4 fevereiro 2026

Entre o Hype Viral e a Tradição das Cartas: Os Caminhos Distintos de Dois Fenômenos Literários

O mercado editorial contemporâneo vive de contrastes fascinantes. Se por um lado temos obras impulsionadas pela força avassaladora das redes sociais e adaptações cinematográficas de alto orçamento, por outro, surgem sucessos silenciosos que desafiam a lógica do marketing moderno. Dois exemplos recentes ilustram perfeitamente essa dicotomia: a turbulenta trajetória do best-seller de Colleen Hoover, É Assim Que Acaba, e a ascensão improvável de The Correspondent, de Virginia Evans. Embora sigam rotas opostas, ambos os títulos revelam muito sobre o que captura a atenção dos leitores atualmente.

O gigante de Colleen Hoover e suas polêmicas

Imagine uma obra capaz de vender mais de 1,3 milhão de cópias apenas no Brasil, somando todas as edições, segundo dados do Grupo Record. Esses são os números superlativos de É Assim Que Acaba, romance lançado originalmente em 2016 que ganhou uma sobrevida impressionante graças ao TikTok, tornando-se o livro mais vendido no país em 2022. O sucesso foi tamanho que a única obra capaz de superá-lo no ano seguinte foi justamente sua sequência, É Assim Que Começa.

A coroação desse fenômeno ocorreu com a chegada da adaptação cinematográfica aos cinemas, estrelada por Blake Lively, famosa por Gossip Girl, e Justin Baldoni, que acumula as funções de ator e diretor. A trama gira em torno de Lily Bloom, uma jovem que, após ver a mãe sofrer violência doméstica na infância, acaba presa em um ciclo similar ao se envolver com Ryle, um neurocirurgião charmoso que se revela abusivo. A narrativa ganha contornos dramáticos com o retorno de Atlas, um amor da adolescência de Lily que tenta alertá-la sobre a gravidade da situação.

Entretanto, a popularidade massiva veio acompanhada de debates acalorados. A obra divide opiniões de forma incisiva. Defensores argumentam que a escrita de Hoover ajuda a compreender a perspectiva da vítima e a dificuldade de romper o ciclo de abuso. Em contrapartida, críticos acusam a autora de romantizar a violência, apontando tanto as decisões da protagonista quanto a tentativa de justificar o comportamento de Ryle através de traumas passados.

A controvérsia transcende o texto e atinge o marketing. A divulgação no TikTok, muitas vezes feita pelos próprios fãs, vendeu o livro erroneamente como uma história de amor convencional. A própria autora cometeu deslizes que inflamaram a crítica, como a tentativa cancelada de lançar um livro de colorir inspirado na obra — pelo qual ela pediu desculpas, admitindo sua “cegueira” — e uma linha de esmaltes em parceria com a marca Olive and June, que permanece à venda nos Estados Unidos.

Para o filme, houve uma tentativa clara de “correção de rota”. A escolha de um elenco mais velho (Blake Lively com 35 anos e Baldoni com 39) gerou estranheza inicial nos fãs, já que no livro os personagens têm cerca de 23 e 30 anos, respectivamente. Hoover justificou a mudança ao Today Show, explicando que, ao escrever o livro no auge do gênero “new adult”, criou personagens muito jovens para profissões que exigem longa formação, como a neurocirurgia. “A culpa é minha, eu fiz besteira”, admitiu a autora, reconhecendo a necessidade de envelhecer os personagens para dar verossimilhança à trama.

A surpresa epistolar de 2025

Enquanto Hoover domina as manchetes com polêmicas, o ano de 2025 presenciou o surgimento de um sucesso literário que parece ter vindo do nada. The Correspondent, romance de estreia de Virginia Evans, autora que já havia escrito sete livros não publicados, seguiu um caminho atípico. Lançado em abril, o livro levou meses de uma construção lenta até atingir o topo da lista de best-sellers de ficção do New York Times em dezembro, onde permaneceu com solidez.

O êxito de The Correspondent é descrito por especialistas como um mistério. Amy Einhorn, da editora Crown, admitiu que não houve um único fator propulsor. Contudo, especula-se que o apoio de Ann Patchett, renomada autora de Bel Canto, tenha sido crucial. Evans mantinha o hábito de escrever cartas para Patchett, que acabou assinando a recomendação na capa do livro e o promoveu na televisão. Ironicamente, Patchett confessou que inicialmente duvidou do potencial da obra, pois romances epistolares — escritos em formato de cartas ou correspondências — raramente funcionam no mercado atual.

Contra todas as probabilidades, o formato funcionou. O livro é uma celebração da comunicação à moda antiga em plena era das redes sociais. A protagonista, Sybil Van Antwerp, é uma advogada aposentada, divorciada e residente em Maryland, que, embora utilize e-mail quando necessário (admitindo que a tecnologia a torna menos civilizada), prefere a caneta e o papel.

A narrativa é construída principalmente através da voz de Sybil, intercalada com as cartas que recebe e algumas trocas de e-mails mais ríspidas. O grande trunfo do romance reside na personalidade da protagonista: inteligente, rabugenta, mas fundamentalmente honrada. Ao contrário do frenesi visual e imediato que cerca obras como a de Hoover, The Correspondent aposta na intimidade da palavra escrita e na construção lenta de personagem, provando que, mesmo em tempos digitais, ainda há espaço para o charme discreto de uma boa carta e para autores que percorrem o longo caminho até o reconhecimento.