O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati – Uma resenha

Resenha do livro O deserto dos tártaros, um clássico da literatura do século XX.

Capa do Livro O deserto dos Tártaros: leia a resenha de Alan Martins

Há livros que conseguem, com poucas palavras, dizer aquilo que vários calhamaços não são capazes. Um belo exemplo é O estrangeiro, de Albert Camus. O deserto dos tártaros encontra-se nessa mesma seleta prateleira.

Certos clichês são válidos, condizem com a realidade. Os melhores perfumes estão nos menores frascos, assim como os venenos mais perigosos. Um imenso aprendizado está contido nas breves páginas dessa obra de arte do italiano Dino Buzzati.

Esperando o que nunca vem

Giovanni Drogo, um jovem na casa dos vinte anos, foi recentemente promovido a tenente. É, então, designado ao forte Bastiani, um edifício militar localizado numa região isolada e fronteiriça, próxima a um deserto. O autor não especifica a localização do cenário, o que torna o romance ainda mais universal, já que a ação pode se passar em qualquer lugar.

A fortaleza é rodeada por uma suposta história gloriosa, pois funcionou, ao longo da história, como um escudo, protegendo seu país contra invasões de povos estrangeiros. Em um primeiro momento, o lendário passado histórico impressiona o novo tenente.

Todavia, chegando ao local, se depara com um cenário bem menos ilustre, afinal a guerra deixou de ser uma ameaça há muito tempo. Drogo, desanimado, deseja sair dali o mais rápido possível e pede um atestado a um médico, que lhe dá quatro meses para uma realocação.

O tempo passa, muita coisa acontece, e Giovanni continua no forte Bastiani. Ele não consegue deixar a fortificação, algo o impossibilita. O que será esse algo que nos impede?

A vida é trem bala

O protagonista e seus companheiros de profissão estão trancafiados no Bastiani. Claro, se quisessem, poderiam ir para outro lugar. Entretanto, metaforicamente, cada um deles está enclausurado em seu forte pessoal.

Todo militar que chega ao lendário forte encontra dificuldade em seguir adiante, em realizar seus desejos e ambições. Jovens tornam-se velhos frustrados. O deserto promete uma invasão tártara, e todos aguardam a hora de entrar em cena, a razão de suas existências.

Quantas pessoas não vivem nesse marasmo, aguardando algo de melhor que está por vir? O que a maioria faz para alcançar a terra prometida? Quantos têm a coragem e a capacidade de dar o passo decisivo? Ora, essa também não é a lógica da sociedade capitalista? “Trabalhe duro, um dia a recompensa virá”. Nesse meio-tempo, os ponteiros giraram loucamente, e o tempo é algo que não volta.

Nosso tenente Drogo passou uma vida toda servindo ao exército, até conseguiu uma promoção. Em seu íntimo, porém, sabe que não foi sincero consigo mesmo, que se entregou à monotonia, àquilo que parecia mais fácil e confortável. Dino Buzzati, por sorte, lhe dá uma redenção. Na hora em que seu tão aguardado momento dá as caras, recebe a visita do ceifeiro. Nesse instante de adversidade, encontra coragem e encara o desconhecido com bravura.

Sobre a edição

Como todos os volumes da coleção Clássicos de Ouro, a edição de O deserto dos tártaros é em capa dura, seu miolo é em papel amarelado e a diagramação, agradável.

Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade, muito boa por sinal. O texto, dividido em capítulos curtos, é simples e fácil de ser lido.

Li em meu Kindle. A respeito do e-book, está ótimo, bem formatado e funcionando em perfeitas condições.

A coleção teve tiragem limitada, por isso as edições em capa dura encontram-se esgotada. A editora Nova Fronteira repaginou a coleção, mas desta vez os livros são em brochura. O preço parece bom e o que importa de verdade é o conteúdo da obra, não sua estética visual.

Conclusão

Poucos livros conseguem tocar o leitor de maneira tão pessoal e universal. Todos nós sentimos receio em relação a novidades; o novo assusta! Devemos agir como Giovanni Drogo, acomodados, deitados eternamente em berço esplendido, ou devemos encarar os obstáculos com pulso firme? Seguir nossos sonhos, ou desistir na primeira oportunidade?

Eu vivo em meu próprio forte Bastiani, e você também. A decisão de deixá-lo cabe a nós mesmos. Do contrário, passaremos a vida inteira aguardando algo que, no fim das contas, não pode ser conquistado se ficarmos apenas parados.

Em certos momentos a leitura fica um tanto quanto monótona e tediosa, refletindo o cotidiano dos personagens militares. Esse é o trunfo desse pequeno romance: dialogar com o leitor, pondo-o em reflexão a respeito de sua vida e escolhas.

Minha nota (de 0 a 5): 4,5 ⭐

Ficha técnica

Título: O deserto dos tártaros
Autor: Dino Buzzati
Tradução: Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2017
Páginas: 176
ISBN: 9788520941799
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Licença Creative Commons
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Autor: Alan Martins

Graduado em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico. Atualmente graduando em Letras.

2 pensamentos

    1. Obrigado pelo comentário, Emanuel!

      Eu não conheço o filme, mas dizem ser uma boa adaptação. Na introdução da edição que resenhei, há uma nota a respeito do filme.

      Vale a pena ler essa obra. É bem curta, a leitura pode ser feita em pouco tempo.

      Abraços.

      Curtido por 1 pessoa

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