Minhas Leituras #90: O presidente negro – Monteiro Lobato

Capa livro O presidente negro Monteiro Lobato

“Visionário e polêmico”

Título: O presidente negro
Autor: Monteiro Lobato
Editora: Globo
Ano: 2009
Páginas: 208
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“Em regra, o homem é um bípede incompreensível. Alimenta-se ideias feitas e desnorteia diante do novo.” (LOBATO, Monteiro. O presidente negro. Globo, 2009, p. 37)

Em seu único romance adulto publicado, Monteiro Lobato nos conta uma história de ficção científica, onde, no ano de 2228, um homem negro é eleito presidente dos Estados Unidos. Se há aqueles que acreditam que o autor era racista, muito se deve a esse livro, em especial.

Fã do Tio Sam

Monteiro Lobato [1882 – 1948] foi um grande admirador dos Estados Unidos, do empreendedorismo daquele povo, um país que, durante o século XX, se transformou na maior potência econômica mundial. ‘O presidente negro’ foi escrito um pouco antes de Lobato se mudar para Nova Iorque.

Ele acreditava que a literatura infantil brasileira carecia de grandes obras, de grandes mitos e lendas. Foi quando escreveu suas obras de maior sucesso, que englobam as histórias do ‘Sítio do Pica-pau Amarelo’. Mas ele não escreveu apenas livros infantis, foi também um autor de crônicas e contos, além de tradutor.

Hoje, Monteiro Lobato é considerado um dos maiores escritores do Brasil, um sujeito inteligente, erudito, de escrita refinada, detentor de um olhar visionário. Entretanto, não é um autor unânime, já que muitos críticos afirmam que suas obras são recheadas de elementos racistas.

A partir de 2019 os direitos autorais de suas obras cairão em domínio público, ou seja, qualquer um poderá publicar suas obras, ou criar obras derivadas. Algumas editoras já estão preparando coleções das obras de Monteiro Lobato, como a Companhia das Letras. Teremos muitas novidades por aí, ao que tudo indica.

“O mundo, meu caro, é um imenso livro de maravilhas. A parte que o homem já leu chama-se passado; o presente é a página em que está aberto o livro; o futuro são as páginas ainda por contar.” p. 42

Visualizando o futuro

O livro conta a história de Ayrton, homem do início do século XX, um simples funcionário da empresa carioca Sá, Pato & Cia. Seu sonho é comprar um automóvel (a influência do fordismo), o que, com muito esforço, ele consegue fazer. Porém, certo dia, Ayrton perde o controle do veículo e sofre um acidente. Quem o resgata é o excêntrico professor Benson, que vive em uma espécie de castelo, localizado na região de Nova Friburgo.

Benson é um inventor e vive com sua filha, Miss Jane. Ele criou um dispositivo capaz de visualizar o futuro, que foi batizado de “porviroscópio”. Ayrton fica encantado com essa invenção e com as histórias sobre o futuro, narradas pelo professor e sua filha.

A história que mais chama a atenção de Ayrton é sobre os Estados Unidos de 2228, onde houve uma completa segregação étnica, e também de sexos. Negros e brancos não se misturam, assim como as mulheres brancas não se misturam a ambos. Um representante de cada grupo disputará as eleições de 2228, e isso pode causar um grande choque no país.

“Sim, porque se não fosse a desonestidade dos homens tudo se simplificaria grandemente.” p. 23

Futuro eugenista

No início do século XX — quando ‘O presidente negro’ foi publicado — o movimento eugenista ainda era forte. Os eugenistas acreditavam que uma etnia seria superior à outra (mais hábil, mais inteligente), e buscavam maneiras de “purificar uma raça”, o que soa nazista, e não por mera coincidência. Esse movimento acreditava que até características físicas, como a cor da pele, ou o tamanho do crânio, influenciariam na conduta das pessoas. Hoje sabemos que isso não é verdade, graças ao avanço da verdadeira ciência.

Há uma grande influência eugenista em ‘O presidente negro’. O ano de 2228 apresentado por Monteiro Lobato é muito extremista. Os homens brancos dos EUA buscam uma maneira de “branquear” os negros, através de métodos “científicos”, e há uma segregação entre homens e mulheres, algo que vai muito além do feminismo, um pensamento que coloca a mulher como uma espécie à parte. Poderíamos dizer que esse foi apenas um pensamento que o autor teve, um reflexo de seu tempo. Todavia, as personagens concordam que a eugenia é o caminho para o futuro, o melhor para a sociedade, detalhe que corrobora as críticas sobre racismo em suas obras.

Mas há pontos positivos também, e interessantes. A escrita de Monteiro Lobato é cheia de classe, se assemelhando bastante aos livros de H. G. Wells, um autor clássico da ficção científica (e que foi uma inspiração para o brasileiro). O “choque das raças” que o livro apresenta realmente aconteceu nos EUA, nos movimentos dos direitos civis dos negros, na década de 1960. Olhando para nosso próprio umbigo, é possível ver uma certa segregação política na população brasileira, mais precisamente nos discursos políticos. Monteiro Lobato também previu que uma tecnologia tornaria possível trabalhar em casa e transmitir o trabalho à empresa, sem precisar se levantar (isso nos é possível, graças à internet). Pode-se dizer que também foi prevista a expansão chinesa, pois no livro os mongóis dominaram a Europa. E o ponto principal: um homem negro realmente foi eleito presidente dos EUA, só que 220 anos antes do que Monteiro Lobato imaginou.

Temos em ‘O presidente negro’ uma obra que demonstra a genialidade de seu autor, que foi um grande escritor e visionário. Entretanto, o ponto de vista eugenista apresentado muitas vezes rebaixa os negros, com expressões de mau gosto, depreciativas. Há críticas para todos os lados: brancos, negros, homens e mulheres, mas, mesmo assim, se eu fosse negro, não me sentiria muito bem ao ler certos capítulos. Leitura muito polêmica, ainda mais na era do politicamente correto.

“Compreendo hoje o fenômeno e sei que a verdadeira superioridade num homem não o extrema dos “inocentes”, como dizia o professor — e por isso chamava Jesus a si os pequeninos.” p. 56

Sobre a edição

Edição padrão. Brochura, capa com orelhas, com uma arte baseada em tipografia, miolo em papel Pólen Soft, boa diagramação. O formato do livro é um pouco diferente, utilizando um formato 22,6 x 13,4 cm (altura comum, porém mais estreito).

Há alguns extras, que falam sobre a obra em si e um pouco sobre o autor. Foi o estilo adotado pela Editora Globo para os livros de Monteiro Lobato.

“Ser tudo!… Que significa ser tudo? Quando penso nas grandezas do mundo, rio-me delas…” p. 64

Conclusão

Livro bem escrito, com uma linguagem elegante; uma ficção científica ao estilo de H. G. Wells (estilo clássico). Conceitos interessantes, como um dispositivo capaz de visualizar o futuro, algumas passagens visionárias e uma prosa fácil de ser lida. Tudo isso fica um pouco ofuscado pelo posicionamento tomado pelas personagens, que veem com bons olhos as ideias eugenistas abordadas por Monteiro Lobato, que eram ideias comuns no início do século XX. Em certos capítulos, há frases depreciativas, que colocam os negros em uma posição de inferioridade, o que é difícil de “engolir”. Não é questão de ser politicamente correto, é apenas empatia: se eu fosse negro, me sentiria mal ao ler essas partes do livro, não seria legal. Não sei se o que está na obra é reflexo do pensamento do autor, mas os diálogos dão a entender que o eugenismo é uma coisa boa, quando na verdade não é, pois são ideias que geram preconceito, segregação e são baseadas em achismos; o eugenismo já causou muito mal ao mundo. Uma pena o livro ter esse lado negativo, pois a narrativa é interessante, e o enredo mostra a habilidade e inteligência de Monteiro Lobato. Um clássico da literatura brasileira, e ainda uma história de ficção científica. Vale a pena ser conhecido, porém sem fechar os olhos para os pontos negativos.

“Uma pontinha de mistério é indispensável no tempero dos romances.” p. 171

Minha nota (de 0 a 5): 3

Alan Martins

Livro O Presidente Negro Monteiro Lobato
Edição simples, porém elegante.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

10 pensamentos

  1. Fiz um trabalho para o mestrado sobre Monteiro Lobato. Discutia se o autor deveria ser retirado do Programa do governo que distribui material didático, pela sua tendência racista. A turma era predominantemente de alunos negros e foi difícil debater que o autor estava inserido em um tempo onde o racismo era ‘permitido’. Defendi a manutenção de seus livros no Programa alegando que outros cânones literários, como Shakespeare e Aristóteles também possuíam trabalhos onde expressavam seus preconceitosa mas que nem por isso deveriam ser expurgados, e sim trabalhados de forma mais crítica e consciente.
    Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ele não serve como um exemplo a ser seguido, mas seus livros servem como debate, sobre como o racismo era comum no passado, e aceito por muita gente. Essa leitura funciona como crítica, não como exemplo a ser seguido. Mostra que, apesar de tudo, o Brasil conseguiu evoluir nesse sentido.
      Parabéns pelo seu trabalho, deve ter ficado bem legal!
      Abraço.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Ouço bastante polêmica das obras de Monteiro Lobato e do racismo. Ponderemos…
    Foi outra época histórica, outros pensamentos, ensinamentos e cultura. Assim como agora somos todos impregnados de muitos “ismos”. Complexo julgar o que já foi, sem analisar o processo evolutivo…
    Monteiro Lobato um ser sempre vivo

    Curtido por 1 pessoa

    1. Exato, ele foi um reflexo de seu tempo, onde ideias preconceituosas eram recorrentes e aceitas. Essa leitura serve como um ensinamento sobre como foi o início o do século XX, uma aula de história. Ainda bem que o mundo evoluiu, é a conclusão tirada de tudo isso.
      Obrigado pelo comentário.
      Abraço.

      Curtido por 2 pessoas

    1. Me pergunto se ainda existe algo puro hoje. Esse livro é bem interessante, dificilmente seria publicado nos dias atuais, por conta desse pensamento polêmico, eugenista. Apesar de tudo, vale a pena a leitura, vale como enriquecimento.
      Obrigado pelas palavras!
      Abraço.

      Curtido por 1 pessoa

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