14 maio 2026

Terapia em Cores e o Medo do Mercado: O Retrato das Nossas Leituras

O mercado editorial brasileiro em 2026 está, para dizer o mínimo, vivendo uma dualidade curiosa. Se você olhar o radar da Nielsen BookScan – que hoje cobre algo entre 60% e 70% das vendas de livros no varejo trade do país –, vai notar uma divisão bem clara na cabeça e no bolso dos leitores. A empresa costuma fatiar esse mercado em quatro grandes prateleiras para facilitar a análise internacional: Ficção, Não Ficção Especialista, Não Ficção Trade e Infantojuvenil. Na prática, porém, o ranking geral reflete uma população que tenta desesperadamente equilibrar a fuga da realidade com a necessidade de domar a própria conta bancária. É sintomático ver romances pesados de Colleen Hoover, os clássicos densos de Clarice Lispector (“A hora da estrela”) e o apelo infantojuvenil de Enaldinho dividindo espaço com uma verdadeira avalanche de livros de colorir e guias de sobrevivência financeira.

A febre absoluta do momento tem nome e estética muito bem definidos: Bobbie Goods. Os livros de colorir dessa série simplesmente engoliram a concorrência. “Do dia para a noite” e “Dias quentes”, ambos editados pela HarperCollins, sentaram confortavelmente no primeiro e no segundo lugar do ranking geral. A fórmula é um sucesso porque ataca várias frentes ao mesmo tempo: entrega um entretenimento sem fricção, tem um apelo estético absurdo que viraliza fácil nas redes sociais e proporciona aquela dose de relaxamento mental que virou artigo de luxo no nosso dia a dia. O pódio só é interrompido pela espiritualidade do “Café com Deus Pai 2025”, de Junior Rostirola (Editora Vélos).

E a invasão dos desenhos não para por aí, já que o top 10 ainda arrasta mais dois títulos da Bobbie Goods (“Isso e aquilo” e “Dias frios”). Só que no meio dessa busca por paz interior e terapia em tons pastéis, o pragmatismo fala alto. Nomes como Morgan Housel, com sua “Psicologia Financeira”, e James Clear, com “Hábitos Atômicos”, fincaram os pés na lista dos mais vendidos. A mensagem é clara: o brasileiro quer pintar para desestressar, mas continua obcecado em entender o que fazer com o próprio dinheiro.

Essa ânsia do público por manuais que mastiguem a lógica financeira me lembra bastante a premissa de um lançamento gringo recente, que cai como uma luva nesse nosso cenário de desmistificação do dinheiro. O livro The Index of America: How The S&P 500 Works & Why You Should Invest In It, publicado em março por Tom Bernard, é essencialmente uma carta de amor ao índice S&P 500. Ele nasce justamente de um dilema que dialoga perfeitamente com o leitor que consome educação financeira na lista da Nielsen: o pavor de tomar risco.

Bernard abre o livro contando de quando ainda era calouro na faculdade e precisou explicar aos avós, Mary e Skippy, por que diabos eles deveriam colocar dinheiro no mercado de ações. Os dois eram inteligentes, sacavam toda a matemática dos juros compostos, mas carregavam no corpo os traumas da Grande Depressão. Morriam de medo de investir e ver as economias da vida inteira virarem pó. É exatamente esse nervosismo paralisante que vira e mexe tira o sono dos governos atuais, que quebram a cabeça para convencer o poupador desconfiado a colocar seu dinheiro de forma mais produtiva no mercado de capitais em vez de deixá-lo parado.

E olha, quando o assunto é explicar as engrenagens da coisa, o livro de Bernard manda muito bem. O resgate histórico é um prato cheio. Tem uma seção fascinante explicando o uso do ‘Datatron’, aquele maquinário trambolhudo da década de 50 que passou a gerar os cálculos do índice de hora em hora, alimentado por uma conversão de dados telegráficos que vinham direto da bolsa de Nova York. A obra também passeia com muita propriedade pelo tempo de “maturação” das empresas pós-IPO e traz debates super pertinentes sobre a introdução dos circuit breakers depois da sangria da Segunda-feira Negra de 1987. É um mergulho técnico muito bem feito que passa pelas inovações de ajuste de free-float até desaguar nesse ecossistema gigante de fundos de índice, ETFs e derivativos atrelados ao S&P 500 que temos hoje.

O problema é que o texto derrapa feio quando precisa de nuance. Ele entrega muito mais sobre como o índice funciona do que sobre o real motivo de ele ser a oitava maravilha do mundo dos investimentos. Bernard dedica um tempão justificando o comitê do índice e admitindo que a escolha de quem entra ou sai dali carrega certa dose de subjetividade. O autor vende isso como uma característica essencial para manter a relevância do S&P 500, mas convenientemente passa pano para os vieses humanos que essa flexibilidade toda joga na mesa.

Outro ponto cego é o tal do “risco de concentração”, que ele tenta embalar como o grande motor dos retornos excepcionais do índice. Dá para rebater isso em dois minutos: essa lógica só se sustenta num bull market puxado por uma liderança muito estreita de empresas de tecnologia. Historicamente, a versão equal weight (de pesos iguais) do S&P 500 já mostrou que consegue dar uma surra na versão tradicional por décadas seguidas.

Às vezes, a paixão do cara pelo benchmark é tanta que fica até difícil acreditar que ele nunca bateu ponto na S&P Dow Jones Indices. Oficialmente, Bernard é um funcionário de longa data da consultoria EY e ex-instrutor de finanças pessoais. Ele chega a cravar que o foco implacável em padronização e melhoria contínua criou um fosso competitivo brutal para o índice. Tá, mas e o peso esmagador da marca e a pura inércia institucional do mercado? O livro argumenta forte em favor da gestão passiva, batendo muito na tecla do custo baixo e da performance de longo prazo contra os gestores ativos. A tese é boa, mas não explica por que o S&P 500 seria categoricamente superior a outros índices gringos, muito menos às dezenas de fundos smart beta que foram desenhados justamente para corrigir as falhas do S&P.

Ainda assim, as escorregadas analíticas e o fato de patinar na repetição em alguns capítulos não tiram o mérito da obra. The Index of America é escrito de um jeito engajante e muito acessível. Eu saí da leitura com um entendimento bem mais afiado sobre a mecânica do índice mais importante do planeta. Se a nossa lista de mais vendidos de 2025 prova que as pessoas estão buscando desesperadamente bússolas seguras para guiar suas vidas e suas carteiras, o livro cumpre o que promete. Para o típico investidor do varejo, o clássico mom and pop que ainda tem calafrios com a volatilidade, é um excelente ponto de partida. Não seria surpresa nenhuma ver algo nessa linha ocupando espaço na cabeceira de quem acabou de fechar um livro de colorir.