Minhas Leituras #42: Medo clássico – Edgar Allan Poe

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“Poe nunca esteve tão bem representado no Brasil”

Título: Medo clássico, v. 1
Autor: Edgar Allan Poe
Editora: Darkside Books
Ano: 2017
Páginas: 384
Tradução: Marcia Heloisa
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“Àqueles que sonham de dia, é dado a conhecer muito do que escapa aos que sonham apenas à noite”. (POE, Edgar Allan. Eleonora. In: Medo Clássico. Darkside Books, 2017, p. 263)

Inspiração para diversos autores, como H. P. Lovecraft, Stephen King e Neil Gaiman, Edgar Allan Poe ajudou a consolidar diversos gêneros literários e criou uma legião de leitores amantes do horror e do mistério. Dentre sua vasta produção de contos, a editora Darkside Books selecionou 15 e os organizou em uma bela edição, digna à importância desse grande autor.

O mestre dos mestres

Grandes autores, como já foi dito, citam Poe como uma inspiração. Mas sua importância para a literatura vai muito além, com diversos artistas de renome, como Machado de Assis, Fernando Pessoa e Arthur Conan Doyle, colocando-o como uma das pessoas que mais contribuíram para a literatura ocidental. Sem Poe, talvez a literatura fantástica, assim como histórias policiais e cientificas, não seriam tão difundidas e apreciadas.

Foi um contista e poeta, nunca publicou um romance. Gostava que seus textos fossem lidos de uma vez, acreditando que, se a leitura fosse interrompida para ser continuada mais tarde, a experiência acabaria prejudicada. Trabalhou em diversos jornais, editando e como crítico literário, pois suas obras não lhe rendiam muito dinheiro, sendo impossível se manter apenas com a literatura.

Sua morte até parece um de seus contos, cercada de mistérios. O médico Joseph W. Walker encontrou-o vagando, à noite, pelas ruas de Baltimore, em estado de delirium tremens, vestindo roupas que não eram suas. Apesar de ter sido internado em um hospital local, o autor faleceu quatro dias depois. Até hoje não há um consenso sobre as causas de sua morte, mas sabe-se que Poe estava passando por diversos problemas após o falecimento de sua esposa e possuía problemas com o álcool. Seu legado e sua importância sobrevivem até hoje, tornando-o um artista de relevância, mesmo em pleno século XXI, 168 anos após sua morte.

“E então, tudo é loucura — loucura de uma memória que se ocupa de coisas proibidas”. In: O poço e o pêndulo, p. 38

Mistério no ar

Os contos de Poe se encaixam no gênero ‘horror’. Não são histórias que causam medo, como o ‘terror’, mas sim narrativas que abalam o psicológico, seja por meio de descrições grotescas, pelo suspense ou por elementos sobrenaturais. Porém, o forte do autor é o mistério, presente em quase toda sua obra, e é o estilo que mais predomina nessa coletânea, com diversos contos carregados de mistério.

Logo de início, temos uma grande surpresa, com o conto ‘O poço e pêndulo’, um suspense que causa extrema aflição. Como o livro é dividido em temas, cada seção possui três contos da mesma temática. Passamos por histórias assombradas pela morte, leremos as confissões de atos homicidas, mergulharemos nas minuciosas análises do detetive Dupin (personagem de extrema importância para a literatura policial e de investigação), conheceremos as tristes histórias de mulheres etéreas, embarcaremos em grandes aventuras, até chegarmos ao grand finale, com o poema mais conhecido de Poe, ‘O corvo’, apresentado na forma original e nas traduções de Machado de Assis e Fernando Pessoa (vale apontar que o poema é antecedido pelo texto ‘A filosofia da composição’, onde Poe explica como o compôs).

É interessante notar que todos os contos do autor são narrados em primeira pessoa, escritos como se fossem relatos de quem narra. Ao menos é assim com os contos presentes nesta edição.

“— O mundo material – prosseguiu Dupin — está repleto de analogias bem estritas com o imaterial; deste modo, um toque de verdade foi dado ao dogma retórico e, assim, a metáfora pôde ser empregada para fortalecer um argumento ou embelezar uma descrição”. In: A carta roubada, p. 224

O bom e o ruim

Dentre os 15 contos, há altos e baixos. Seria difícil conseguir agradar a todos, já que são diversas histórias sobre assuntos variados e escritas em estilos distintos. O livro começa bem, mas vai decaindo no decorrer das seções, até o nível voltar se elevar nas seções finais. Não que sejam contos ruins; são cansativos.

As duas primeiras seções possuem contos que prendem a atenção e afligem a alma, deixando a curiosidade reinar, o que faz a leitura se tornar gostosa e bastante fluida. Quando chegamos aos contos do detetive Dupin, esse ritmo se quebra. O primeiro conto, ‘Os assassinatos na rua Morgue’ é legal, possuindo um mistério intrigante. Todavia, é uma história muito detalhista, onde Dupin descreve todo o seu método de solução do mistério, ficando algo monótono e sem graça, o que acomete as histórias seguintes também.

Por serem, todos, contos de poucos diálogos, a fala do narrador se torna entediante em alguns momentos, pelo grande detalhamento expresso. Claro que muitos desses detalhes são o legado de Poe à literatura, porém isso não quer dizer que sejam divertidos de se ler. Nos últimos contos, esse cenário muda e tudo volta a ser muito bom, principalmente em ‘O escaravelho de ouro’, uma grande história de mistério, aventura e suspense.

Talvez a seleção feita pela editora para este volume não tenha sido a melhor, mas sua intenção é publicar toda a obra de Poe, sendo assim, existirão contos bons e outros nem tanto. E isso não quer dizer que a leitura deste primeiro volume foi chata, muito pelo contrário, foi legal e interessante conhecer os escritos que inspiraram muitos dos meus autores favoritos.

“E naquela hora nefasta da noite, no silêncio tenebroso daquela velha casa, um ruído assim tão medonho provocou-me um terror incontrolável”. In: O coração delator, p. 110

Sobre a edição

Conhecida pelo capricho em seus livros, a Darkside se superou. Fazendo jus à grandeza do autor, a edição possui capa dura (com acabamento em soft touch) com um design sensacional, miolo em papel de tom off white e de boa espessura, assim como uma boa diagramação. Antes de cada conto há uma ilustração, em xilogravura, do artista brasileiro Ramon Rodrigues. Como foi dito antes, os contos são separados em cinco seções temáticas, deixando a organização bem dinâmica.

A tradução ficou por conta de Marcia Heloisa (que também escreveu uma introdução para esta edição), leitora ávida de histórias de terror e fã declarada de Edgar Allan Poe. Possui um mestrado sobre ‘Drácula’ e, atualmente, desenvolve sua tese de doutorado sobre ‘O exorcista’. Uma boa tradução, sem simplificar as palavras, mas deixando o texto coeso e claro. Há alguns errinhos que a revisão deixou passar, mas são detalhes que não atrapalham a leitura ou o entendimento da obra. Além da introdução escrita pela tradutora, a edição conta com um prefácio escrito pelo poeta francês, e grande divulgador de Poe na Europa, Charles Baudelaire.

“Há algo de altruísta e abnegado no amor de um animal que toca o coração daquele que pôde testar amiúde a amizade precária e a fidelidade leviana dos Homens”. In: O gato preto, p. 86

Conclusão

Coletânea de qualidade e capricho nunca vistos antes no Brasil. Allan Poe nunca esteve tão bem representado em nosso país. Mas é preciso lembrar que, dentre os 15 contos presentes, nem todos são divertidos. A maioria é, porém, há altos e baixos, com a leitura se tornando arrastada em alguns momentos. Vale a pena conhecer esse autor de grande relevância para e literatura, em uma edição bonita e cheia de extras.

“’Tens o aspecto tosquiado’, disse eu, ‘mas de nobre e ousado,/ Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!/ Diz-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.’/ Disse o corvo, ‘Nunca mais’”. In: O corvo, trad. Fernando Pessoa, p. 367

Minha nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins

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A editora proporcionou todo o capricho que o autor merece.
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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

26 pensamentos

  1. Eu tenho vários livros de Poe… e já foi minha preferência literária na juventude. Hoje, estou a preferir outros estilos, mas confesso que esse signore me aguçou muito os sentidos e ainda compro os livros que encontro dele (essa edição tenho cá) mesmo já conhecendo os contos… gosto de tê-los por perto para um momento de terror. rá

    bacio

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    1. Tem algumas edições no mercado. A da Tordesilhas traz mais contos, mas parece que eles não vão publicar um novo volume. Esses mês sairá uma pela Companhia das Letras, bastante parecida com essa da Tordesilhas. A Darkside disse que vai publicar mais volumes, então esse é o primeiro de outros que estão por vir. Essa edição é a mais bonita de todas, no estilo bem dark mesmo.
      Obrigado pela visita!
      Abraço! 🙂

      Curtido por 1 pessoa

    1. Os contos dele causam mais aflição do que medo, né? É curioso como ele descreve as coisas de maneira fantástica,tornando o simples algo interessantíssimo.
      As diferenças entre terror e horror vão além, mas acho que as que coloquei no post são as principais, e fico feliz que tenha gostado da explicação, sinal de que ficou clara! 🙂
      Obrigado pela visita!
      Abraço.

      Curtido por 2 pessoas

  2. Hey, já leste o Poe 😀 Eu li, em 2013, uma colectânea de 31 contos. É um tipo de terror que está, intrinsecamente, ligado à génese do romantismo (enquanto vertente literária). Por isso acaba por ser uma variante diferente do terror contemporâneo, embora seja uma das suas traves mestras. Sempre tive interesse por ele porque, quando ainda andava no liceu, tinha uma panca muito grande pelo Fernando Pessoa, daí até chegar ao ‘Corvo’ não foi nada difícil 🙂 Mais do que procurar chocar pelo gosto de chocar, o fantástico e o suspense em Poe é profundamente psicológico e humano. Enquanto que nos contos de investigação (baseados em factos reais) é profundamente cerebral, o lado fantástico dá o outro lado da moeda. Há contos em que aborda a hipnose e o mesmerismo, áreas que já começavam a ser desbravadas no seu tempo de vida. Há também outro, do qual já não me lembro do nome, que aborda uma questão que acontecia muito, na altura, porque não existiam recursos médicos avançados como agora — de pessoas que eram enterradas mas ainda não estavam bem mortas (penso que daí é que nasceu o conceito de campainha). Ou seja, uma grande parte do seu fantástico e terror está relacionado com a morte, o tempo e o desejo de imortalidade. Psicologicamente, é como se quisesse resgatar pessoas e amadas da morte. É um desejo bastante humano, pena é que tenha vivido sempre na penúria. Aconselho a adaptação do Gato preto para cinema. É muito bom. Abraço e bom resto de domingo 🙂

    Curtido por 2 pessoas

    1. Tem uma seção nesta edição com contos sobre esse tema de enterrar a pessoa viva, pensando que ela estivesse morta. Embora existe algumas características sobrenaturais em alguns contos, a maior parte fala mesmo sobre morte, desse medo do perigo, de perder a vida. Também foi um dos primeiros autores a escrever sobre a loucura, apesar do pouco conhecimento psicológico que havia na época. Poe era sim um romântico, mas que andou por caminhos tortuosos, o que o tornou aquilo que é hoje. Sua edição possuía muito mais contos do que esta, não tenho certeza que li os melhores, mas espero um novo volume, com mais contos.
      Obrigado pela sua contribuição, com um grande olhar sobre a obra do autor.
      Vou procurar mais sobre esta adaptação para o cinema!
      Abraço, aproveite o domingo! 🙂

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      1. Se tem o gato preto, os crimes da rua morgue e a continuação, e a queda da casa de usher, esses são os principais dos principais. Estava aqui a rever o livro e gostei bastante, também, do homem da multidão, e o colóquio entre monos e una. O primeiro, se me lembro, é sobre as divagações de um homem doente que caminha sozinho numa rua repleta de gente; o segundo é uma conversa (diálogo só) acerca do conceito de renascimento, vida e morte. Vais gostar do segundo volume, de certeza. Abraço 🙂

        Curtido por 2 pessoas

      2. Pelo jeito essa edição possui os principais, então, pois há mais dois contos de Dupin, a continuação e ‘A carta roubada’. Acho que vou gostar sim do segundo volume. No próximo mês, será publicado o primeiro de Lovecraft.

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      3. Aqui também já foram editados dois volumes com ‘os melhores contos’ do lovecraft, da editora ‘saída de emergência’, mas ainda não os tenho. É aproveitar agora 🙂 Até tenho curiosidade por cauda do King (não é que seja uma grande conhecedora, mas o Shining é o Shining) e poder relacionar as coisas é sempre bom 🙂 Uma boa semana!!

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  3. Eu tenho essa edição da Darkside e já li alguns contos. Edgar Allan Poe é sem dúvidas um dos maiores escritores do gênero terror e um grande poeta. Ainda não encontrei uma tradução dos poemas, só de contos. Espero que a Dark lance logo 😄. Gostei muito da sua resenha. Quais contos vc mais gostou? Um dos meus preferidos foi o Poço e o Pêndulo. As descrições dos tormentos do personagem e todo o sofrimento que ele passou foram muito bem descritos por Poe. 😄😄

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    1. É provável que o volume 2 saia ano que vem, já que o primeiro foi muito bem aceito e vendeu pra caramba, mas acho difícil publicarem os poemas.
      Eu gostei bastante de ‘Poço e o pêndulo’ também, ‘O gato preto’ também foi legal de ler, ‘Os assassinatos na rua Morgue’, apesar de cansativo, é bom e ‘O escaravelho de outro’ é uma grande história de aventura. Acho que esses foram os que mais gostei. Mês que vem sai a edição de H. P. Lovecraft. Pretende comprar?

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      1. Sim, ainda não li nada do Lovecraft, mas gostei muito do projeto gráfico da Martin Claret e as resenhas que já li são bem positivas. Terror não é o meu gênero favorito, no entanto, gosto do desafio de ler outros gêneros. Gostei muito de ler alguns contos de Poe e pretendo continuar lendo autores que sigam essa linha.

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      2. Então vai gostar bastante de Lovecraft, pois ele é um discípulo de Poe, além de sua escrita se diferenciar, um pouco mais sangrenta e violenta do que a de seu mentor. Recomendo muito a leitura de alguns de seus contos.

        Curtido por 1 pessoa

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