Minhas Leituras #85: Histórias extraordinárias – Edgar Allan Poe

Livro Histórias Extraordinárias Capa Poe

“O Senhor dos contistas”

Título: Histórias extraordinárias
Autor: Edgar Allan Poe
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2017
Páginas: 448
Tradução: José Paulo Paes
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“Há qualquer coisa no amor abnegado e sem egoísmo de um animal que vai diretamente ao coração de quem tem tido frequentes ocasiões de pôr à prova a amizade mesquinha e a fidelidade frágil do simples Homem.” (POE, Edgar Allan. O gato preto. In: Histórias extraordinárias. Companhia das Letras, 2017, p. 100)

Aproveitando que Edgar Allan Poe ficou em alta em 2017, por conta da linda coletânea de seus contos, publicada pela DarkSide, a Companhia das Letras resolveu relançar sua própria seleção de contos, só que dessa vez em uma linda e detalhada edição.

Poeta de coração, contista por necessidade

Edgar Allan Poe [1809 – 1849] sempre se considerou um poeta. Ele foi um dos bons, sempre muito rígido, um poeta clássico, muito apegado à métrica e à rima. Seu poema de maior sucesso, ‘O corvo’, é considerado uma obra-prima, e em sua ‘Filosofia da composição’ podemos ver claramente como Poe gostava de regras rígidas. Porém, apesar de ser considerado um dos maiores nomes das Letras norte-americanas, esse sofrido autor não fez grande sucesso em vida.

Um poeta de coração, porém um contista por profissão. Era preciso ganhar dinheiro de alguma forma, então o autor acabou por escrever diversos contos, que foram vendidos para revistas literárias de sua época. E, no fim, Poe acabou se tornando mais famoso por seus contos, que fascinam os leitores desde o século XIX.

Falando em conto, ele dizia que esse tipo de prosa é muito superior ao romance, que seria longo demais, necessitando de dias para ser finalizado, o que acabaria com o clímax. Uma boa história, segundo Poe, seria aquela que levaria, no máximo, duas horas para ser lida, instigando e surpreendendo o leitor até o final. Sua contribuição para o conto foi enorme, tornou-o popular e ditou algumas regras básicas de composição. Com toda certeza, um autor de grande importância para a Literatura.

“O homem não se entrega aos anjos, nem se rende inteiramente à morte, senão pela fraqueza de sua débil vontade.” In: Ligeia, p. 22

Seleção com alguns dos melhores contos do autor

Quem fez a seleção dos contos presentes nessa edição foi o próprio tradutor, o poeta José Paulo Paes, que faleceu em 1998. Aliás, a Companhia das Letras já havia anteriormente publicado ‘Histórias extraordinárias’, mas em uma edição simples, pelo selo Companhia de Bolso.

Ao adquirir essa nova edição, o leitor terá em mãos uma seleção bem variada. Mesmo que Poe seja conhecido como um ícone do terror, seus contos não ficavam presos a apenas esse gênero. Algumas de suas melhores histórias são narrativas de aventuras, descoberta de tesouros, ou narrativas policiais.

Seu personagem C. Auguste Dupin pode ser considerado o pilar das histórias de detetive, que, com certeza, deve ter servido como uma grande inspiração para a criação do lendário Sherlock Holmes, de Sir Arthur Conan Doyle. Mas este é apenas um exemplo. Se levarmos em conta os escritores de terror, são inúmeros aqueles que citam Poe como um mentor.

“Quem já não se viu, centenas de vezes, a cometer um ato vil ou estúpido por nenhuma outra razão que não a de saber que não devia cometê-lo?” In: O gato preto, p. 102

Receita rígida

Apesar de boa parte dos dezoito contos que essa edição traz ser composta por joias raras, nem todos são tão interessantes assim, passando longe de serem leituras divertidas. É que, após ler alguns desses contos, nota-se que existe certa semelhança em todos eles, há algo em comum na escrita.

É que Poe acreditava que um conto deveria ser escrito de determinada forma, como se houvesse um modelo de sucesso. Isso fez o autor parecer limitado, com histórias que apresentam enredos diferentes, mas que parecem iguais, pois o clímax dá-se da mesma maneira.

Pode-se citar as histórias de mulheres que morrem e atormentam seus maridos neuróticos, que as amavam sem qualquer traço de romantismo; temos os assassinatos brutais, que são revelados por algum elemento sobrenatural; ou os casos solucionados pelo detetive sabichão, que sempre dá uma palestra sobre como resolveu o caso que parecia sem solução.

Isso pode parecer algo negativo hoje, porém temos que levar em conta que, na época do autor, seu estilo e suas histórias eram novidades, não havia muita coisa parecida até então. E é por isso que Poe é considerado um clássico, pela sua inovação, pela coragem de encarar e ir contra o movimento literário dos Estados Unidos do século XIX, muito voltado à crítica social, como os romances de Mark Twain.

“Um insulto permanece sem troco quando os efeitos da vingança atingem ao próprio vingador, ou quando este falha em tornar-se conhecido como tal daquele que o insultou.” In: O barril de Amontillado, p. 145

Sobre a edição

Se a intenção da Companhia das Letras era publicar uma edição que batesse de frente com a antologia da DarkSide, temos que admitir que foi feito um bom trabalho. Edição em capa dura, com muitos detalhes em baixo e alto-relevo, miolo em papel Pólen Soft, contendo ilustrações e uma boa diagramação. A editora também entrega alguns extras, como três textos que abordam a importância e a técnica de Edgar Allan Poe, escritos por Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e Charles Baudelaire.

Como já foi dito, a tradução foi feita pelo poeta José Paulo Paes. Trata-se de uma tradução que foi publicada pela primeira vez em 1958. O estilo de Paes mostra a idade da tradução. Não que seja uma tradução ruim, pelo contrário, é muito boa, todavia foram empregados termos pouco utilizados hoje em dia. A linguagem evolui e se modifica bastante com o tempo, essa tradução demonstra isso e é por essa razão que as traduções devem se renovar com o passar das décadas. Em contrapartida, sem querer fazer uma comparação, a tradução da edição da DarkSide, feita por Marcia Heloisa, apresenta uma linguagem mais moderna. A melhor, no fim das contas, será aquela que mais agradar o leitor.

“Mesmo para os pervertidos, para quem vida e morte são brinquedos igualmente frívolos, há assuntos sobre os quais não se admitem brincadeiras.” In: A máscara da Morte Rubra, p. 188

Conclusão

Uma boa seleção de contos de Edgar Allan Poe, bem variados, contendo histórias de terror, mistério, suspense e aventura. O conteúdo extra é bem interessante e didático, são grandes autores (Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e Charles Baudelaire) falando sobre um artista que admiravam. Há uma ilustração no início de cada conto, o que deixa a edição um pouco mais premium. A Companhia das Letras caprichou no projeto gráfico e esse é um livro que tem uma das capas mais bonitas de todas, muito detalhada. Poe é um autor que despensa comentários, uma inspiração para qualquer pessoa que sonha em escrever um livro de ficção; seus contos e poemas surpreendem os leitores desde o século XIX. Também é preciso ressaltar sua contribuição para o conto, esse tipo de prosa que ele ajudou a popularizar, e do qual gostava bastante. É uma edição que vale a pena ser conhecida, principalmente por aqueles que nunca leram algum conto de Edgar Allan Poe. Se esse for o caso, não perca tempo, venha conhecer esse mestre!

“E, na verdade, entre dois e três, existe apenas uma unidade de diferença.” In: Pequena palestra com uma múmia, p. 41

Minha nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins

Livro Histórias Extraordinárias Edgar Allan Poe
Um livro que surpreende por fora e encanta por dentro.

No Brasil, não existe uma edição que contenha todos os contos de Edgar Allan Poe. Veja quais são os dezoito contos presentes nessa edição:

Clique para exibir o sumário dessa edição

Apresentação 9
Ligeia 15
Pequena palestra com uma múmia 39
A carta roubada 67
O gato preto 97
O sistema do doutor Alcatrão e do professor Pena 113
O barril de Amontillado 143
O poço e o pêndulo 155
A máscara da Morte Rubra 181
Berenice 191
Sombra — uma parábola 207
O diabo no campanário 213
A queda da casa de Usher 227
O caixão quadrangular 257
O escaravelho de ouro 277
O coração delator 329
William Wilson 339
O retrato ovalado 369
O homem da multidão 377
O contista — Julio Cortázar 395
Edgar Allan Poe — Jorge Luis Borges 417
Novos comentários sobre
Edgard Poe — Charles Baudelaire 421
Sobre o autor e o tradutor 447


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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