Minhas Leituras #66: O processo – Franz Kafka

Capa do livro O processo, Kafka, Companhia de Bolso

“Absurdismo que choca e surpreende”

Título: O processo
Autor: Franz Kafka
Editora: Companhia de Bolso
Ano: 2005
Páginas: 272
Tradução: Modesto Carone
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“A Justiça precisa estar em repouso, senão a balança oscila e não é possível um veredicto justo.” KAFKA, Franz. O processo. Companhia de Bolso, 2005, p. 145

Muitos são os autores que se inspiraram em Franz Kafka, em seu estilo absurdo, surreal. Um dos livros que mais expressam essa característica kafkiana (até ganhou nome!) é ‘O processo’, uma obra publicada após a morte de seu autor.

Um dos grandes nomes do século XX

Nascido em Praga (então parte do Império Austro-Húngaro), no ano de 1883, Kafka acabou se tornando um dos mais importantes nomes da literatura do século XX.

Estudou direito e trabalhou em uma companhia de seguros durante boa parte de sua vida. Sempre gostou de literatura, principalmente de autores como Dostoiévski, Flaubert e Gógol. Inclusive, muitos críticos apontam forte inspiração em ‘Crime e castigo’ para a composição de ‘O processo’.

Apesar de ter sido uma grande inspiração para autores como Albert Camus, Haruki Murakami, José Saramago, Philip K. Dick e Jorge Luis Borges, Kafka não fez muito sucesso em vida. Após sua morte — por complicações causadas pela tuberculose —, seu amigo Max Brod preservou seus manuscritos, publicando-os posteriormente, descumprindo o pedido de Kafka para que todos fossem queimados (sorte a nossa!). Foi a partir dessas publicações póstumas que o nome do autor ganhou notoriedade e virou esse fenômeno, aclamado até os dias de hoje.

“[…] é que, seja como for, estou muito surpreso, mas quando se está há trinta anos no mundo e foi preciso abrir caminho nele sozinho, como é o meu caso, fica-se endurecido diante das surpresas, e elas acabam não sendo levadas tão a sério.” p. 16-17

Absurdo e surreal

Citei que Kafka foi uma inspiração para Camus, isso é evidente, basta comparar o estilo de ambos. Boa parte do absurdismo do argelino vem do autor boêmio, porém o primeiro elevou o absurdo a níveis… absurdos!

Ao ler ‘O processo’, nos deparamos com situações que são muito absurdas sem sentido, que chocam o leitor pelo exagero. Para começar, podemos citar o início do romance, onde o protagonista, Josef K., é surpreendido por agentes de um tribunal não especificado, dentro de seu próprio quarto. Tudo isso por conta de um crime que o protagonista supostamente cometera, porém, esses agentes não especificam a culpa de K.; ele é acusado sem conhecer o real motivo e passará a narrativa em busca de algum sentido para a acusação.

Esse tribunal é cheio de detalhes mirabolantes, apresentados de uma maneira difícil de crer, com grande criatividade e até mesmo certo humor. Na tentativa de provar que é inocente desse crime desconhecido, K. encontrará muita gente que deseja ajudá-lo, pessoas que fazem parte da grande rede formada por esse tribunal, sendo cada um desses personagens no mínimo… bem… absurdo.

“Ele tendia a levar as coisas pelo lado mais leve possível, a crer no pior só quando este acontecia, a não tomar nenhuma providência para o futuro, mesmo que tudo fosse ameaça.” p. 10

Falta algo

O original de ‘O processo’ era um livro inacabado, com capítulos incompletos, sem uma revisão feita pelo próprio autor. Todavia, Max Brod resolveu publicá-lo mesmo assim, organizando-o da forma que achou mais adequada; organização esta que muitos críticos afirmam não ser a mais adequada, pois apresenta capítulos fora de ordem cronológica.

Quem já leu ‘A metamorfose’ conhece o estilo de Kafka, que é realmente absurdo e surreal. Porém, neste caso, essa característica estilística ficou ainda mais acentuada por se tratar de um livro incompleto e inacabado. É um livro que, de certa forma, não faz muito sentido.

Por isso existem diversas interpretações acerca dessa obra, que se baseiam em perspectivas psicológicas-psicanalíticas, religiosas, biográficas e políticas. Cada um pode ler o livro e interpretá-lo à sua maneira, o que deixa o livro interessante, tornando-o atemporal. E é interessante conhecer essas inúmeras interpretações, buscar compreender certo capítulo a partir de um ponto de vista diferente.

Isso tudo justifica a fama obtida pelo livro, mas não o torna a leitura mais agradável e divertida do mundo; passa um pouco longe disso, na verdade. A sensação de incompletude, de falta de polimento, é bem forte.

“Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.” p. 7

Sobre a edição

Trata-se de uma edição de bolso, como o nome do selo editorial indica. Mas é uma edição de bolso que surpreende pela qualidade. Brochura, capa simples (sem orelhas), miolo em papel Pólen Soft e uma diagramação até agradável para uma edição de bolso — formato de livro que, geralmente, apresenta margens mais estreitas e fonte pequena.

Tradução aclamada do autor e tradutor Modesto Carone, especialista em Kafka, que também escreveu um posfácio à edição. Há alguns extras, como os capítulos inacabados (traduzidos) e as partes do manuscrito que foram riscadas pelo autor. Esse conteúdo contribui para uma melhor compreensão da obra.

“[…] pois mesmo a mínima incerteza no assunto mais insignificante é sempre um tormento, e quando é fácil eliminá-la, como neste caso, então é melhor fazê-lo o quanto antes.” p. 83-84

Conclusão

Quem já leu Haruki Murakami ou Albert Camus, se sentirá em casa ao ler Franz Kafka, e vice-versa. São autores que viajam pelo absurdo e pelo surreal. Em ‘O processo’, Kafka mostra de forma bem acentuada esse seu estilo, que acabou se tornando uma marca, além de uma inspiração para inúmeros autores contemporâneos. O enredo é um tanto confuso, tanto de maneira intencional, pois assim foi escrito, quanto por se tratar de um livro incompleto, que o autor não teve tempo de finalizar, pois, infelizmente, veio à óbito antes. Não espere uma das leituras mais agradáveis e interessantes, porém se prepare para situações absurdas, engraçadas, criativas e que surpreendem pela “falta de sentido”. Leitura que abre caminho para as mais variadas interpretações. Uma delas pode ser uma crítica ao sistema judiciário, cheio de funcionários vaidosos, onde os processos caminham a passo de tartaruga. Cada leitor interpretará o livro de uma forma totalmente diferente, o que prolonga a longevidade da obra. Vale a pena conhecer ‘O processo’ pela importância de Kafka para a literatura, entretanto, eu não diria que esse é um dos melhores livros que já li.

“As pessoas sempre se rebelam.” p. 66

Minha nota (de 0 a 5): 3,5

Alan Martins

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

15 pensamentos

  1. Minha fase de Kafka passou… ficou nos bastidores da faculdade de psicologia em tempos idos. E gostava do estilo, da genialidade insana que me dissolveu minha condição em uma única página de seu livro. Metamorfosear em um inseto. Ok. Não em barata. Enfim, se bem que lhe sou sincera em dizer que nunca vi uma barata ali, ao ler…

    Talvez um dia eu volto a ele. Nunca se sabe. No momento estou com os pés e a alma em Fiodor de novo e de novo. Então, quem sabe depois que passar. No ano passado eu li um pequeno diário dele e me apaixonei por algumas coisas. rs

    bom feriado, meu caro

    Curtido por 1 pessoa

    1. Uma releitura pode trazer novas visões, ainda mais agora, em um outro momento de sua vida. Talvez a leitura desse diário venha a complementar a leitura de suas obras, trazer novos entendimentos. Vale a pena tentar.
      Obrigado pela visita. Tenha um ótimo feriado também.
      Abraço.

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    1. É muito provável que, se eu ler este livro novamente o futuro, terei uma outra visão sobre o mesmo, uma outra interpretação. Acho que a grande fama dessa obra vem dessa característica, não há apenas um visão e também não há a correta. Com a morte de Kafka antes de sua publicação, o livro ganhou esse mistério. Obra importante para a literatura.
      Obrigado pela visita.
      Grande abraço. Bom domingo.

      Curtir

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