Minhas Leituras #88: O colecionador – John Fowles

Capa Livro O Colecionador DarkSide

“Um suspense, dois pontos de vista”

Título: O colecionador
Autor: John Fowles
Editora: DarkSide Books
Ano: 2018
Páginas: 256
Tradução: Antônio Tibau
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“Essa é a beleza do dinheiro. Com ele não há obstáculos.” (FOWLES, John. O colecionador. DarkSide Books, 2018, p. 41)

Em seu romance de estreia, John Fowles surpreendeu e assustou os leitores dos anos 1960 com um thriller que faz uso de alguns elementos de um romance filosófico, uma combinação difícil de funcionar e que fez da obra um marco do gênero, um clássico do século XX.

Entre movimentos

John Robert Fowles [1926 – 2005] foi um romancista de fama internacional. Seu livro de estreia, ‘O colecionador’ (que inspirou o filme homônimo de 1965, com duas indicações ao Oscar), acabou se tornando um ícone da cultura pop, apesar de ter sido publicado em 1963, período em que o movimento da contracultura começava a ganhar força. Seus livros sempre foram elogiados por apresentarem grandes personagens femininas. Alguns críticos chamavam suas obras de “romances feministas”; esse foi outro movimento que também tomou força na década de 1960.

Antes desbancar como escritor, Fowles trabalhou como professor, logo após se formar no New College, de Oxford. Nessa época ele leu muitos autores existencialistas, tais como Jean-Paul Sartre e Albert Camus, que foram suas grandes influências.

Além de ‘O colecionador’, outras duas obras de Fowles também fizeram bastante sucesso. São elas ‘The Magus’ (1965) e ‘A mulher do tenente francês’ (1969), que foi adaptado para o cinema em 1981, um filme que recebeu cinco indicações ao Oscar.

“Mas esquecer não é algo que você faz, é algo que acontece.” p. 33

Um homem que gostava de colecionar

A premissa desse livro é simples, mas, ainda assim, capaz de surpreender. Temos dois protagonistas. Frederick Clegg é o nosso colecionador. Ele gosta de capturar borboletas, espetá-las com alfinetes e guardá-las, criar uma coleção.

Podemos dizer que Clegg é um sociopata, uma pessoa que, segundo suas palavras, gosta de estar sozinha, que odeia companhia e sente certa repulsa por pessoas, principalmente de pessoas ricas, a alta burguesia. Porém, parte desse seu ressentimento vem de sua falta de habilidades sociais, e também de sua criação. Ou seja, Clegg é um grande egoísta e não sabe lidar com pessoas.

Miranda Grey é uma jovem que sonha em ser pintora. Ela é a segunda protagonista do romance e acabou de ganhar uma bolsa para estudar na prestigiada Escola de Arte Slade. Miranda mora próximo ao local de trabalho de Clegg, que passa a observar a jovem, nutrindo fantasias e obsessões.

Certo dia a vida de Clegg muda completamente. Após receber uma bela fortuna como prêmio da loteria esportiva, ele se vê capaz de capturar o espécime que faltava para sua coleção: Miranda. O dinheiro trás poder, assim Clegg dará um jeito de sequestrar a jovem, que representa sua obsessão, sua loucura. O que será que esse sujeito perverso, que gosta de se manter no poder, deseja da pobre Miranda? Quais são seus planos para ela?

“Não me lembro sequer se eu não imaginei manter o acordo, ainda que ele havia sido forçado e promessas forçadas não são promessas, como dizem.” p. 104

Dois pontos de vista

Talvez o grande diferencial de ‘O colecionador’ seja a escolha de Fowles de apresentar a mesma história vista de dois pontos de vista diferentes: o do sequestrador e o da sequestrada. O primeiro capítulo é narrado por Clegg, que conta a história até certo ponto. O segundo capítulo retoma tudo o que já havia ocorrido, mas dessa vez conhecemos a visão de Miranda, que, ao mesmo tempo em que odeia seu carrasco, sente certa empatia por ele.

Essa tentativa de mostrar os dois lados da história é legal, porém não agrada tanto. A segunda parte é chata, é uma espécie de diário onde Miranda escreve sobre sua vida em cativeiro e também sobre uma paixonite que ela tem por um pintor medíocre, um tal de G. P., um homem mais velho que ela e que seduz jovens mulheres ao posar de superior, de erudito. É uma parte enfadonha do livro; o que realmente queremos saber é o que Clegg planeja, qual será a próxima ação desse personagem imprevisível! E, também, se Miranda conseguirá escapar. Não queremos ler sobre as paixões dessa jovem hipócrita, que se transforma em tudo aquilo que critica.

Isso pode funcionar positivamente, deixando o leitor curioso. O problema é que Miranda não é tão interessante assim. Seu lado da história é mais filosófico, falando sobre diferenças de classes sociais, política e arte (aliás, há muitas referências a pintores e obras clássicas da Literatura), mas, ao mesmo tempo, isso significa uma pausa abrupta na narrativa que se desenvolvia, no clima que estava se formando. Aí notamos a diferença entre os dois protagonistas, há um grande abismo social e cultural entre eles, com Miranda se sentindo superior a Clegg por possuir uma bagagem cultural maior que a dele.

De modo geral, o clima do livro é “parado”, tudo ocorre na casa de Clegg, entre ele e Miranda. Só que as coisas demoram para acontecer. Parece que Fowles não havia se decidido se escreveria uma história de suspense, ou um romance filosófico. No fim ele misturou as duas coisas, o que acabou não funcionando tão bem assim.

“Pertencer é uma mão dupla. Uma que dá e outra que aceita o que lhe é dado.” p. 111

Sobre a edição

Capa dura, belo projeto gráfico, pintura trilateral, miolo em papel Pólen Soft e boa diagramação. A DarkSide caprichou no design do livro e também trouxe alguns extras, como um prefácio escrito por Stephen King (onde ele elogia muito a obra, e eu sempre fico com um pé atrás quando King fala bem de um livro), que fez parte de uma publicação da obra nos Estados Unidos, e também um posfácio contendo algumas explicações sobre referências artísticas e literárias que o leitor encontrará ao longo da leitura.

Por fora a edição está linda, mas por dentro há alguns erros gramaticais bem feios, os revisores fizeram um trabalho bem preguiçoso. Tradução de Antônio Tibau, um bom trabalho, pena que a revisão pecou (clique aqui para ver alguns desse erros).

“É o que as pessoas estão fazendo o tempo todo com a arte. Chamam um pintor de impressionista, ou cubista, ou qualquer coisa, e então colocam ele numa gaveta e não veem mais o pintor como um ser vivo individual.” p. 79

Conclusão

Suspense com uma pegada filosófica, uma característica que, de certa forma, quebra o clima e pausa a narrativa. Há o lado ruim e o bom, porque livros que fazem o leitor refletir são interessantes, só que isso prejudica a parte do suspense, há uma quebra no clima. Assim como a ideia de um romance narrado por personagens que são contrapartes também é interessante e traz pontos positivos, como ter a visão do sequestrador e a da sequestrada. Porém, a parte narrada por Miranda não é tão interessante assim, ela não é uma personagem muito cativante. O que o leitor fica louco para descobrir é o que se passa na mente de Clegg, qual será seu próximo passo e se Miranda conseguirá fugir de suas garras. O protagonista/vilão é um dos pontos fortes desse livro, sua imprevisibilidade surpreende. Não diria que ele assusta, todavia Clegg desperta a curiosidade do leitor, podendo até despertar a empatia, apesar de toda sua maldade e tentativas de racionalizá-la (em sua visão, ele não faz nada de mal). Fowles trouxe uma grande novidade ao suspense e acabou se tornando um ícone. ‘O colecionador’ apresenta altos e baixos, pois seu autor quis experimentar gêneros, o que resultou em algo não tão agradável, ou divertido, de ser lido.

“A vida é uma piada, é besteira levá-la a sério. Seja sério em sua arte, mas brinque um pouco sobre tudo mais.” p. 203

Minha nota (de 0 a 5): 3

Alan Martins

Livro O Colecionador John Fowles DarkSide
Essa editora sabe caprichar no projeto gráfico!

A antiga edição desse livro aparece no clipe da música Só você, de Vinícius Cantuária, hit dos anos 1980 que, mais tarde, fez sucesso na voz de Fábio Júnior.


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

9 pensamentos

  1. Nossa tava com muita vontade de ler esse livro, eu amei a capa e a darkside sabe fazer capas de livros! Mas confesso que dei um broxada kkk só em saber que essa mistura deixa a leitura lenta e quebra o clima já dar vontade de desistir do livro, agora compraria mais pela capa mesmo. otima resenha,como sempre! 🙂

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu não gostei muito da quebra de ritmo, confesso que broxei nessa hora, deu vontade de passar as páginas logo (tipo: termina logo isso, quero ver o que vem depois!). O autor enrolou muito em algumas partes, o que ficou chato. A edição está linda mesmo, mas esqueceram de caprichar na revisão, no texto, o principal. Se você tem o interesse pelo livro, recomendo que leia, vai que você tem uma opinião diferente da minha!
      Obrigado pelo comentário!
      Grande abraço.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Eu estava na faculdade de psicologia (faz tempo) quando li esse livro e obvio que fiquei algum tempo a analisar as personagens e as particularidades de cada um.
    O ponto alto do livro para mim foi a obsessão de Clegg, que passa do endeusamento ao ódio… sem limites. E confesso que a maneira como ela revela o seu sofrimento psicológico-emocional, me conquistou. E o que me incomodou na personagem foi esse sentimento de superioridade que ela demonstra mesmo sendo refém de Clegg, ela o despreza, não por ser um sociopata e sim por ele não gostar de literatura, artes. Ser apenas um ‘colecionador’.
    É um livro de personagens, a história não é o ponto forte em si, o que explica a lentidão da trama porque foi ‘feito’ para mexer com a mente de quem lê. Adoro esse tipo de leitura.
    Ah, mas nunca o li em português, acho que farei isso em breve, para ver o que esse eu de hoje, fora do universo da psicologia, vai achar. rs

    bacio

    Curtido por 1 pessoa

    1. Clegg é um ponto forte desse livro, um personagem muito cativante e interessante. É legal analisar os personagens, ainda mais para quem estuda psicologia, aí dá para ficar o livro todo analisando todos!
      Faça uma nova leitura, com certeza terá uma nova visão sobre a obra.
      Grande abraço!

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  3. Oiie. Eu conheço esse livro porque ele me surgiu quando pesquisava sobre O Jardim das Borboletas que tem uma premissa bem parecida.
    No mais eu não conhecia essa história em seus termos de estrutura e fiquei feliz com sua resenha pois entendi o que esperar do livro. Algo intenso e doloroso. Principalmente no ponto de vista de Miranda. Muito embora talvez no de Greg seja bem mais interessante.
    Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fico feliz em saber que a resenha ajudou você a ter uma ideia sobre o livro! É uma estrutura narrativa um pouco diferente, podendo agradar bastante, ou nem tanto. Aí vai depender do leitor. Recomendo que leia, talvez sua visão sobre a obra seja diferente da minha!
      Obrigado pela visita.
      Abraço.

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