Diário Literário: Das Resoluções de Ano Novo aos Clássicos do “True Crime”
Raramente cumpro minhas resoluções de Ano Novo, mas para 2026 defini um objetivo claro: retomar o prazer da leitura. Embora sempre tenha amado livros, a rotina acadêmica intensa muitas vezes causa um esgotamento mental que me afasta até mesmo das obras que normalmente apreciaria. Para tornar essa meta tangível, planejei ler cerca de um livro por semana. Agora, com fevereiro se iniciando, faço um balanço das minhas três leituras de janeiro, que variaram entre gêneros distintos, e aproveito para trazer uma seleção especial para os amantes de não ficção policial.
O Retorno com Fantasia e Romance
Minha jornada recomeçou com “If You Could See the Sun”, de Ann Liang, uma escolha acertada para sair da ressaca literária. A obra mistura fantasia e realismo mágico com elementos clássicos da literatura jovem adulta. A trama acompanha Alice Sun, uma estudante bolsista em um internato de Pequim que se sente invisível, até que literalmente ganha o poder da invisibilidade. Ela passa a monetizar esse dom descobrindo segredos dos colegas ricos, contando com a ajuda de Henry, seu rival acadêmico. O destaque vai para a complexidade da protagonista; a moralidade questionável e as inseguranças de Alice a tornam realista, e a evolução do tropo de rivais que se apaixonam é executada com frescor.
Thriller Psicológico e Crítica Social
Buscando uma mudança de ritmo, a segunda leitura foi “Their Vicious Games”, de Joelle Wellington. Esperava um thriller intenso e o livro entregou exatamente isso, com uma atmosfera de tensão palpável que lembra “Jogos de Herança”. A história segue Adina Walker, uma estudante negra em uma escola particular de elite que, após perder sua vaga em Yale, entra em uma competição exclusiva organizada pelas famílias mais poderosas da instituição. O que parecia uma oportunidade de ouro rapidamente se transforma em uma série perigosa de desafios físicos e psicológicos. A estrutura de “jogo” mantém o leitor preso, e a crítica social à meritocracia da elite confere um peso inesperado à narrativa.
Humor e Introspecção
Para fechar o mês, “This Will be Funny Someday”, de Katie Henry, revelou-se uma das minhas leituras favoritas dos últimos tempos. O livro narra a vida de Izzy, uma jovem ansiosa de 16 anos que acidentalmente entra para o mundo do stand-up comedy. O título sugere humor, e o livro é de fato engraçado, mas também profundamente tocante. Acompanhar Izzy vivendo uma vida dupla e encontrando sua voz — tanto no palco quanto no cotidiano — é inspirador. É uma verdadeira carta de amor aos introvertidos, provando que seus mundos internos são ricos e dignos de serem ouvidos.
Mergulho no Abismo: Obras Essenciais sobre Crimes Reais
Enquanto a ficção marcou meu início de ano, o mercado editorial mantém um fascínio perene pelo gênero “True Crime”. Para os leitores que buscam emoções baseadas na realidade, compilamos uma lista essencial com dez obras que detalham crimes que chocaram o mundo, desde a psicologia forense até os desdobramentos judiciais.
O Caso Richthofen
Em “Suzane: Assassina e Manipuladora”, o repórter Ullisses Campbell disseca a história da jovem que, em 2002, abriu as portas de sua mansão em São Paulo para que o namorado e o cunhado assassinassem seus pais. Campbell traça o perfil de uma garota rica e manipuladora, baseando-se em dezenas de entrevistas e mergulhando nos universos do Direito Penal e da Psicologia Forense para reconstruir o crime que parou o Brasil.
O Assassino BTK
Durante três décadas, um serial killer aterrorizou Wichita, no Kansas, enviando cartas à polícia e à mídia sob a alcunha de BTK (sigla em inglês para amarrar, torturar e matar). O livro “BTK Profile: A Máscara da Maldade”, de Roy Wenzl e equipe, narra como a identidade do criminoso só foi revelada em 2005: Dennis Rader, um vizinho amigável e presidente da congregação local, escondia uma face monstruosa.
A Tragédia de Columbine
Dave Cullen, um dos primeiros repórteres a chegar à Columbine High School em 1999, reúne em “Columbine” uma década de pesquisas sobre o massacre perpetrado por Eric Harris e Dylan Klebold. A obra vai além do sensacionalismo, analisando evidências policiais e questionando o papel da mídia e a facilidade de acesso a armas nos Estados Unidos, temas que permanecem infelizmente atuais.
Cativeiro e Sobrevivência
O relato em primeira pessoa de Natascha Kampusch em “3096 Dias” chocou o mundo ao revelar os detalhes de seu sequestro. Raptada aos 10 anos na Áustria, ela viveu oito anos em um cativeiro minúsculo sob o domínio de Wolfgang Priklopil. O livro é baseado nas memórias que ela registrou em um diário durante os anos de isolamento e maus-tratos.
Mulheres Assassinas
Desafiando o estereótipo de que serial killers são sempre homens, Tori Telfer apresenta em “Lady Killer” um dossiê sobre 14 mulheres que deixaram um rastro de sangue na história. A obra detalha as vidas de figuras como Elizabeth Báthory e Mary Ann Cotton, explorando a complexidade e a crueldade feminina no mundo do crime.
A Morte de um Ícone da Moda
Em “Favores Vulgares”, Maureen Orth investiga o assassinato de Gianni Versace em 1997. Através de centenas de entrevistas, a autora reconstrói a trajetória do serial killer Andrew Cunanan, detalhando suas vítimas anteriores e a caçada do FBI que culminou no desfecho trágico nas escadarias da mansão do estilista em Miami.
O Palhaço Assassino
John Wayne Gacy era visto como um cidadão modelo e empresário de sucesso em Chicago, chegando a se vestir de palhaço para entreter crianças em hospitais. “Killer Clown Profile”, de Terry Sullivan, reconstrói a investigação que desmascarou Gacy após o desaparecimento de um adolescente em 1978, levando à descoberta de mais de trinta vítimas enterradas em sua propriedade.
Dossiê Criminal Brasileiro e Internacional
A especialista em criminologia Ilana Casoy oferece um volume duplo em “Arquivos Serial Killers”. A obra abrange tanto casos internacionais, com análises de arquivos da Scotland Yard e FBI, quanto um mergulho profundo na história dos assassinos em série brasileiros, fruto de visitas a manicômios e penitenciárias e entrevistas diretas com criminosos.
O Vizinho Ted Bundy
Ann Rule oferece uma perspectiva única em “Ted Bundy: Um Estranho ao Meu Lado”. Enquanto trabalhava em um centro de prevenção ao suicídio, ela se tornou amiga de um homem carismático e inteligente, sem saber que ele era o serial killer responsável pela morte de dezenas de mulheres. O livro equilibra o rigor jornalístico com o choque pessoal de descobrir que o monstro era seu colega de trabalho.
As Bruxas de Guaratuba
Encerrando a lista, “O Caso Evandro”, de Ivan Mizanzuk, revisita o desaparecimento e morte brutal do menino Evandro Ramos Caetano no Paraná, no início dos anos 90. O que começou como suspeita de ritual satânico transformou-se em um dos casos judiciais mais complexos e longos do Brasil, repleto de reviravoltas que Mizanzuk detalha meticulosamente nesta obra que se tornou referência no jornalismo investigativo nacional.