Minhas Leituras #84: Celular – Stephen King

Capa livro Celular Stephen King

“Não é novidade que os celulares transformam pessoas zumbis”

Título: Celular
Autor: Stephen King
Editora: Suma
Ano: 2018
Páginas: 384
Tradução: Fabiano Morais
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“O que Darwin foi educado demais para dizer, amigos, é que dominamos a Terra não porque somos os mais inteligentes, ou mesmo os mais cruéis, mas porque sempre fomos os mais loucos, os mais desgraçados homicidas da floresta.” (KING, Stephen. Celular. Suma, 2018, p. 178)

Aproveitando a popularidade dos celulares, afinal é raro encontrar quem não tenha um, Stephen King resolveu escrever uma história que envolvesse esse aparelho. Já pensou se, ao receber uma chamada, você se transformasse em um zumbi? Tio King pensou nisso e o resultado foi esse livro.

Nascido para escrever

Você diria que um cara que já teve mais de setenta livros publicados, que publica dois livros por ano, e que já vendeu mais de trezentas e cinquenta mil cópias, gosta de escrever ou não? É preciso gostar muito dessa profissão para manter esse grande volume de publicação, mesmo aos setenta anos.

A qualidade literária das obras de Stephen King pode ser questionada — ele mesmo, certa vez, disse que seus livros são o equivalente literário de um Big Mac com fritas —, todavia é preciso admitir que seus livros fizeram com que muitas pessoas se interessassem pela literatura. Sua popularidade trouxe uma nova vida à literatura de terror e também aos filmes de terror, pois muitas de suas obras já foram adaptadas para o cinema.

Entre os vários prêmios que já recebeu, estão a medalha de Eminente Contribuição às Letras Americanas da National Book Foundation (2003), o World Fantasy Award – Life Achievement (2004) e a nomeação de Grão-Mestre dos Escritores de Mistério dos Estados Unidos (2007). Ou seja, se tratando de mistério, terror e fantasia, o nome de King está entre os maiores de todos os tempos.

“— Ele disse que a mente pode calcular, mas o espírito deseja, e o coração sabe o que o coração sabe.” p. 277

Quem diria que os celulares transformam pessoas em zumbis?

É comum ouvir pessoas, principalmente os mais velhos, comentarem sobre aqueles que ficam com o celular nas mãos o tempo todo. “Eu falo com ele, mas nem me escuta. Só olhando pra esse celular, até parece um zumbi”. Confesse, você já ouviu, ou até mesmo já disse, algo do tipo.

Stephen King levou essa ideia ao pé da letra. Em uma tarde agradável, todos aqueles que estavam usando um celular (em uma ligação) passam a agir de maneira muito estranha. Ficam violentos, começam a matar qualquer um que veem pela frente, utilizando qualquer tipo de ferramenta como arma e, caso não tenha uma, usando os próprios dentes.

Clayton Riddell, o protagonista, é um artista gráfico do Maine, que acabou de fechar um contrato para a publicação de uma HQ, com uma editora de Boston. Quando o Pulso acontece (nome como o evento ficou conhecido), Clay está em um parque e vê todo o início da loucura, da onda de violência que irá destruir todo o modo de vida que os moradores dos EUA conheciam até então.

Com seu pequeno grupo, formado por pessoas que não foram afetadas pelo Pulso, por não estarem usando um celular, o protagonista partirá em busca de sua família, enfrentando hordas de fonáticos (os zumbis), e descobrindo que essas criaturas não são tão tolas quando aparentam ser.

“Clay pensou, como quase sempre pensava quando via uma variação daquele comportamento, que aquele ato no passado teria sido considerado de uma falta de educação quase intolerável — sim, mesmo durante uma pequena transação comercial com um completo estranho —, e agora se tornará um comportamento cotidiano ordinário.” p. 15 [falando sobre usar o celular a todo momento]

Parecia bom, parecia…

King dedicou esse livro a Richard Matheson (autor de ‘Eu sou a lenda’) e George Romero (diretor do filme ‘A noite dos mortos-vivos’). Os filmes de Romero são conhecidos por serem filmes de zumbis; no livro de Matheson, o protagonista só sai às ruas durante o dia, se escondendo após o pôr do sol. Então, em ‘Celular’ temos zumbis, com algumas diferenças das criaturas clássicas, e personagens que precisam se esconder não à noite, mas durante o dia.

Tudo começa muito bem, há ação logo de cara, as pessoas começam a enlouquecer após o Pulso e o mundo vira do avesso. Porém, após certo tempo, a narrativa fica muito repetitiva, com as personagens fazendo as mesmas coisas (viajando à noite e se escondendo/dormindo de dia), e os fonáticos sempre apresentando uma “surpresa”, um comportamento diferente.

O caminho que King escolheu para desenvolver sua história ficou exagerado. Chega uma hora em que os fonáticos conseguem levitar, sério! O caminho escolhido foi o de ficção científica, bem nonsense, contrapondo o início, cheio de horror e suspense. Parece que faltou um pouco de inspiração ao autor, pois ‘Celular’ compartilha semelhanças com ‘A dança da morte’, um livro onde personagens se reúnem em grupos, após um evento catastrófico, e viajam pelos Estados Unidos, tendo sonhos estranhos, encontrando sobreviventes, etc.

Para piorar, ficamos sem respostas para muitas questões. Não há uma explicação concreta para o Pulso, apenas suposições (King diz, no livro, que supor é coisa de idiota). Temos explicações do tipo “o cérebro humano não usa 100% de sua capacidade, se usasse, seríamos capazes de coisas incríveis”, “o cérebro é como um disco rígido, pode ser apagado e reprogramado” e eventos telepáticos. Ademais, o final é decepcionante, deixando o leitor com mais dúvidas ainda.

Um livro carregado de clichês (menino nerd que é mestre em informática, filho em perigo, garota frágil que se torna durona) e de situações forçadas, dando poucas respostas para o que está acontecendo. Parecia que seria uma grande leitura, mas acabou que não foi. A impressão que ficou foi a de que o autor não soube muito bem como levar sua história adiante, não de maneira satisfatória.

Em 2016, o livro virou filme, contando com John Cusack e Samuel L. Jackson no elenco. Foi um filme muito criticado, recebeu notas muito baixas da crítica especializada e é tido como uma péssima adaptação.

“Porque o sr. Ricardi acabara sendo gente boa. Talvez a maioria das pessoas ou fosse, se tivesse a chance.” p. 69

Sobre a edição

Edição comum. Brochura, capa com orelhas, miolo em papel Pólen Soft. A diagramação poderia ser melhor. Essa nova edição chega a ser inferior à primeira, de 2007, publicada pela Objetiva, que apresentava fonte maior e estilizada em certos momentos (por exemplo, há um momento em que uma personagem lê o que está escrito em uma caixa; na edição antiga, a frase usa uma fonte que imita um estêncil, já nessa nova edição, a mensagem está apenas em caixa alta). A arte da capa dessa edição de 2018 dá grande destaque ao nome do autor, é bem enfático: este é um livro de Stephen King. Poderiam ter feito algo mais interessante.

Tradução de Fabiano Morais, a mesma tradução de 2007, apenas com nova revisão. Achei uma boa tradução, com boas adaptações. A revisão mexeu na estrutura do texto e acrescentou erros que não existiam antes.

“— Bem, azar o dela! O mundo é perturbador pra cacete!” p. 151

Conclusão

Uma história de zumbi um tanto quanto diferente, um pouco mais tecnológica. Foi uma ideia original utilizar celulares para transformar as pessoas em zumbis que são o puro “id” freudiano, a pulsão de morte que, no livro, é pura violência. O começo da história é muito bom, e há partes que surpreendem, com os zumbis evoluindo. Entretanto, um pouco depois, a narrativa se torna repetitiva e frustrante. King fez escolhas bizarras para seu enredo, muitas delas desnecessárias. Seria mais legal se ele tivesse dado mais ênfase ao horror, com algo um pouco mais realista, porém preferiu uma bizarrice sci-fi. Contendo muitos clichês, poucas respostas e um final broxante (King é o rei dos finais ruins), ‘Celular’ foi um dos piores livros, desse autor, que já li. Stephen King tem muita coisa melhor para ser lida, que valem muito mais a pena o tempo investido. A sensação, ao final da leitura, é a de que poderia ter sido uma história muito melhor do que aquela que foi entregue.

“Mais tarde lhe correu a ideia de que o corpo sabe lutar quando precisa; e aquela é uma informação que o corpo guarda, do mesmo jeito que o faz com as informações de como correr ou pular na água, dar uma trepada ou, muito possivelmente, morrer quando não há outra escolha.” p. 30

Minha nota (0 a 5): 2,5 — a leitura não foi de toda ruim, mas o final decepcionou demais.

Alan Martins

Livro Celular Stephen King Suma
Com o nome do autor tão evidente assim nada capa, dá para saber que se trata de um livro de Stephen King a 5 km de distância!

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

16 pensamentos

  1. Então Alan, do King os que eu queria muito ler é o “A Hora do Lobisomem”, o “Belas Adormecidas” que foi escrito junto com o filho dele e o “A Metade Sombria” (esse eu vi rumores de que sairia em breve pelo aquele selo “Biblioteca Stephen King”. Mudando de assunto, vc já chegou a ler algum livro do outro filho deles, um que usa o pseudônimo de Joe Hill? Gostei bastante da atmosfera de terror que ele cria com o “A Estrada da Noite”.

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  2. Do Stephen King li o primeiro volume da série Torre Negra aos trancos e barrancos e abandonei o Sob a Redoma nas primeiras 300 páginas.
    Realmente não está entre as melhores leituras.
    Mas o Sobre a Escrita dele eu recomendo para qualquer um que goste de escrever.

    Curtido por 1 pessoa

      1. Do King por enquanto só tive a oportunidade de ler o “O Iluminado” e o “Quatro Estações”… gostei bastante dos dois, e no “Quatro Estações” aquele conto do garoto meio maluco que fica amigo do tiozão nazista é sensacional…

        Curtido por 1 pessoa

      2. Esse conto aí é meio perturbador, mais o que histórias sobrenaturais, porque é algo que pode ser real, que pode acontecer de verdade! Por isso esse livro é tão bom, por ser mais realista. Se você quer ler mais King, tenho alguns outros que eu recomendaria, agora, ‘Celular’ não, como você pode ver pela resenha. 😂

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      1. Na verdade, meu primeiro contato com Stephen King foi com À espera de um milagre. Eu adorei. Depois li It, achei legal mas algumas partes são absurdas. Eu estava pensando em ler esse, mas depois da sua resenha acho melhor não kkk
        Alguma dica?

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      2. Eu gostei bastante de ‘À espera de um milagre’ também, e de ‘It”, não muito.
        Eu recomendo a você “Quatro estações’, é um livro composto por quatro novelas, que fogem do tema sobrenatural, acho que você vai gostar. E tem também ‘Novembro de 63’, uma história de viagem no tempo, um livro muito bom mesmo!

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