4 fevereiro 2026

Do Hype ao Clássico Contemporâneo: A riqueza textual de Casey McQuiston e a estreia atmosférica de Angela Tomaski

No universo da literatura contemporânea, poucas coisas geram tanto debate quanto a tradução de uma obra escrita para a linguagem audiovisual. Recentemente, a adaptação de “Vermelho, Branco e Sangue Azul” pelo Prime Video reacendeu essa discussão. Para o público que vive entre páginas, contudo, a experiência cinematográfica, embora divertida, muitas vezes serve apenas para ressaltar a complexidade e a profundidade que só a prosa literária consegue alcançar. Ao revisitarmos o best-seller de Casey McQuiston, percebemos que as escolhas narrativas do livro oferecem uma imersão que a tela não conseguiu capturar plenamente.

A complexidade das dinâmicas familiares e a ausência de June

Para o leitor atento, a estrutura familiar apresentada no livro é fundamental para a construção psicológica do protagonista, Alex Claremont-Diaz. A decisão da adaptação de transformar Alex em filho único e excluir a personagem June não é apenas uma mudança de elenco, mas uma simplificação da narrativa. No texto original, June não é apenas uma irmã; ela é o pilar que sustenta o lado emocional de Alex e compõe, junto com Nora e Bea, o “Super Six”. Essa dinâmica de grupo, rica em diálogos ágeis e lealdade incondicional, perde sua força na tela. No livro, a interação entre esses personagens cria uma rede de apoio verossímil que justifica as ações imprudentes e o amadurecimento dos protagonistas.

A construção da intimidade através do texto

A literatura permite um desenvolvimento de intimidade que o cinema, limitado pelo tempo, precisa resumir em montagens. Um exemplo claro é a infame “cena dos perus”. No livro, McQuiston utiliza esse momento bizarro e hilário para desarmar as defesas de Henry através de um longo diálogo, onde o sarcasmo dá lugar à vulnerabilidade. Já a construção do romance físico também difere em tom e geografia. Enquanto o filme aposta no clichê romântico de Paris, a obra literária fundamenta a primeira vez do casal em um contexto mais cru e realista, após uma noite no bar do hotel com os amigos, reforçando a conexão emocional que precede a física.

O formato epistolar e a profundidade política

Talvez a maior perda para quem consome apenas a versão audiovisual seja a ausência da camada epistolar que permeia o livro. McQuiston resgata a tradição dos romances trocados por cartas — adaptados para e-mails na era digital — para dar voz à intelectualidade de Henry. No texto, temos acesso à integridade das mensagens, repletas de referências históricas e literárias, incluindo a belíssima alusão ao mito grego de Píramo e Tisbe. É através da leitura, ao encontrar um bilhete com essa referência no bolso de um paletó, que Alex compreende a profundidade do sentimento de Henry, um arco narrativo muito mais sofisticado do que o apresentado visualmente. Além disso, a trama literária sustenta um thriller político robusto envolvendo o senador Rafael Luna e o vazamento de e-mails, uma subtrama de traição e poder que foi inteiramente removida da adaptação.

Novas vozes: A narrativa experimental de Angela Tomaski

Enquanto debatemos as adaptações de sucessos consolidados, o mercado editorial britânico nos apresenta novas vozes que experimentam com a forma narrativa. É o caso de Angela Tomaski e seu romance de estreia, “The Infamous Gilberts”. Afastando-se dos dramas da realeza, Tomaski nos transporta para uma mansão inglesa em decadência, prestes a ser convertida em um hotel.

A autora propõe uma estrutura narrativa ousada e original: a história da casa e de seus antigos moradores não é contada por uma voz humana tradicional, mas através da perspectiva dos objetos que habitam o local. Em entrevista recente a Scott Simon, da NPR, Tomaski explicou como utilizou essa técnica para explorar a memória e o declínio de uma família aristocrata. Ao dar voz ao inanimado, a escritora constrói uma atmosfera de melancolia e segredo, onde as paredes e a mobília são as verdadeiras testemunhas da história. “The Infamous Gilberts” surge como uma recomendação valiosa para leitores que buscam, além de uma boa trama, uma experiência literária que desafia as convenções de ponto de vista e narrador.