23 junho 2026

A Força da Cicatriz: Quando a Literatura Transforma a Nossa História

O Brasil voltou a se ler de um jeito que não se via há décadas. De passagem pela França para uma turnê de encontros literários, o baiano Itamar Vieira Junior tem motivos de sobra para comemorar esse fenômeno. Afinal, não é todo dia que um romance imerso na dureza do mundo rural atinge a impressionante marca de um milhão de exemplares vendidos. Para um autor que defende a cultura popular e frequentemente bate de frente com as amarras de uma literatura elitista, ver o público abraçar histórias com tanta fome é o sinal de uma virada de chave. Como ele mesmo gosta de frisar, desde os tempos de Jorge Amado o nosso país não demonstrava um interesse tão visceral pelos seus próprios escritores.

Um espelho da nossa herança colonial

Convidado de destaque do tradicional festival Étonnants Voyageurs, realizado em Saint-Malo, na Bretanha, e em constante diálogo com os leitores em Paris, Itamar viu de perto como Torto Arado extrapolou qualquer fronteira geográfica. Ganhador dos prêmios Jabuti e Oceanos, o livro já circula pelo mundo traduzido para 31 idiomas — um sucesso que pegou de surpresa o próprio autor, que não esperava tanto alcance devido ao anacronismo e à crueza da narrativa. A história das irmãs Bibiana e Belonísia fisga quem lê porque pulsa vida enquanto escancara feridas que nunca cicatrizaram de verdade: a briga secular pelo direito à terra, o peso da ancestralidade e as heranças nefastas de quase 400 anos de escravidão no Brasil.

Trata-se de uma temática implacável. Nos debates lá fora, fica nítido para o autor que a disputa por território ainda é o nervo exposto dos grandes conflitos globais de hoje. Essa memória violenta de exploração da natureza e do ser humano até o limite, inaugurada lá atrás no passado colonial, ainda dita a nossa maneira de habitar o planeta. Na França, esse eco bateu forte: o romance ganhou edição no ano passado pela prestigiada editora Zulma, ganhando a voz da tradução minuciosa do escritor Jean-Marie Blas de Roblès, alguém que conhece o Brasil a fundo. O impacto rendeu a Itamar o prêmio francês Montluc de Resistência e Liberdade em 2024, uma honraria que ele classifica como intensamente simbólica para a estrutura da sua obra.

A nova cara do Brasil e a maldição do sucesso

Dividindo os painéis do festival francês com nomes de peso como Djamila Ribeiro, Bernardo Carvalho e Jeferson Tenório, o autor baiano personifica um movimento muito maior. É a ascensão de uma literatura contemporânea mais plural, que dá visibilidade e microfone a quem traz a vivência de um Brasil historicamente silenciado. Aos poucos, as prateleiras vão ganhando contornos que finalmente refletem a nossa verdadeira face.

Mas é claro que o mega sucesso cobra o seu preço. Itamar confessa que ter a própria carreira reduzida a um único livro é uma “espécie de bênção, mas também de maldição”. De todo modo, ele acha curioso e fascinante ver como seu romance de estreia continua ganhando pernas e inspirando o mundo das artes. O universo de Torto Arado está em fase de adaptação para uma série da HBO, e já deu origem à peça Depois do Silêncio (de Christiane Jatahy), a um musical e à coreografia Encantado (de Lia Rodrigues). É o livro certo na hora certa, abraçando um país disposto a encarar a própria dor, mas também a sua beleza e resistência.

Enquanto a máquina gira, os novos projetos avançam. Salvar o Fogo, segundo volume da “trilogia da terra” e também laureado com o Jabuti, já circula em 12 idiomas (embora ainda aguarde lançamento na França). O desfecho da trilogia já tem data marcada: o livro Coração sem medo sai no Brasil no fim deste ano e chega a Portugal no início de 2026, focando nos desterrados que migram para Salvador na tentativa bruta de refazer a vida.

O abismo do real e a literatura de testemunho

Essa fome avassaladora por narrativas que encaram as brutalidades do mundo não se limita, de forma alguma, à ficção. Na não ficção, o leitor atual também busca crueza e transformação, exigindo histórias que mergulhem nos traumas para buscar sentido. Um ótimo termômetro disso vem da rádio americana NPR, que recentemente mapeou os livros de não ficção favoritos de sua equipe neste ano. A curadoria é um caldeirão deliciosamente eclético: vai desde uma biografia do Hannibal Lecter e meditações sobre árvores, até as memórias de uma criança prodígio no violino e tratados literários sobre como fazemos cocô.

Porém, o que realmente salta aos olhos nessa seleção é a prova de que a palavra escrita pode servir de âncora quando a vida real parece insuportável. E, curiosamente, o exemplo mais brutal desse movimento literário nos leva de volta à França. Em A Hymn to Life (Um Hino à Vida), a francesa Gisèle Pelicot faz um relato dilacerante sobre o pesadelo que chocou a Europa: as quase cinco décadas de um casamento que culminaram na descoberta de que o marido a dopou continuamente por quase dez anos, orquestrando e filmando dezenas de homens a estuprando enquanto estava inconsciente.

O que tinha tudo para degringolar numa narrativa mórbida de tribunal se transforma, nas mãos de Pelicot, em um testemunho de empatia absurda. Como resumiu Adriana Gallardo, editora da NPR, Gisèle não se deixa engolir pelo ressentimento. Nas páginas do livro, ela troca a tristeza pela devoção, escolhendo o amor e a humanidade repetidas vezes contra a barbárie estrutural. Seja dissecando o colonialismo no sertão baiano com Itamar ou enfrentando a violência íntima e pública nos tribunais franceses com Gisèle, o recado que os leitores estão abraçando é um só: estamos dispostos a ler e a encarar aquilo que mais nos machuca, justamente para aprendermos, através das páginas, a sobreviver.