Treinamento de Habilidades Sociais em uma relação pai-filha

Treino de habilidades sociais Pai Filha conversando
Imagem: Mohamed Hassan, via Pixabay. Publicada sob Licença (CC 1.0).

Este artigo trata-se de um resumo expandido que apresentei em um evento do meu curso de Psicologia, em 2017. O tema abordando é o Treino de Habilidades Sociais e sua aplicação clínica, apresentando os resultados obtidos em um caso que atendi em meu estágio.

É uma leitura interessante por mostrar como uma psicoterapia pode ser útil para diversos tipos de situações, principalmente uma de abordagem Comportamental. Além disso, as primeiras impressões, as primeiras queixas, revelam muito pouco do real problema, há muita coisa por trás; a queixa é, na maioria das vezes, o resultado de outras situações (comportamentos disfuncionais), aquilo que realmente deve ser o foco do trabalho terapêutico.

Espero que seja uma leitura interessante (apesar da linguagem um tanto quanto técnica) e que traga algum tipo de conhecimento ao leitor.

Introdução

O Treino de Habilidades Sociais é um procedimento para desenvolvimento de repertórios operantes necessários para aumentar a probabilidade de obtenção de reforçadores sociais. Uma pessoa socialmente habilidosa é capaz de expressar sua opinião publicamente, de forma “adequada”, não sendo “submissa” nem “agressiva” (BORGES; CASSAS, 2012). Em suma: uma pessoa que possui um refinado repertório de habilidades sociais conseguiria agir de maneira assertiva, evitando utilizar-se de agressão, uma vez que o comportamento assertivo é muito mais eficaz nas relações sociais, mostrando-se um importante agente no desenvolvimento da capacidade de se expressar (PINHEIRO; et al, 2006).

Objetivo

O presente trabalho discorrerá sobre a eficácia do Treino de Habilidades Sociais (THS) em um caso no qual uma adolescente de 14 anos possuía uma grande dificuldade de comunicação e interação com seu pai, apresentando comportamentos inassertivos, assim como a evolução obtida com o emprego desse tipo de técnica. Um comportamento pode ser modelado por condicionamento operante se o repertório comportamental de um sujeito for modificado através de reforçamentos sistemáticos que se assemelham ao comportamento desejado (BAHLS; NAVOLAR, 2004). Ademais, quando comportamentos assertivos são reforçados, ações agressivas ou inassertivas deixam de receber reforçadores, podendo produzir a extinção desses tipos de comportamento do repertório do sujeito, que ocorre quando há a retirada de estímulos reforçadores de um comportamento — a extinção tem como objetivo a eliminação de um comportamento (BANOV, 2015).

Materiais e métodos

Utilizou-se de pesquisa bibliográfica sobre o tema, baseando-se em autores que estudam a terapia comportamental (TC) e nos resultados obtidos nas sessões realizadas na clínica-escola da Faculdade da Alta Paulista (FAP).

Resultados e discussões

A cliente foi encaminhada à clínica-escola pelos pais, que acreditavam se tratar de um caso de depressão. Diziam que a garota chorava muito, não tinha vontade de realizar atividades e apresentava-se sempre triste. A visão analítico-comportamental, segundo Dougher e Hackbert (2003), explica a depressão por: Funções Consequenciais (baixa densidade de reforço, extinção, punição); Estímulo Discriminativo (situação onde uma determinada resposta, e não outra, é contingentemente sucedida de um evento reforçador); Funções Respondentes (reações emocionais eliciadas por reforço insuficiente são fontes recorrentes de sofrimento posterior); e Funções Estabelecedoras (operações estabelecedoras podem acentuar o efeito reforçador de algumas consequências, aumentando a possibilidade de respostas que produziram reforços estabelecidos no passado, elevando a efetividade evocativa de estímulos discriminativos associados a reforços estabelecidos). São prejudiciais ao desenvolvimento da criança e do adolescente tanto os problemas de comportamento externalizantes quanto os internalizantes. Alguns exemplos de comportamentos externalizantes são: irritabilidade e nervosismo; rebeldia e desobediência; agressividade e provocação. Exemplos de comportamentos internalizantes são: desinteresse por atividades acadêmicas; tristeza e depressão, e retraimento social (BOLSONI-SILVA; SILVEIRA; MARTURANO, 2008). Nesse caso, a jovem apresentava uma grande tristeza, com a qual os pais se confundiram, imaginando tratar-se de uma depressão. A função dessa tristeza foi encontrada por meio da Análise Funcional, ferramenta que prima encontrar as relações estabelecidas entre indivíduo e ambiente, dando a possibilidade de experimentação de modificações nessas relações. Descreve-se o comportamento dentro de determinadas circunstâncias (A) onde o indivíduo responde de tal maneira (R) e quais as consequências que mantém essa resposta (C) (BANACO, 1999). Observando a relação familiar dessa adolescente, e utilizando essa ferramenta técnica, foi possível notar como sua falta de assertividade reforçava os comportamentos disfuncionais de seu pai. Sua falta de habilidades sociais a prejudicava em momentos onde seria mais eficiente apresentar uma consequência reforçadora a um comportamento positivo de seu pai. Reforçar um comportamento de uma pessoa, quando ela se comporta próximo ao objetivo estabelecido por quem reforça, é muito mais eficaz do que recompensar apenas quando ela agir corretamente, pois a demora pode desmotivá-la (BANOV, 2015). Algumas das técnicas mais empregadas no THS são o fornecimento de instruções, ensaio comportamental, modelação, modelagem, feedback verbal e em vídeo, tarefas de casa, reestruturação cognitiva, solução de problemas, relaxamento (MURTA, 2005). Foram utilizados o fornecimento de instruções e o ensaio comportamental, que ajudariam a adolescente a fortalecer seu vínculo com seu pai. Como tarefa de casa, ela fez algumas anotações em um caderno, uma forma de ela mesmo fazer uma análise funcional na prática. A tarefa foi realizada dentro das sessões, por falta de adesão da cliente.

Conclusão

Ao longo da terapia, diversos avanços foram obtidos. Os comportamentos assertivos melhoraram, atualmente a cliente consegue fazer solicitações ao pai sem o medo de uma resposta agressiva dele. As respostas que ela esperava foram reforçadoras ao comportamento de pedir, aumentando a probabilidade de recorrência, tornando-a mais assertiva nessa relação. Os comportamentos adequados de seu pai foram reforçados com gestos de gratidão e afeto (agradecer, dizer “eu te amo”), algo que não existia até então, e que são reforçadores para ele. Houve também o fortalecimento do laço entre os dois. Os resultados obtidos em terapia foram muito satisfatórios para a cliente, que apresentou vários comportamentos de melhora nessa relação entre pai e filha, segundo as queixas iniciais apresentadas.

Referências bibliográficas

BAHLS, S. C.; NAVOLAR, A. B. B. Terapia cognitivo-comportamentais: conceitos e pressupostos teóricos. Psico UTP, 4, p.1-11, jul. 2004.

BANACO, R. A. Técnicas cognitivo-comportamentais e análise funcional. In: KERBAUY, R. R.; WIELENS, R. C. (Org.). Sobre comportamento e cognição. Santo André: Arbytes, 1999. Cap. 9. p. 75-82.

BANOV, M. R. Behaviorismo, o controle comportamental nas organizações. In: Psicologia no gerenciamento de pessoas. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2015. p. 19-39.

BOLSONI-SILVA, A. T.; SILVEIRA, F. F.; MARTURANO, E. M. Promovendo habilidades sociais educativas parentais na prevenção de problemas de comportamento. Rev. bras. ter. comport. cogn., 10-2, p. 125-142, dez. 2008.

BORGES, N. B.; CASSAS, F. A. (Org.). Clínica analítico-comportamental: aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed, 2012.

DOUGHER, M. J.; HACKBERT, L. Uma explicação analítico-comportamental da depressão e o relato de um caso utilizando procedimentos baseados na aceitação. Rev. bras. ter. comport. cogn., 5-2, p. 167-184, dez. 2003.

MURTA, S. G. Aplicações do treinamento em habilidades sociais: análise da produção nacional. Psicol. Reflex. Crit. 18-2, p. 283-291, ago. 2005.

PINHEIRO, M. I. S. et al. Treinamento de habilidades sociais educativas para pais de crianças com problemas de comportamento. Psicol. Reflex. Crit., 19-3, p. 407-414, 2006.


* Tive uma excelente orientadora de estágio em 2017, Thais Yazawa é seu nome. Ela me ajudou com o trabalho acima e me ensinou muito sobre Análise de Comportamento. Muito obrigado por tudo aquilo que me ensinou e por ter sido uma pessoa muito disponível, sempre me ajudando quando precisei.

 


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

6 pensamentos

      1. Eu comprei um livro de habilidades sociais para crianças quando os meninos eram pequenos. Tinha brincadeiras pra eles fazerem. Quando encontrar o livro te envio o nome do autor. Anotei a lista que você passou.😊Abraço

        Curtido por 1 pessoa

      2. Achei o livro! 😁O título é “Atividades para o desenvolvimento da inteligência emocional nas crianças”. Os autores são do GROP- Grup de Recerca en Orientació Psicopedagògica- Barcelona, España: Rafael Bisquerra Alzina, Núria Pérez Escoda, Montserrat Cuadrado Bonilla, Èlia López Cassà, Gemma Filella Guiu e Meritxell Obiols Soler. Tradução Sueli Brianezi Carvalho. Editora Ciranda Cultural, edição 2009. Ufa😅Boa semana, Alan!

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