O PAI PROVEDOR

Um homem passa por diversas etapas durante sua vida, umas mais fáceis, outras que se mostram um imenso desafio. Podemos situar a etapa de ser pai entre as mais desafiadoras. Há aqueles que escolhem inserir essa etapa em suas  vidas, assim como existem os que encaram essa tarefa meio que por acidente, meio sem querer.

Ser pai não é algo simples e nem todos conseguem desenvolver esse papel de maneira positiva. Como é possível observar, em cada função, ou em cada papel, há quem se destaca, e há quem falha, quem encontra dificuldades.

Refletindo acerca desse pensamento, podemos conceituar pais dos mais diversos tipos. Nesse post, pretendo analisar apenas dois desses tipos: o pai provedor, e o pai ideal. Todo homem é igual e diferente ao mesmo tempo. Mesmo que cresçam em ambientes completamente distintos, certas circunstâncias estarão presentes na vida de todos em determinado momento. Esses conceitos que estou criando, serão explicados no decorrer do texto, com uma análise sobre o que é ser homem e como isso implica em ser pai.

Ser homem

Se alguém pensa que ser homem é algo muito fácil, essa pessoa está instalada de maneira confortável na zona do engano. Não se pode negar que o simples fato de ser homem já concede vantagens ao sujeito, falando de um ponto de vista social, porém o homem precisa quebrar muitas barreiras e conceitos, tendo de enfrentar um mal que ele próprio cria.

Ainda é extremamente comum ouvir pessoas dizendo: “Você não deveria usar essa cor, isso não é cor de homem”; “Isso é trabalho de homem”; “Homem não deve demonstrar fraqueza”; “Homem não chora”. Frases desse tipo estampam a primeira página da categoria de machistas. Quem, senão o próprio homem, que cria esse machismo? É a criatura se voltando contra o criador.

Observando de um ponto de vista evolucionista, alguns conceitos fazem parte da história do sujeito homem. Era preciso ser forte e não demonstrar fraqueza quando se vivia como um selvagem, sendo preciso enfrentar criaturas para garantir a própria sobrevivência e a sobrevivência do grupo. Mas o mundo e todos os seres que o habitam evoluíram, não se vive como há milhares de anos atrás. Ou seja, nenhum homem precisa ser um troglodita hoje.

Mas isso não ocorre de maneira plena, nem se pode afirmar se de maneira menos recorrente. Vemos homens cheios de pensamentos arcaicos, que não fazem o menor sentido no século XXI. Esse fato reflete e cria problemas em suas relações. São um problema para suas mulheres, amigos e filhos. A forma de agir e pensar de maneira machista implica sérios danos à relação entre pai e filhos.

O que é um pai provedor?

Um pai desse tipo não quer dizer que essa pessoa é ruim ou má, mas é uma pessoa que não consegue desempenhar sua função de pai de maneira plena, ou satisfatória. Por ser uma pessoa que não consegue lidar com os preconceitos, suas ações ficam limitadas. Seria impossível afirmar que esse pai aja dessa maneira por vontade própria, o mais provável é que ele gostaria de ser diferente, mas seus preconceitos o impedem de agir diferente. Temos aqui um homem que possui grande dificuldade afetiva.

Pai e mãe são papéis distintos, porém se assemelham tanto que essa distinção pode se perder. Quem disse que um pai não pode demonstrar seu afeto? Dizer frases como “Eu te amo” aos filhos? Ou ser mais participativo na vida deles? Pois é, todo mundo acha lindo ver esse tipo de situação, é admirável observar um homem amar os filhos. Entretanto, o pai provedor não consegue agir dessa forma. Sua capacidade de demonstrar seu afeto é limitada, pois sua mentalidade não lhe permite isso, já que ele não estaria sendo “homem”. Seus preconceitos são mais fortes. Uma ironia: demonstrar força, quando na verdade o que se demonstra é fraqueza. Ele tenta distorcer o significado de “ser homem” a seu favor, qualquer situação que desvie de seus preceitos é encarado como uma ameaça;

Além disso, o pai provedor é muito apegado ao dinheiro, toda situação é vista de um ponto de vista econômico. Um preceito, que vem de períodos da descoberta do fogo, é o de que o homem deve garantir o sustento da casa. O pai provedor vive em função dessa ideia. Para ele, ser um bom pai é colocar comida dentro de casa, apenas isso já está de bom tamanho. É louvável um pai se esforçar trabalhando para que os filhos não passem fome, porém despesas de casa podem ser divididas, afinal a mulher, a mãe, também trabalha. Só que, para esse pai, uma mulher não pode trabalhar, ela deve cuidar dos filhos. Uma mulher trabalhando significa uma pontada de dor na masculinidade. Pior ainda, o Sr. Provedor pode se cansar, em algum momento, de sustentar os filhos, dizendo que eles devem trabalhar e garantir o próprio sustento, afinal já estão velhos, não é mais sua função ajudá-los. Isso seria “perder” dinheiro.

Viver e agir dessa forma distancia o pai dês seus filhos. Não há lugar para o afeto, não existe muito diálogo. É bem possível que, para os filhos, o significado de pai não se reflita nesse tipo de homem.

O pai ideal

“Ideal” é uma boa palavra, pois denota aquilo que é suficiente, se afastando do adjetivo “perfeito”, pois nada é perfeito., muito menos um ser humano.

Não é tão difícil ser um pai ideal. A maior diferença entre ele e o pai provedor, é que o primeiro consegue se desatar das amarras do preconceito. Mesmo que ele ainda encontre dificuldades, agir de maneira contrária ao que preza o Sr. Provedor não o diminui, ele não se sente menos homem por isso. Temos aqui um pai que consegue demonstrar o afeto que sente pelos filhos de forma plena, sendo capaz de transmitir todo o seu sentimento de uma maneira que será compreendida e absorvida.

Para um filho, a presença constante da figura do pai é de grande importância para sua vida, para seu crescimento, para o seu psicológico. Por isso digo que os papéis de pai e mãe acabam por se difundir numa densa névoa, pois são pessoas essenciais no desenvolvimento de seus frutos. Muito mais do que se importar com o sustento da casa, o pai ideal se preocupa com a vida do filho, integralmente.

Em questão evolutiva, esse homem está um passo à frente dos demais. Temos um papel paterno mais significativo e eficaz. Esse pai será lembrado pelos filhos em momentos bons e ruins. O significado dessa palavrinha fará mais sentido para eles. Nem por isso quer dizer que o Sr. Ideal possa regredir em determinados momentos, pois ser homem não é algo tão fácil, a sociedade é cheia de preconceitos, todavia ele entende que agiu de maneira negativa e tenta se corrigir, ele não tem medo de dizer que está errado.

Esse tipo de pai não é o âmago da perfeição, não age sempre da maneira mais eficiente, porém, no dicionário pessoal de seus filhos, ele será o primeiro significado para a “PAI”.

Tudo é passível de mudança

Ser um pai provedor, hoje, não significa que é impossível ser um pai ideal amanhã. Somos seres em constante transformação, o que eu era ontem, hoje já deixei para trás e serei algo completamente novo amanhã. Somos metamorfoses. O Sr. Provedor é conservador, ele gosta de estacionar e ficar no conforto de certa previsibilidade, enquanto o Sr. Ideal não teme o desconhecido, ele busca sair da caverna escura do preconceito.

Basta desejar ser diferente, basta aceitar e reconhecer os erros. Ser pai é muito mais do que prover o sustento da casa, é muito mais do que o dinheiro. Amor é base para qualquer relação, nenhuma perdura sem afeto. Uma pessoa presente, que demonstra carinho, que se preocupa, é alguém que será lembrado e terá um significado especial no coração de quem recebe toda essa afeição.

Não vale agir como um pai ideal apenas da boca pra fora, é preciso que isso seja natural. Não é incomum ver pais que se dizem arrependidos, que fogem. Esses não se enquadram no significado dessa palavra, certamente existirão outros que darão melhor significado à ela. Um pouquinho de reflexão sobre o assunto não faz mal a ninguém, pelo contrário, é muito construtivo.


Escrevo isso sem ter uma experiência como pai. Talvez um dia alguém irá me chamar de pai, e espero que para essa pessoa eu represente o pai ideal. Se desligar de preconceitos — que são, no mínimo, uma grande estupidez — é o primeiro passo para uma paternidade mais significativa.

Decerto esse post carece de um aprofundamento. Porém os pontos principais foram levantados. Creio que seja possível extrair uma reflexão sobre ser homem, ser pai, ou seja, vários conceitos, a partir dessa leitura. É o que desejo e estarei plenamente satisfeito caso o texto o tenha feito pensar, o mínimo que seja.

Se você é um pai ideal, parabéns, continue assim. Caso se considere um pai provedor, tente refletir de maneira crítica sobre isso, admita os erros e as dificuldades. Ainda há tempo para reparar aquilo que grita por uma intervenção.

Sei que não temos aqui o texto mais alegre para esse dia, mesmo assim, feliz dia dos pais!

Obrigado por ler até aqui.

Um forte abraço.

Alan Martins

o_pai_provedor
‘Father and daughter’, por Anthony Kelly. Publicada sob Licença (CC BY 2.0). Disponível em: https://flic.kr/p/5a6gEa.

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Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

10 pensamentos

  1. Acho que o ideal não existe. Somos humanos e estamos sempre insatisfeitos. Eu tive um pai incrível. Um homem raro com quem contar, brigar, ralhar, rir, chorar e suspirar. Aprendi muito. Tenho saudades e terei sempre porque muitos dos meus atos são dele. O levo em mim por aí. rs

    bacio

    Curtido por 2 pessoas

    1. Talvez um ideal geral não exista mesmo, não há como moldar um pai que seria ideal a todos. Mas acredito que existam características importantes para todo mundo, algumas que todos prezam. Como ser uma pessoa presente, por exemplo. Você teve um pai ideal para sua pessoa, e isso é muito bom, lhe fará sempre se sentir feliz por se lembrar de como ele participou de maneira positiva na sua vida,
      Obrigado por ler o post e por comentar.
      Abraço.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Alan, o afeto é sem dúvida fundamental em qualquer família que se preze, mesmo que não seja a dita tradicional brasileira. Eu, quase com 30 anos na cara, como você disse, sinto a falta de uma família amorosa. Meus pais têm grande dificuldade de dar afeto, talvez por não o terem recebido de seus pais. Sempre é hora de mudar, mas me pergunto até que ponto o filho deve correr atrás ou deixar o responsável se tocar. Principalmente enquanto adulta, sem filhos, bate aquela dorzinha no peito quando perguntam como é a minha família.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Eu também possuo pais que não são tão expressivos em relação ao afeto. Não são aquelas pessoas que dizem o que sentem abertamente. Isso fica difícil até para nós filhos, pois acaba se tornando natural agir assim e tentar mudar pode ser um grande desafio. Mas tenho certeza que é possível transformar certas coisas, começando aos poucos. Muitas vezes os filho é que devem tomar uma atitude, para que o processo possa se desenvolver. Algo simples né, que acaba se tornando um grande desafio. Obrigado pelo comentário. Abraço.

      Curtido por 1 pessoa

  3. Oi Alan, gostei de ler no seu post que o pai ideal é o que se interessa pelos filhos. Acho que é isso mesmo. Amor de pai e de mãe é se interessar pelos filhos e querer vê-los felizes e se desenvolvendo. Ser provedor dentro do que é possível é responsabilidade do pai e da mãe para que os filhos possam se desenvolver com saúde etc, mas só isso é pouco, afeto é fundamental, como você descreveu aqui. Ótimo post de dia dos pais!🌻

    Curtido por 3 pessoas

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