A (in)gratidão de cada dia

Na última sexta-feira, dia 18 de maio, aconteceu algo inusitado na cidade onde vivo, Tupã/SP. Um empresário guardou R$70 mil (em espécie) dentro de um saco de lixo. Por um engano, esse dinheiro acabou indo parar no lixo. Após se dar conta do erro, esse empresário foi atrás dos coletores (que trabalham em trios), que interromperam o serviço e se deslocaram ao aterro sanitário, a fim de encontrar o dinheiro no meio de todo o material que haviam coletado.

O final dessa história foi feliz para o tal empresário, que recuperou seu dinheiro, com a ajuda dos coletores. Estes, por sua vez, disseram (em entrevista a um canal de televisão) que sentiam-se bem por terem devolvido os R$70 mil, gratos pela boa ação. Como recompensa, receberam R$100,00 desse empresário, para que dividissem entre os três.

Essa “recompensa” parece uma piada de mau gosto, ainda mais se a quantia recuperada for levada em consideração. O Artigo 1.234 da Lei 10406/02, que discorre sobre a descoberta de itens perdidos, diz: “Aquele que restituir a coisa achada, nos termos do artigo antecedente, terá direito a uma recompensa não inferior a cinco por cento do seu valor, e à indenização pelas despesas que houver feito com a conservação e transporte da coisa, se o dono não preferir abandoná-la”.

Ninguém deveria ser obrigado a dar uma recompensa, afinal, aquilo que eu perdi não deixa de me pertencer automaticamente. Quem perde não o fez por escolha própria. Devolver um item encontrado também é um ato que essa mesma lei obriga que seja realizado. Observando a questão dessa forma, não há muito espaço para uma “boa ação”; ou você faz, ou você será punido. Pelo prisma de Psicologia Comportamental, a punição nunca é um caminho que deve ser considerado, pois não é reforçadora e pode eliciar novos comportamentos, muitas vezes indesejados.

Muito mais reforçador seria se a recompensa dada aos coletores fosse maior. Cem reais, dividido entre três pessoas, não parece grande coisa, pode até mesmo ser desestimulante, motivo de chacota (pode ser visto de forma negativa por quem recebe, ou por outros que observam). Uma quantia maior como recompensa seria vista por todos de uma forma muito mais positiva, tornando-se um exemplo para que boas ações sejam realizadas, reforçando esse tipo de comportamento (um gesto, o afeto, tudo pode funcionar como estímulo positivo, não somente coisas materiais; o caso determinará a melhor aplicação desse tipo de estímulo). Todos gostam de gestos de gratidão, e, muitas vezes, sentimos um impulso em agir dessa forma, o que se torna gratificante depois.

Todos deveriam seguir o exemplo desses coletores. Um item perdido pode fazer muita falta ao dono. Não devemos realizar esse tipo de ação esperando algo em troca, o que evitará frustrações. Porém, dependendo daquilo que recebemos em troca, pode ser muito pior que não receber nada (são questões passíveis de observação em nossas pequenas ações diárias). Gratidão é sempre bem-vinda e pode fazer uma grande diferença na vida em sociedade, criando exemplos a serem seguidos. Um gesto de gratidão é capaz de mudar uma visão sobre alguém, ou sobre algo.

Alan Martins

Notícia sobre o caso do dinheiro: http://portal.maistupa.com/2018/05/18/exemplo-10/

Lei 10406/02: http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/Leis/2002/L10406.htm

Aterro sanitário, lixo, lixão
Aterro sanitário em Perth, Austrália. Imagem por Ropable. Publicada sob Licença (CC0 1.0). Disponível em: https://www.goodfreephotos.com/.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

4 pensamentos

    1. Penso assim. Se fosse para dar uma recompensa, que fosse um valor realmente recompensador, digno. Um “obrigado” soaria muito melhor do que o baixo valor que foi dado. Saiu mais feio do jeito que foi feito.
      Agradeço sua visita!
      Abraço.

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