Os empresários do mercado editorial brasileiro não estão nem aí para você, consumidor

Pessoas rindo de você apontando para você
Imagem: The People Speak!, Flickr. Licença (CC BY 2.0).

Querem regulamentar o comércio de livros no Brasil, uma medida que vai prejudicar diretamente o consumidor. Entenda.


Eu estava planejando escrever um outro tipo de postagem para hoje, mas ontem, dia 29 de outubro, em pleno Dia Nacional do Livro, li uma notícia que me incomodou bastante e pensei: “bem, preciso comentar a respeito desse assunto, uma vez que é algo que me afeta, assim como também afeta todos aqueles que gostam de ler”.

Segundo noticiou o site Publishnews, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) está pressionando a Casa Civil a respeito de uma “Política Nacional de Regulação do Comércio de Livros”, uma proposta encabeçada pelo Ministério da Cultura. Com a recente notícia de que a Livraria Cultura entrou com um pedido de recuperação judicial (está falindo), os envolvidos pediram ainda mais agilidade da Casa Civil.

Essa “Política Nacional de Regulação do Comércio de Livros”, segundo seus elaboradores, seria uma saída para a crise que assola o mercado editorial brasileiro. Para isso, propõem que no seu primeiro ano de vida, o preço do livro seja praticado com no máximo 10% de desconto. Sim, querem tabelar o preço dos livros, assim como os descontos concedidos pelos varejistas (você pode vender o produto, mas somente pelo valor que os outros decidirem). Eis uma medida que fere liberdades individuais e econômicas; se você deseja vender um produto por determinado preço, venda (deveria ser assim).

As livrarias não estão conseguindo competir com a Amazon, por exemplo, que pratica grandes descontos, e agora pedem socorro ao papai estado. Os envolvidos nessa proposta estão praticamente dizendo que a culpa da própria incompetência é o sucesso dos outros. Ao invés de buscar maneiras de evoluir, clamam por medidas protetivas. Se o mercado editorial brasileiro está em crise, a culpa não é de uma empresa em específico. A Livraria Cultura, por exemplo, recebeu cerca de R$ 28 milhões do BNDES, investiu mal o dinheiro (comprou as operações da FNAC no Brasil, que já estavam praticamente falindo) e quebrou. Outros fatores também contribuíram para essa crise, como você pode ler nesse post (leia, será um complemento para este texto).

O presidente da CBL, Luís Antonio Torelli, ri da cara do consumidor ao argumentar que “o consumidor perdeu a noção do valor do livro”. Ora, o consumidor sabe muito bem o que paga, e se pode pagar por tal produto. Pense: se mesmo agora, sem essa regulamentação de descontos, o mercado está em crise, imagina com uma regulamentação, onde os preços estarão mais altos? Se as pessoas não estão comprando mais barato, não vão passar a consumir mais após o aumento dos preços (uma lógica boba e óbvia). Por exemplo, a Companhia das Letras vai publicar um livro que reúne todos os contos de Tolstói. O preço de capa é R$199,90, um valor que já assusta por si só. Com essa regulamentação, o melhor preço que o consumidor encontraria, durante um ano todo, seria R$179,90 (10% de desconto), ainda um preço muito alto. É o mesmo que pedir para não vender, para que o livro fique encalhado nas prateleiras, que é o que acontecerá. Somente após um ano você encontrará preços mais competitivos, mais ao seu alcance e, para uma editora, esperar um ano para ter lucros não parece uma boa ideia, é um longo período para se cobrir os custos de produção. Sendo assim, provavelmente, haveria uma tiragem menor, resultando em preços de capa mais elevados.

Regulamentar o mercado é o caminho para o fracasso. Trata-se de uma medida que visa apenas o bem-estar dos empresários do mercado editorial e das livrarias, pois não ajuda em nada o consumidor, que terá que pagar mais caro para adquirir um livro. E isso vai iniciar um ciclo, onde as vendas despencarão, afetando ainda mais a crise, e os empresários que estão defendendo essa regulamentação acabarão por “se ferrar” ainda mais. Além de o consumidor sair prejudicado, pequenas livrarias e pequenas editoras também pagarão o preço, pois serão os primeiros a quebrar, afinal as grandes editoras e as grandes redes de varejo possuem maior poder econômico, podendo sobreviver em momentos de crise. Aproveitando que fascismo é um assunto em alta, na Itália fascista os preços e salários eram controlados e ditados pelo governo; o fascismo odeia o capitalismo.

Com preços menos competitivos, os mais pobres não terão como adquirir novos livros, muito menos lançamentos. Regulamentações desse tipo contribuem para a elitização da cultura e da leitura, já que somente os mais ricos podem pagar mais caro, sem que o orçamento familiar seja prejudicado. Isso fará o mercado de livros usados crescer, o que não é bom para as editoras, mas é bom para donos de sebos.

A classe empresarial brasileira tem medo de competição, sempre pedem ajuda para o estado. Esse é o famoso corporativismo, o capitalismo de estado, o oposto do real capitalismo, proposto pelo liberalismo. Ao invés de lutarem por menos impostos, menos burocracia, por uma maior abertura de mercado, essas pessoas querem fechar o mercado editorial ainda mais, buscando proteção estatal — pior que esse mercado já conta com algumas isenções fiscais e mesmo assim consegue ir pro buraco.

Qualquer tipo de regulamentação de mercado é prejudicial ao consumidor. Quando isso ocorre, os preços aumentam, e não sei onde isso pode ser algo positivo. Regulamentações servem apenas para proteger empresas e empresários incompetentes, é literalmente premiar a incompetência. E tem muita editora por aí que se faz de boazinha, defensora das minorias e da cultura, todavia, apoiando esse tipo de ideia, é revelada uma grande hipocrisia. Isso é fomentar a elitização, é impedir que os mais pobres comprem livros novos.

Se querem tanto que a população leia, que mais pessoas comprem livros, para que esse medo todo? Por que buscar proteção? Uma empresa que consegue trazer preços competitivos jamais deveria ser punida; a punição deve vir por meio da incompetência, não por meio de uma canetada, de um decreto. Parece que a CBL, e muitos empresários do ramo livreiro, não estão nem aí para você, consumidor. Porém, você possui o poder, você é quem mantém o mercado na ativa. Ninguém quer ficar sem opção de escolha, o consumidor quer o melhor preço, e muitos deixarão de comprar, caso todos os preços sejam altos. Queremos preços competitivos e atraentes.

Quem gosta de livros deveria ser opor à “Política Nacional de Regulação do Comércio de Livros”, uma medida que não traz nenhum tipo de vantagem. Caso essa política passe, ninguém vai poder reclamar que a crise ocorreu por causa de políticos, da população, ou de empresas. Caso essa política venha a ser aprovada, a crise se agravará (é a tendência), e quem apoiou essa regulamentação terá que olhar para o próprio umbigo e admitir sua parcela de culpa.

Alan Martins


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

2 pensamentos

  1. Uma lástima. Mais uma atitude equivocada que não consegue enxergar um palmo diante do nariz. No lugar de promover ideias e modelos de gestão que podem viabilizar a produção, pedem dinheiro ao Estado. Maldita herança portuguesa, esta de depender do Estado e de permitir – e às vezes promover – a intromissão do Estado, este abelhudo que, infelizmente, cresce mas não amadurece. Tenho tentado ler livros pelo aplicativo kindle em meu tablete, mas jamais será a mesma coisa. Acontece que já não tenho mais espaço e paciência para colecionar livros. Com a carestia então… Fossem mais baratos, poderia continuar comprando e revendendo, trocando em sebos, sem prejudicar a mim e a ninguém. Mas não… a ganância e a imbecilidade vaidosa de meia dúzia de energúmenos tem que por tudo a perder… Ô raça…

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    1. Parece que os grandes editores, que apoiam essa política de regulamentação, querem fechar um grupinho seleto, o que fecha o mercado, quebra a economia, ferra o consumidor, o que reflete no bolso deles mesmos, depois. Ao invés de buscar independência, querem ser dependentes do estatismo. Olha, esses empresários aí precisam aprender um pouco sobre economia, devem se modernizar, praticar novos modelos de gestão. Eles mesmos fomentam a crise, e depois reclamam. Vai entender.
      Obrigado pelo seu belo comentário.
      Grande abraço.

      Curtido por 1 pessoa

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