Minhas Leituras #105: Grande sertão: veredas – João Guimarães Rosa

No início deste ano de 2019, Grande sertão: veredas, um dos maiores clássicos da literatura brasileira, recebeu uma nova edição, agora pela Companhia das Letras. Quer conhecer um pouco mais sobre essa obra e sua nova edição? Então continue lendo esta resenha até o final!

Nova edição Grande sertão: veredas Companhia das Letras

Considerada umas das obras mais importantes da literatura nacional, o magnum opus de Guimarães Rosa saiu das mãos da editora Nova Fronteira e passou aos cuidados da Companhia das Letras, que publicou, além da edição padrão, uma salgada edição de colecionador.

“Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.” p. 196

O autor: Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa nasceu em 1908, na pequena cidade mineira de Cordisburgo. Foi lá onde começou a dar seus primeiros passos nos estudos de diversos idiomas, vindo a se tornar futuramente um poliglota. Certa vez, João afirmou falar cerca de oito idiomas e ter algum conhecimento sobre outros quinze!

Todo esse conhecimento o ajudou bastante. Após se formar em medicina, atuou até mesmo na Força Pública durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Entretanto, seu trabalho como médico no interior mineiro não o satisfazia totalmente, por isso acabou prestando concurso público para seguir na carreira diplomática. Esse cargo lhe rendeu boas aventuras e passagens pela Europa e países da América do Sul.

Guimarães Rosa é o autor de vários livros importantes, como Sagarana, Primeiras estórias, além de Grande sertão: veredas. Foi membro da Academia Brasileira de Letras, sendo eleito por unanimidade em 1963, após uma primeira tentativa frustrada.

Faleceu em 1967, aos cinquenta e nove anos, vítima de um ataque cardíaco.

“A vida da gente faz sete voltas — se diz. A vida nem é da gente…” p. 116

O enredo: Grande sertão, grandes aventuras

O romance apresenta como protagonista o jagunço Riobaldo, também conhecido pela alcunha de Tatarana. Ele é também o narrador desse livro, se expressando a um interlocutor que nunca nos é revelado (talvez ele esteja falando diretamente ao leitor).

Riobaldo é um jagunço um pouco diferenciado, pois é letrado. Sua história não é narrada de maneira linear, há fatos passados, momentos posteriores da vida do protagonista e alguns saltos temporais.

Conhecemos um pouco sobre a infância de Tatarana e seu início na vida de jagunço, que é marcada por perigos e violência. E boa parte do livro é dedicada às aventuras do protagonista nos bandos de jagunços, que viajam através do sertão (provavelmente localizado entre Minas Gerais e Bahia).

Ao longo desse enredo, que possui suas complexidades, vamos nos deparar com guerras armadas entre bandos, questionamentos sobre o bem e o mal (o Diabo e Deus) e uma grande amizade que beira o amor, a paixão. Ah, e claro, o final de Grande sertão: veredas guarda uma grande surpresa!

“Vingar, digo ao senhor: é lamber, frio, o que é outro cozinhou quente demais.” p. 73

Grande experimento

Um romance experimental busca inovar, seja em estilo, na forma de se narrar a história, ou na estética do texto (Virginia Woolf é uma escritora conhecida por essa característica). Grande sertão: veredas é um ótimo exemplo de romance experimental, talvez o maior de nossa literatura. Há aqueles que também o consideram uma das mais importantes epopeias da língua portuguesa, afinal apresenta guerras, aventuras e viagens.

Mesmo não sendo uma poesia, o romance apresenta uma linguagem poética, a prosa foge dos padrões convencionais. Não há divisões por capítulos e há muitos parágrafos longos. Outra característica marcante é o regionalismo. A linguagem utilizada popularmente no sertão é valorizada e o texto exibe essa linguagem de forma literal (pegue o apelido do protagonista como exemplo: Tatarana/Taturana).

Entretanto, as mesmas características que fazem essa obra ser única, também formam seu calcanhar de Aquiles. Ao menos para um leitor como eu. O regionalismo é muito interessante, mas há, ao mesmo tempo, a falta de capítulos e muitos parágrafos longos. Tal combinação torna a leitura bastante cansativa, com um ritmo lento. Aliás, o ritmo da narrativa é lento, exceto pelos momentos de ação (que não são tantos assim).

Trata-se de uma obra repleta de simbolismos e mistérios, como a androginia de Diadorim, importante personagem com quem Riobaldo estabelece grande amizade. Boa parte da história apresenta cenários pacatos, isolados, o que me lembrou um pouco o livro Meridiano de sangue. Obviamente, o romance de Cormac McCarthy é muito mais violento e fala sobre outras coisas, todavia, ambos transmitem um sentimento de solidão, que acaba sendo quebrado por batalhas entre bandos armados.

Não é fácil finalizar a leitura de Grande sertão: veredas. Não que o livro seja ruim, ou chato. Pelo contrário, seu enredo é muito interessante, porém é narrado de uma maneira que faz a leitura ser uma atividade exaustiva (e o livro não é pequeno!). Ademais, esse é um dos livros mais requisitados em vestibulares, ou seja, sua leitura tem ainda mais essa importância!

“O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal…” p. 21

Sobre a edição

Essa nova edição, agora pela Companhia das Letras, apresenta acabamento em brochura, capa com orelhas, miolo em papel Pólen Soft e boa diagramação. A arte da capa é baseada no bordado do avesso do Manto da apresentação, do artista Arthur Bispo do Rosário. A capa da edição especial, sobre a qual falei no início desta análise, conta com um bordado de verdade, já a edição padrão, apenas com uma reprodução impressa desse bordado. Entretanto, as orelhas da capa guardam um detalhe interessante: desenhos originais de Poty Lazzarotto, que foi ilustrador das primeiras edições dessa obra. Uma tira de tecido vermelho (removível, óbvio) complementa a capa, dando aquele toque especial.

A editora preparou um novo estabelecimento de texto, utilizando como base a segunda edição publicada pela Livraria José Olympio em 1958, que vinha com a rubrica “texto definitivo”. Dessa forma, o leitor terá uma experiência mais próxima daquilo que Guimarães Rosa realmente escreveu, preservando seu estilo, claro que com pequenas mudanças por conta das novas regras ortográficas vigentes.

Como extra, a nova edição apresenta fotografias do autor e textos de Roberto Schwarz, Walnice Nogueira Galvão, Benedito Nunes, Davi Arrigucci Jr. e Silviano Santiago, que dissertam sobre a obra, além de um breve recorte da correspondência entre Clarice Lispector e Fernando Sabino.

“Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.” p. 19

Vale a pena ler Grande sertão: veredas?

Não há dúvidas de que essa leitura vale muito a pena, pois estamos falando de um livro único em nossa literatura, um eterno clássico. Mas é preciso um pouco de coragem e perseverança, uma vez que se trata de uma narrativa lenta, sem falar da falta de capítulos e os incontáveis parágrafos longos. O regionalismo linguístico é uma característica marcante de Guimarães Rosa, e não é nenhum empecilho: em pouco tempo você se acostuma com a linguagem, que torna o livro ainda mais único. A jornada é árdua, mas o final é recompensador. Ao final da leitura, você ficará muito satisfeito, pois terá lido sobre uma aventura composta por personagens fortes, mistérios e muitos simbolismos. Eu daria uma nota maior se a leitura fosse mais “solta”, e essa é minha principal crítica, até porque não tem como criticar a inventividade e a poesia do autor. Seja por prazer, ou por conta de um vestibular, se você quer ler Grande sertão: veredas, essa nova edição da Companhia das Letras é a melhor escolha, apresentando uma experiência mais próxima do original em termos de linguagem, sem falar dos inúmeros extras. Que sua jornada através do sertão não seja menos que excelente!

“Que é que é um nome? Nome não se dá: nome recebe.” p. 117

Minha nota (de 0 a 5): 3,5

Livro Grande sertão: veredas, Edição Companhia das Letras 2019
Uma edição bonita e repleta de extras. Porém, uma capa dura seria muito bem-vinda!

Ficha técnica

Selo Time de Leitores Grupo Companhia das Letras 2019

Título: Grande sertão: veredas
Autores: João Guimarães Rosa
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2019
Páginas: 560
ISBN: 9788535931983
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Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

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Autor: Alan Martins

Graduado em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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