Minhas Leituras #87: Flores para Algernon – Daniel Keyes

Flores para Algernon Livro Capa Aleph

“Tocante, do início ao fim. Um livro atualíssimo”

Título: Flores para Algernon
Autor: Daniel Keyes
Editora: Aleph
Ano: 2018
Páginas: 288
Tradução: Luisa Geisler
Encontre este livro na Amazon: https://amzn.to/2pdnIfg

“Que estranho é o fato de pessoas de sensibilidade e sentimentos honestos, que não tirariam vantagem de um homem que nasceu sem braços ou pernas ou olhos, não verem problema em maltratar um homem com pouca inteligência.” (KEYES, Daniel. Flores para Algernon. Aleph, 2018, p. 185)

Publicado pela primeira vez no Brasil, pela editora Aleph, ‘Flores para Algernon’ é um livro de ficção científica que não está muito longe de nossa realidade, trazendo um debate interessante sobre a deficiência intelectual (DI), algo atual e muito necessário.

Psicologia, quadrinhos e livros

Daniel Keyes [1927 – 2014] foi um aclamado autor de ficção científica, vencedor de diversos prêmios. Antes de graduar-se, serviu como comissário de bordo no United States Maritime Service, aos dezessete anos de idade. Em 1950 graduou-se em Psicologia, e em 1961 recebeu o título de mestre em Inglês e Literatura Americana.

Sua carreira de escritor começou nos quadrinhos. Ele escreveu diversas histórias para a Atlas Comics, precursora da Marvel Comics. Pouco tempo depois, Keys tornou-se um editor associado da Atlas, respondendo diretamente a Stan Lee, figura lendária dos quadrinhos.

A ideia para ‘Flores para Algernon’ surgiu como um enredo para um super-herói, que Keys resolveu guardar para si, e a inspiração veio quando o autor dava aulas para pessoas com deficiência. Um aluno, certa vez, perguntou a Keyes se ele ficaria mais inteligente se fosse colocado junto aos alunos do ensino regular. Outro aluno, ao ser removido das aulas, simplesmente perdeu tudo o que havia aprendido quando retornou, uma situação de “partir o coração”, segundo o próprio Keyes.

Em 1959, a primeira versão dessa história foi publicada em forma de conto, rendendo ao autor o Prêmio Hugo. Essa ideia foi expandida e, em 1966, foi publicada em forma de romance, o mesmo desta resenha. O romance lhe rendeu mais um prêmio, o prestigiado Prêmio Nebula.

‘Flores para Algernon’ foi a inspiração para o filme ‘Os dois mundos de Charly’, de 1968. Cliff Robertson, o protagonista do filme, recebeu o Oscar por sua performance.

“Ele comete o mesmo erro que os outros quando olham para uma pessoa de mente débil e riem porque não entendem que existem sentimentos humanos envolvidos.” p. 137

Charlie vê um novo mundo

Charlie Gordon é um homem de trinta e dois anos. Por conta de uma doença chamada fenilcetonúria (que pode ser detectada com o teste do pezinho), o desenvolvimento intelectual de Charlie foi comprometido. Seu QI era de 68, o que, hoje, pode ser considerado como uma deficiência intelectual leve.

Por conta de sua doença, sua condição ficou um pouco mais complicada. Charlie apresentava muita dificuldade ao falar, em aprender a ler e a escrever e em se lembrar de eventos passados. Essa condição o limitava a serviços simples, como fazer a limpeza de uma padaria de Nova York, o seu emprego formal.

Porém, Charlie tinha um grande sonho: tornar-se inteligente. Ele passou a frequentar aulas especiais para adultos retardados (hoje em dia o termo “retardado” foi abolido, mas era comum na época em que o livro foi escrito). As aulas, ministradas pela senhorita Alice Kinnian, ocorriam na Universidade Beekman, onde um grupo de psicólogos e neurocientistas realizavam uma pesquisa: uma cirurgia capaz de aumentar a inteligência de uma pessoa. A cirurgia fora testada, antes, em um rato, Algernon, que ficou mais inteligente, ao ponto de vencer Charlie em muitos testes.

Para os pesquisadores, Charlie parecia a cobaia perfeita, pois possuía esse grande desejo de se tornar inteligente. De forma extraordinária, a cirurgia revelou-se um sucesso. O protagonista realmente conseguiu ficar mais inteligente, seu intelecto começou a desenvolver-se, e bem rápido. Entretanto, a partir de então, Charlie passará a ver o mundo de outra forma, compreendendo coisas e situações das quais não se dava conta. Ele sentirá que está sendo usado, assim como Algernon (com quem criará fortes laços); não é como se ele fosse visto como um ser humano, mas sim somente como uma cobaia. Um conflito entre intelecto e inteligência terá início. Daí em diante o livro só vai te emocionar, vai expandir seus horizontes.

“Ninguém realmente começa algo novo, sra. Nemur. Todo mundo constrói em cima das falhas de outros homens. Não existe nada original de verdade na ciência. A contribuição de cada homem à soma de conhecimento é o que conta.” p. 224

Deficiência intelectual e a sociedade

De todas as questões e discussões abordadas nesse livro, a que chama mais atenção é como a sociedade lida com a deficiência intelectual. No decorrer da leitura vemos que, já nas décadas de 1950 e 1960, nos Estados Unidos havia instituições que ofereciam um suporte aos deficientes intelectuais e muitos pesquisadores estudavam o tema. Claro, não eram serviços ideais, mas as coisas eram muito mais avançadas que no Brasil, por exemplo. Para se ter uma ideia, a profissão de psicólogo(a), no Brasil, só foi regulamentada em 1962, com a Lei nº 4.119.

O livro vai mostrar todas as dificuldades que essas pessoas enfrentam, tais como: pais que não aceitam a condição do filho, as piadas maldosas a respeito da DI (e como pessoas se sentem superiores ao diminuir alguém), como a sociedade infantiliza os deficientes intelectuais, mesmo os adultos, a dificuldade de inclusão social e no mercado de trabalho, e uma falta de empatia, afinal estamos falando de seres humanos, e uma deficiência não torna ninguém menos humano.

Apesar de ser um livro “antigo”, seu enredo fala sobre situações muito atuais. A DI impõe algumas limitações, não há como negar isso. Todavia, temos que ter em mente que isso não quer dizer que o deficiente intelectual não possua desejos; eles têm as mesmas necessidades e curiosidades de qualquer ser humano. E esse fato, infelizmente, não é compreendido por muita gente.

Falando sobre Psicologia, a visão do livro é bastante psicanalítica. Charlie faz terapia com um dos pesquisadores e, de certa forma, também faz uma autoanálise. Ele começa a se lembrar de situações de sua infância, e passa a fazer ligações sobre como esses eventos influenciam sua vida adulta. O enredo é todo estruturado para que essas análises deem certo, fazendo a Psicanálise parecer algo simples e fácil, o que na verdade não é. Charlie ficou muito inteligente, seu QI chegou a 185. Por isso as coisas parecem fácies.

Vale destacar, também, que o livro faz uma crítica aos testes, que são muito deterministas, principalmente os que calculam o QI. O resultado de um teste não é eterno e nenhum diagnostico deve ser baseado apenas neles; um psicodiagnóstico vai muito além.

Com estímulos apropriados, uma pessoa pode desenvolver novas habilidades. Se um deficiente intelectual for estimulado desde cedo, sua vida futura pode ser muito diferente, muito melhor e até mesmo mais simples.

“As pessoas acham engraçado quando alguém estúpido não consegue fazer as coisas do mesmo jeito que elas.” p. 48

Sobre a edição

Edição muito bonita. Capa dura, miolo em papel Pólen Soft 80g/m², boa diagramação (a fonte poderia ser um pouco maior, mas nada que dificulte a leitura).

Ótimo trabalho de tradução, feito pela jovem escritora Luisa Geisler, que vem fazendo bastante sucesso com suas obras. ‘Flores para Algernon’ foi escrito em forma de relatórios de progresso; é Charlie Gordon escrevendo sobre suas mudanças para os pesquisadores. O leitor notará a transformação de Charlie na escrita desses relatórios. No começo há muitos erros de ortografia, parece algo escrito por uma criança aprendendo a escrever. Uma hora isso muda, a escrita do protagonista melhora muito, ficando perfeita, sem erros.

Um detalhe muito inteligente da parte do autor, que a tradutora adaptou muito bem ao Português.

Não mimporto muito em ser famoso. Só quero ser esperto como as outras peçoas para poder ter amigus que gostam de mim.” p. 20 [aqui Charlie já apresenta avanços em sua escrita]

Conclusão

Não é à toa que ‘Flores para Algernon’ tornou-se uma leitura obrigatória em diversas escolas dos Estados Unidos. Esse é um daqueles livros que têm muito a ensinar, que contribuem para uma sociedade melhor. A obra aborda, com muita sensibilidade, as dificuldades enfrentadas pelos deficientes intelectuais. Porém, apesar de muitos avanços obtidos, será que a sociedade está apta a acolher todo tipo de deficiência? Oferecemos condições para que essas pessoas tenham uma vida digna? É preciso que muita coisa melhore, a sociedade precisa evoluir nesse sentido, aceitar melhor as diferenças, compreender o outro com mais empatia. Charlie Gordon, o protagonista, é um deficiente intelectual que passa por uma cirurgia revolucionária, capaz de tornar alguém mais inteligente (seu grande sonho). Conforme seu intelecto se desenvolve, ele passa a enxergar e a compreender todas as dificuldades pelas quais passou ao longo de sua vida. Charlie vê que a sociedade nem sempre aceita a deficiência, que as piadas maldosas existem e que falta um olhar mais humanizado. Daniel Keyes foi um autor muito inteligente e seu livro permanece muito atual, mesmo décadas após sua publicação original. Esse é um livro para se levar para a vida, uma leitura essencial, que deveria ser muito mais divulgada. Não perca tempo, conheça essa história, você não vai se arrepender. Uma obra que vai te fazer sorrir e chorar, e, ao final, você ficará muito satisfeito pela excelente experiência.

“Mas o que há de errado com uma pessoa que quer ser mais inteligente, que quer adquirir conhecimento, entender-se e entender o mundo?” p. 104

Minha nota (de 0 a 5): 5

Alan Martins

Livro Flores para Algernon Daniel Keyes
Uma bela edição, digna da grandeza da obra.

Parceiro
Livros mais vendidos Amazon
Clique e encontre diversos livros em promoção!

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

Anúncios

Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

7 pensamentos

  1. É muito poderoso quando uma pessoa com alguma deficiência, atraso cognitivo ou atraso nos conteúdos formais por negligência e desamparo, encontra novas formas de expressão para comunicar melhor o seu mundo. A deficiência (que tem um espectro enorme) nem sempre implica que a pessoa não tenha capacidade de evolução. Temos de estar sensibilizados para estabelecermos as pontes com as reais potencialidades e interesses da pessoa o que, muitas vezes, é feito de forma incipiente, o que precisa de ser mudado.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Belo comentário!
      Apesar de ser um pouco mais difícil, as pessoas com deficiência podem sim se desenvolver, desenvolver e aprender novas habilidades. O que, muitas vezes, a sociedade não oferece são meios para que isso aconteça. É preciso tratar essas pessoas com dignidade, não como coitados, ou incapazes. É preciso estimulo e incentivo, paciência e empatia. Só assim podemos oferecer novas possibilidades às pessoas com algum tipo de deficiência.
      Obrigado pela sua contribuição.
      Grande abraço.

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s