Minhas Leituras #94: Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias – Flannery O’Connor

Livro Um Homem Bom É Difícil Capa

“Escrevendo com ironia, humor e crítica”

Título: Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias
Autor: Flannery O’Connor
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2018
Páginas: 224
Tradução: Leonardo Fróes
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“’Nada é mais como era’, disse ele. ‘O mundo está ficando podre’.” (O’CONNOR, Flannery. A vida que você salva pode ser a sua. In: Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias. Nova Fronteira, 2018, p. 50)

Nessa coletânea de contos o leitor conhecerá paisagens e situações comuns à região Sul dos Estados Unidos, um local marcado pela pobreza, pelo cenário rural, pela religião e por costumes característicos. Flannery O’Connor foi uma das autoras que melhor retratou o Sul estadunidense em suas obras, e fez isso com muito humor e ironia.

Carreira interrompida

Mary Flannery O’Connor nasceu em 1925, na cidade de Milledgeville, Georgia. É considerada, ao lado de Erskine Caldwell e William Faulkner, um dos maiores nomes de um gênero literário conhecido por “gótico sulista”, pois são autores que retratam a realidade da região Sul dos Estados Unidos em suas obras.

Graduou-se em Ciências Sociais pelo Georgia State College for Women em 1945. Trabalhou para algumas revistas e jornais antes de iniciar sua carreira literária. Sua primeira obra publicada foi um romance, intitulado ‘Wise Blood’, de 1952. Apesar de ter iniciado com um romance, O’Connor ficou conhecida por seus contos. Sua carreira foi bem curta, pois a autora faleceu prematuramente, em 1964, por conta de complicações provocadas pelo lúpus, doença que também tirou a vida de seu pai.

Em vida, teve três obras publicadas. Uma reunião de todos os seus contos foi publicada, de maneira póstuma, em 1971, livro que acabou vencendo o National Book Award for Fiction de 1972.

“’Ninguém mais pensa’, lamentou-se Mr. Jerger’.” In: Um golpe de sorte, p. 69

Paisagens sulistas

Essa coletânea reúne dez contos, que não são longos, com exceção do último, ‘O Refugiado de Guerra’. São contos com cenários sulistas, como o Alabama, ou a Geórgia, estado onde O’Connor nasceu e cresceu.

A autora era uma católica devota, e sua fé aparece em seus contos, mas não de uma forma onde a fé é imposta, porém em detalhes, como alegorias bíblicas, ou até mesmo em críticas, pois vemos que algumas de suas personagens sofrem consequências ou agem de maneira preconceituosa por causa de uma fé fora de controle.

Quem já leu alguma obra de Faulkner, ou o grande clássico ‘O Sol é para todos’, encontrará cenários e questões semelhantes em ‘Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias’. Levando em conta a época da autora, no estopim da segregação racial nos EUA, vemos que ela estava à frente de seu tempo, colocando no papel situações comuns daquilo que era visto ao seu redor e refletindo sobre tudo, de forma irônica e humorada.

“Mr. Head lhe poderia ter dito que ter idade é uma bênção e que só com o passar dos anos o homem alcança a tranquila compreensão de vida que o torna um guia apropriado aos mais jovens.” In: O negro artificial, p. 91

Ironia e humor

São duas características presentes nesse livro. Ao olhar para o sumário, o leitor verá alguns títulos bonitinhos, que até parecem histórias de amor. Todavia, não passam da mais pura ironia. E isso é legal, pois pensamos se tratar de uma coisa e acabamos sendo surpreendidos por outra, totalmente diferente do imaginado. É preciso ter em mente que a autora, após ser diagnosticada com lúpus, passou anos vivendo à espera da morte, já que em sua época não havia um tratamento eficaz e adequado para essa doença. Por isso muitos de seus contos parecem pessimistas, mórbidos; esse era o estado de espírito de O’Connor, que acabou utilizando a ironia para “fazer pouco caso” da morte.

Muitas de suas personagens são ingênuas e se colocam em situações de risco, ao serem enganadas por charlatões, por gente que só quer passar a perna nos outros (e quantas dessas pessoas não existem por aí!). A linguagem utilizada é simples, nada rebuscada, buscando trazer a simplicidade do Sul dos EUA, região que apresenta um dos maiores índices de pobreza do país.

Buscando uma comparação com um autor nacional, por conta dos cenários rurais, de toda simplicidade do campo, podemos dizer que os contos desse livro se assemelham um pouco às estórias de ‘Primeiras estórias’, de Guimarães Rosa. Claro, cada um apresenta o ruralismo de seu próprio país, de uma região em específico, com ambos retratando cenários da infância e etc., entretanto, as duas obras transmitem uma sensação bastante parecida. Não são idênticas — longe disso —, mas há semelhanças.

“As pessoas certamente não são mais tão gentis como já foram.” In: Um homem bom e difícil de encontrar, p. 16

Sobre a edição

Edição que faz parte da coleção ‘Clássicos de Ouro’, da Editora Nova Fronteira. Capa dura, miolo em papel Pólen Soft (ou semelhante, não é especificado), boa diagramação. Só achei que o design da capa não ficou muito bom, a imagem utilizada não transmite a ideia do livro.

Tradução feita pelo poeta Leonardo Fróes. Um excelente trabalho, com boas adaptações, um texto bastante fluído. Essa tradução é a mesma de ‘Contos completos’, publicada pela falida Editora Cosac Naify. Não sei se a Nova Fronteira adquiriu os direitos de tradução de todos os contos do livro da Cosac Naify. Se esse for o caso, a Nova Fronteira resolveu publicar os contos em edições separadas, e não todos reunidos em um único volume.

“Saindo de casa é que a gente descobria mais coisas.” In: O rio, p. 35

Conclusão

Coletânea de contos muito boa. Nota-se nesse livro que Flannery O’Connor tinha tudo para fazer muito sucesso, se tornar um dos maiores nomes da literatura estadunidense. Porém, para a infelicidade de todos, uma doença tirou sua vida, de forma precoce. Em seus contos, temos a oportunidade de obter um gostinho da genialidade dessa autora, que utilizava a ironia de forma magistral. São contos que, muitas vezes, apresentam situações chocantes, onde o mal às vezes vence, o que não é fácil de engolir. O’Connor caracterizou muito bem a região Sul de seu país, um lugar marcado pelo racismo, pela pobreza, pelas paisagens rurais e pela religião, que fez parte de sua vida. A influência do catolicismo na vida da autora fica evidente em seus contos, e ela soube utilizar muito bem essa sua característica, que também acaba por contribuir com toda a ironia que nos é apresentada. Garanto que você vai se surpreender com esses contos, e acabará se encantando com todo o humor e ironia de Flannery O’Connor.

“’Estamos todos perdidos’, disse então, ‘mas alguns de nós, os que não têm mais vendas nos olhos, veem que não há nada o que ver. E isso é uma espécie de salvação’.” In: Gente boa da roça, p. 167

Minha nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins

Livro Um Homem Bom É Difícil de Encontrar O'Connor
O design da capa poderia ter sido melhor, você não acha?

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A lua gorda e o sol, hóstia de sague, por Leonardo Froés, 7
Um homem bom é difícil de encontrar, 11
O rio, 29
A vida que você salva pode ser a sua, 49
Um golpe de sorte, 63
Um templo do Espírito Santo, 77
O negro artificial, 91
Um círculo no fogo, 115
Um último encontro com o inimigo, 137
Gente boa da roça, 149
O Refugiado de Guerra, 173
Sobre a autora, 219


Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

26 pensamentos

  1. Se não me engano, o Wise Blood (traduzido pela Editora Arx), aparece nas indicações de leitura do livro da Francine Prose, “Para ler como um escritor”. Não sei o motivo, a capa lembrou-me do Anthony Hopkins em “O Silêncio dos Inocentes”, quando ele está na maca com a máscara.

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      1. “Será que alguém vai republicá-la?” -> indo pelo viés de ser uma autora católica, as minhas esperanças iriam para a editora É realizações (que publicou várias obras de Georges Bernanos, outro autor católico). ou, a editora vide editorial (que está republicando as obras do Gustavo Corção (antes publicadas pela editora agir).

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      2. Será que nessas outras obras o catolicismo da autora pesa tanto assim? Porque nesse livro, da resenha, não senti que ela puxou para o lado religioso. Mas acredito que não são muitas as editoras que publicariam obras com viés católico.

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      3. “Será que nessas outras obras o catolicismo da autora pesa tanto assim?” boa pergunta. infelizmente, não sei responder :/ “Mas acredito que não são muitas as editoras que publicariam obras com viés católico.” – concordo. salvo aquelas com viés declaradamente católico (editoras oratório, cléofas, ecclesiae, castela, cristo rei, cultor de livros, katechesis, loyola, molokai, petra, danúbio, etc).

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      4. O difícil é que se trata de ma autora que escreveu ficção, por mais que ela tenha sido uma católica devota. Não me parece que ela queria transmitir a religião por meio de seus livros, ao menos seus contos não são assim. Mas seria legal se alguma editora investisse nela.

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      5. “Mas seria legal se alguma editora investisse nela.” – concordo. vamos montar esta editora” 😀 aproveitando a brincadeira, se fosses o responsável por uma editora, além dela, em qual outro autor investirias? eu penso em ter uma editora, etc. sei que é preciso um montão de coisas para concretizar isto: dinheiro, equipe, marketing, know-how, etc,etc, extensíssimo etc 😀 mas, pretendo sim, não sei quando, realizar isto. porque, além da flannery o’connor, o brasil precisa conhecer outros tantos autores (é de realmente perder a conta) 🙂 sim! eis outro livro sobre autores que converteram-se ao cristianismo: https://www.livrariadanubioeditora.com.br/produto/convertidos-literarios/ para mais textos sobre literatura católica procure neste site (https://opusmaterdei.blog/) os tópicos literatura católica ou dana gioia. neste post já cita a flanney o’connor: https://opusmaterdei.blog/2018/07/09/o-grande-periodo-da-literatura-catolica-nos-eua-dana-gioia/

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      6. Dizem que ser dono de editora é para quem realmente gosta, já que é um negócio arriscado. Mas, se essa é a sua vontade, invista nisso, pois quando algo é um sonho, o esforço é necessário, e a vontade já será uma grande ajuda para que tudo dê certo!
        Eu gostaria de ver algumas obras publicadas, por exemplo a continuação de ‘Metro 2033’, um livro russo pós-apocalíptico. Tem alguns livros raros do Stephen King que nunca mais foram reeditados. Acho que no Brasil as editoras prezam apenas pela publicação dos livros mais famosos de certos autores, as demais obras nunca são publicadas, o que é bem chato.
        Obrigado pelos links, vou dar uma lida!

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      7. Muito obrigado, manolo! Ótimas leituras e tudo o mais! Concordo com o que falasse sobre as editoras preferirem os livros mais famosos. Uma saída para arriscar na publicação de outras obras talvez seja através de campanhas de crowdfunding.

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      8. A Aleph acabou de bater a meta de um crowdfunding para uma edição especial de ‘2001: uma odisseia no espaço’. Eles conseguiram atingir a meta, algo inovador. Mas espero que essa moda não pegue tanto assim, que fique apenas eme edições de colecionador!

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      9. Mas por que tu não gostarias que essa moda do crowdfunding pegasse? Imagine, por exemplo, as várias campanhas propostas pelas editoras. Se eu fosse a companhia das letras eu faria uma pesquisa com os leitores perguntando qual livros do catálogo eles gostariam de ver republicadas. Por exemplo, aquele livro do Laurence Sterne, “A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy” (que influenciou a feitura do “Memórias Póstumas de Brás Cubas”), está indisponível até hoje. Pela estante virtual, o preço mais em conta é 120 reais. Pela saraiva, a edição indisponível da companhia das letras sairia por 72 reais (é o preço da editora, vi agora). Encontrei uma outra edição na livraria cultura, pela editora portuguesa antígona. Estava para mais de 100 reais. Enfim, gostaria de saber da sua opinião. Tudo de bom e tudo o mais!

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      10. Eu lembrei que também gostaria de ver uma reedição de ‘Psicopata americano’!
        Eu acho que os preços ficam muito elevados quando se trata de crowdfunding. Os preços dos lançamentos atuais já estão altos, encareceram bastante, e por meio de crowdfunding seria ainda mais caro. Aí quem comprar tem que ser fã mesmo.

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      11. Agora entendi 🙂 E, pensando bem, concordo. Eu não entendo muito de economia. Mas acho que talvez os livros sejam tão caros porque não são bens tão procurados como tomate, pão, etc. Vejo os livros que estão em promoção nas livrarias. Para chegar ao preço de 10 reais, eles passaram 8, 7, 9 anos parados. Era como se os livros em promoção fossem aqueles que a livraria perdeu a esperança de vender no preço que compraram. Alan, muito obrigado por compartilhar sua opinião e ajudar na compreensão destas questões. As suas indicações foram anotadas 😀 Ótimo dia e, tudo o mais!

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      12. Até o dinheiro fica mais “barato” quando a oferta é maior (é o que gera a inflação, por isso imprimir dinheiro é uma ideia ruim, economicamente, pois desvaloriza a moeda). Para os livros ficaram a esse valor que você disse, só quando estão encalhados ou quando são as últimas unidades do estoque.
        Fico feliz em compartilhar informações e ideias com você!
        Grande abraço, um bom dia!

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