Minhas Leituras #81: Deuses americanos – Neil Gaiman

Deuses americanos livro capa intrínseca Gaiman

“A América não é um bom lugar para deuses”

Título: Deuses americanos
Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Ano: 2016
Páginas: 576
Tradução: Leonardo Alves
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“É mais difícil matar uma ideia do que uma pessoa, mas, no fim das contas, ideias também podem morrer.” (GAIMAN, Neil. Deuses americanos. Intrínseca, 2016. p. 71)

O livro que consagrou a carreira de Neil Gaiman como um dos maiores autores de horror e fantasia da atualidade, mistura mitologias do mundo todo, criando uma narrativa única e difícil de ser classificada em apenas um gênero literário.

Um autor respeitado

Os primeiros trabalhos de Neil Gaiman, da década de 1990, já fizeram sucesso, consagrando-o como um autor com um grande futuro pela frente. Quem é fã de quadrinhos deve conhecer a série ‘The Sandman’, que fez, e ainda faz, bastante sucesso; Gaiman é um dos criadores dessa série.

Em 1990, publicou o livro ‘Good omens’ (‘Belas maldições’ no Brasil, livro publicado pela Editora Bertrand), tendo Terry Pratchett como coautor — há uma série, baseada nesse livro, sendo produzida, programada para ser lançada em 2019. Em 1996, Gaiman publicou o livro ‘Neverwhere’ (‘Lugar nenhum’ no Brasil, publicado pela Editora Intrínseca), que é a romancização da série homônima que ele ajudou a criar.

A partir da década de 2000, Neil Gaiman publicou muitos livros de sucesso, como ‘Deuses americanos’ (obra que venceu os prêmios Hugo, Nebula, Locus e Bram Stoker), ‘Coraline’ (leia minha resenha AQUI), ‘O oceano no fim do caminho’ e, ano passado, ‘Mitologia nórdica’, que já resenhei AQUI. Autor versátil e criativo, além de possuir uma escrita fantástica, respeitado pelos grandes nomes da literatura mundial.

“As pessoas só brigam por coisas imaginárias.” p. 409

Deuses decadentes

Sem a fé, não há deuses. A crença e a fé das pessoas criam novas entidades, que são reforçadas pelo culto e pelas oferendas recebidas; é o que Gaiman diz no livro. Quando os povos antigos atravessaram o oceano, chegando à América do Norte, trouxeram consigo suas crenças e seus deuses, que também se estabeleceram no Novo Mundo.

Porém, com o tempo, essa fé foi sendo perdida; convenhamos, não é comum ver alguém prestando tributo a Thor hoje em dia, por exemplo. Sem essa crença, os deuses enfraquecem, são esquecidos e podem até desaparecer. Ao mesmo tempo, há um novo tipo de fé surgindo: a fé na tecnologia, na internet, no dinheiro.

Quem já foi forte um dia, não quer perder o poder. Agora há um embate entre os antigos deuses e esses novos deuses da tecnologia, do mundo moderno e globalizado. O protagonista, Shadow, vai se encontrar perdido no meio disso tudo, sem entender muita coisa. Assim que ele se encontrar com o enigmático Wednesday, sua vida mudará completamente e uma mitológica aventura através dos Estados Unidos terá início.

“Em geral, você é o que as pessoas acreditam que seja.” p. 191

Pequenos detalhes

No mínimo, podemos afirmar que ‘Deuses americanos’ é um livro inteligente, assim como seu autor. Os pequenos detalhes fazem muita diferença. Principalmente os nomes dos personagens, que podem dizer muita coisa, e é algo com o qual o leitor deve ficar atento. Por exemplo o protagonista, chamado de Shadow. Ele pode parecer um protagonista ruim, sem atitude, meio apagado. Mas olhe bem para seu nome: “Sombra”. Sua personalidade muda um pouco, dependendo de quem o acompanha, como se ele ficasse à sombra da outra pessoa.

Gaiman gosta muito da mitologia nórdica, que foi a mais utilizada nessa obra, apesar de apresentar deuses de diversos países e culturas. É altamente indicado ler o livro ‘Mitologia nórdica’, do próprio Gaiman, antes, para adquirir certo conhecimento sobre essa mitologia e seus deuses, o que vai deixar a leitura de ‘Deuses americanos’ muito mais divertida, já que o texto fará mais sentido.

Não é um livro difícil de ser lido. Há jogos de palavras, principalmente com os nomes, mas, para quem ficar confuso, basta uma rápida pesquisa no Google. É um livro muito bem escrito, a linguagem do autor é muito boa, até poética. Há certas partes onde a leitura fica mais devagar, que podem ser consideradas até desnecessárias. Todavia, a narrativa empolga, deixando o leitor curioso.

Um livro difícil de ser classificado, apresentando elementos de terror, ficção científica, mistério e mitologia. Talvez seja por isso que o sucesso alcançado foi tão grande. Quem ler essa obra e gostar, pode assistir, depois, a série homônima, que saiu ano passado e está disponível no serviço de streaming da Amazon, o Prime Video, plataforma semelhante ao Netflix.

“Nunca houve uma guerra que não tenha sido travada entre dois grupos inteiramente convictos de que estão fazendo o que é certo.” p. 227

Sobre a edição

Edição padrão, encadernação brochura. A capa, que tem orelhas, apresenta um detalhe que a faz parecer áspera. Miolo em papel Pólen Soft 70g/m², boa diagramação. Por ser a “edição preferida do autor”, há alguns extras: partes do texto original que foram removidas pelo editor, na primeira edição; uma entrevista com o autor e alguns pequenos textos de sua autoria; e um rascunho de uma cena onde Shadow se encontra com Jesus, que ficou de fora do enredo de todas edições.

Boa tradução de Leonardo Alves, que já traduziu vários livros de fantasia e ficção científica. Ao final dessa edição, ele explica as dificuldades encontradas na tradução, que são os jogos de palavras feitos por Gaiman. É difícil adaptá-los para a língua portuguesa. Como não foram utilizadas notas de rodapé para explicá-los, acredito que o tradutor se saiu bem em suas adaptações.

“Por isso, todos, lembrem-se: não é só porque vocês são pequenos que não tem poder.” p. 139

Conclusão

Já pensou se os deuses antigos andassem entre nós? É mais ou menos o que o leitor encontrará em ‘Deuses americanos’. Quem gosta de mitologia, vai gostar bastante desse livro, que mistura várias culturas e cria algo totalmente novo, original. Gaiman disse que, após se mudar para os Estados Unidos, queria escrever um livro sobre esse país. Ele conseguiu. Apesar de ser um estrangeiro — ele é britânico —, conseguiu capturar a cultura desse enorme país. Como todos sabem, os EUA são o centro do capitalismo, da globalização. O mundo globalizado é dinâmico, novos “deuses” surgem e desaparecem com a mesma velocidade. A música digital substituiu o CD, que havia substituído o vinil. Não é um mundo para deuses antigos e antiquados, para crenças de séculos passados. Shadow, o protagonista, se encontrará no meio desse embate e terá um importante papel a cumprir. Misturando terror, mistério e fantasia, Neil Gaiman conseguiu criar uma obra incrível, um clássico moderno. Não é seu livro mais fácil de ser lido, mas é o mais grandioso, até então.

“Às vezes, o caminho mais rápido é o mais longo.” p. 128

Minha nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins

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Design simples, mas cheio de charme. Uma bela edição.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

9 pensamentos

  1. Concordo, esse é o livro mais grandioso de Gaiman.
    Poderia até ter expandido mais a história, como uma trilogia, pois a premissa é muito boa e abrangente.
    Uma pena ter acabado por aqui.
    Sobre o seriado, não gostei muito do primeiro episódio e acabei desistindo.

    Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Que sabe o Gaiman não explora esse universo um pouco mais, há muitas possibilidades e o final desse livro dá abertura para bastante coisa. Tem ‘Os filhos de Anansi’, que, apesar de não ser uma continuação direta, faz parte desse universo.
      A série eu ainda não conheço, vou tentar assistir para ver se é boa. Mas tem muito para ser explorado ainda, com certeza.
      Grande abraço!

      Curtido por 1 pessoa

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