhas Leituras #91: Memórias de Adriano – Marguerite Yourcenar

Marguerite Yourcenar Memórias de Adriano
Imagem: Wikimedia. Licença (CC BY-SA 3.0).

“O próprio Adriano não poderia ter feito melhor”

Título: Memórias de Adriano
Autor: Marguerite Yourcenar
Editora: Folha de S.Paulo (Nova Fronteira)
Ano: 2003
Páginas: 285
Tradução: Martha Calderaro
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“É difícil permanecer imperador na presença do médico e mais difícil permanecer homem.” (YOURCENAR, Marguerite. Memórias de Adriano. Folha de S.Paulo, 2003, p. 9)

Como escrever uma biografia sobre um imperador romano que morreu há séculos? Pensando bem, não parece uma tarefa fácil. Realmente não foi, porém Marguerite Yourcenar conseguiu escrever uma autobiografia, com tons romanescos, de Adriano, livro que acabou por consagrá-la como uma das maiores autoras do século XX.

Grande autora, e um grande nome (literalmente)

Marguerite Yourcenar foi o pseudônimo adotado por Marguerite Antoinette Jeanne Marie Ghislaine Cleenewerck de Crayencour — fica claro o motivo do pseudônimo. Ela nasceu em 1903, na Bélgica, país de origem de sua mãe, que faleceu poucos dias após seu nascimento. Seu pai era um burguês francês, por isso a nacionalidade de Marguerite Yourcenar era francesa, e não belga.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, acabou se mudando para os Estados Unidos e, em 1947, naturalizou-se cidadã desse país. Fugiu da Guerra a convite de Grace Frick, seu grande amor. As duas viveram juntas até 1979, ano em que Frick faleceu.

Ao longo de sua carreira literária, Marguerite Yourcenar acumulou diversos prêmios, como o ‘Prix Femina’ e o Prêmio Erasmus, além de ter sido a primeira mulher eleita para a Académie française, instituição que serviu de inspiração para a Academia Brasileira de Letras. Era fluente em Latim e Grego, por isso nutria um grande interesse pelas culturas antigas, interesse que se refletiu em suas obras. Faleceu em 1987 e foi sepultada ao lado de sua amada, em Mount Desert, Maine.

“Acreditei, e nos meus bons momentos ainda acredito, que seria possível partilhar da existência de todos os homens e que essa simpatia seria uma das formas irrevogáveis da imortalidade.” p. 12

A vida de um imperador

Acredita-se que Adriano escreveu uma autobiografia, que se perdeu com o tempo. Ele governou o Império Romano de 117 a 118 d. C. Adriano, ao lado de Nerva, Trajano, Antonino Pio e Marco Aurélio, é considerado um dos “cinco bons imperadores”, termo cunhado por Nicolau Maquiavel.

Para escrever o livro, Marguerite Yourcenaur contou com seu amplo conhecimento linguístico, além de muito estudo e pesquisa. Mesclando fatos e elementos fictícios, o livro funciona como uma espécie de carta, escrita pelo próprio Adriano, endereçada a Marco Aurélio. O imperador, já então um sexagenário e muito doente, decide relembrar sua vida e colocá-la no papel.

Essas memórias seguem uma ordem cronológica, com Adriano narrando toda sua vida, desde sua juventude em Itálica, até sua velhice, quando ficou doente. Trata-se de um Adriano que vai além do imperador, pois, por trás dessa figura quase divina, existe um ser humano repleto de interesses artísticos, cheio de amores e medos. Apesar de não ser um livro longo, é bastante completo, motivo pelo qual se tornou um sucesso e despertou o interesse pela vida de Adriano em muita gente.

“Falta ao príncipe a latitude de que goza o filósofo: não pode permitir-se discordar dos demais ao mesmo tempo.” p. 14

Encarnando o imperador

Foi na década de 1920 que a autora teve a ideia para escrever esse livro. Todavia, ela não acreditava estar pronta, se achava ainda imatura para um trabalho desse patamar e responsabilidade. A primeira publicação de ‘Memórias de Adriano’ aconteceu em 1951, um bom tempo após a ideia inicial. Durante esse espaço de tempo, muitos rascunhos foram escritos e destruídos, muita pesquisa foi feita; não foi um trabalho simples, precisou de muito empenho e dedicação.

Valeu a pena todo o esforço. O livro foi recebido com muitos elogios e as vendas foram muito boas. Marguerite Yourcenar foi uma pessoa muito erudita e escrevia muitíssimo bem. Ela realmente encarnou o imperador e escreveu com grande determinação e realismo. O leitor conhecerá um Adriano muito forte, um dos maiores imperadores romanos, porém um ser humano com falhas, fraquezas e medos. O caráter psicológico da obra transmite uma fidelidade incrível.

Por se tratar de uma autobiografia (ficcional, não se esqueça), a escrita é mais calma, lenta. Não há muita ação, que nem é o objetivo do livro. O real objetivo é narrar as diversas aventuras de Adriano durante sua vida, seu caminho até o trono e quais foram seus feitos durante seu reinado. Ao mesmo tempo, o leitor também conhecerá seu lado mais pessoal, suas paixões e seu interesses pela Arte. É quase impossível não admirar a figura do imperador Adriano após o término da leitura.

“De todos os jogos, o do amor é o único capaz de transformar a alma e, ao mesmo tempo, o único no qual o jogador se abandona necessariamente ao delírio do corpo.” p. 15

Sobre a edição

Minha edição foi publicada em 2003 pela Folha de S.Paulo, para uma coleção chamada ‘Biblioteca Folha’. Foi uma coleção composta por diversas obras de autores aclamados e cada volume podia ser adquirido ao comprar um jornal, com o acréscimo de uma pequena taxa. A Folha de S.Paulo firmou parceria com diversas editoras para publicar essa coleção, com os direitos autorais das obras sendo cedidos. Na verdade, os direitos de publicação de ‘Memórias de Adriano’, no Brasil, pertencem à Editora Nova Fronteira. A edição da ‘Biblioteca Folha’ pode ser encontrada em sebos; nas livrarias, você encontrará uma nova edição da Nova Fronteira.

Essa edição da ‘Biblioteca Folha’ é em capa dura, com sobrecapa. O miolo é em papel offset (branco) de boa gramatura. O único ponto negativo é a diagramação: fonte pequena e margens um pouco estreitas. No geral, a edição é muito bonita.

Tradução de Martha Calderaro, uma tradução antiga, porém uma das melhores que já tive o prazer de ler. Um excelente trabalho de tradução, que mantém o brilhante estilo de Marguerite Yourcenar. A edição encontrada hoje nas livrarias utiliza essa mesma tradução.

“Nosso grande erro é tentar encontrar em cada um, em particular, as virtudes que ele não tem, negligenciando o cultivo daquelas que ele possui.” p. 40

Conclusão

Se você ler esse livro e não souber que se trata de uma autobiografia romantizada, você poderia muito bem acreditar que o texto foi escrito pelo próprio imperador Adriano. Marguerite Yourcenar realmente entrou na pele e no psicológico desse grande imperador, uma figura interessante, misteriosa e surpreendentemente humana. A autora levou anos para finalizar esse trabalho, e todo esse esforço fica evidente na qualidade do material, muito bem escrito, demonstrando seu conhecimento sobre o tema da obra e sua erudição. Para quem se interessa pelo Império Romano, eis uma grande leitura, que reascendeu o interesse pela figura de Adriano nos leitores do século XX, e pode reascender também nos leitores do século XXI. Com muito estudo e muita criatividade, Marguerite Yourcenar escreveu uma obra única, que a consagrou como uma grande autora. Leitura de ritmo lento, porém altamente recompensadora.

“É um erro ter razão cedo demais.” p. 77

Minha nota (de 0 a 5): 4,5

Alan Martins

Livro Memórias de Adriano Marguerite Yourcenar
A coleção ‘Biblioteca Folha’ era composta por belas edições.


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Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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