A utilização da Terapia Cognitivo-Comportamental em pacientes cardiopatas

Cardiologia sinal vital coração psicologia
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As doenças cardiovasculares (DCVs) são a principal causa de morte no mundo. No Brasil as DCVs são altamente prevalentes, sendo a causa de mais de 308.000 mortes por ano. O conjunto dessas enfermidades constitui a principal causa de gastos em assistência médica e corresponde a mais de 10% das internações anuais do sistema público de saúde brasileiro.

Alguns dos fatores de risco (FR) para DCVs são a hipertensão arterial, hipercolesterolemia, diabetes, alimentação pouco saudável, sedentarismo e o consumo excessivo de álcool e tabaco.

Os aspectos emocionais, dentre os FR modificáveis, ocupam lugar central. Depressão, ansiedade, hostilidade, baixo suporte social e estresse crônico estão cada vez mais sendo associados ao aumento do risco cardiovascular.

Apesar de existirem avançadas pesquisas sobre a identificação dos FR psicológicos para as cardiopatias, a melhor estratégia para o manejo desses fatores ainda é inconclusiva. Observa-se maior eficácia comprovada em ações psicológicas no âmbito da prevenção secundária, com pacientes já afetados por alguma das DCVs ou com alto risco para o desenvolvimento de uma.

Dentre as técnicas psicológicas, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) tem se mostrado bastante eficaz na redução dos FR psicológicos. A TCC oferece modelos comportamentais apropriados para lidar com a doença e o tratamento, auxiliando também no desenvolvimento de estratégias facilitadoras para o manejo das novas demandas e na atuação sobre as distorções cognitivas, corrigindo aquelas que dificultam o adequado controle da doença. Quando oferecida em formato grupal, as vantagens da TCC são ampliadas, por conta da possibilidade de apoio social.

O estudo

Gorayeb e seus colaboradores realizaram uma pesquisa buscando avaliar a eficácia de grupos de intervenção com TCC sobre os sintomas de ansiedade, depressão e estresse em pacientes brasileiros com DCV. Foi um estudo quase-experimental de corte transversal, com amostra de conveniência formada de pacientes com DCVs tratados em um hospital público universitário.

Pacientes de ambos os sexos e maiores de 18 anos, diagnosticados com alguma cardiopatia no máximo há dois anos, foram os participantes da pesquisa. Foi incluída uma amostra geral de pacientes, independente da presença de sintomas de ansiedade, depressão e estresse, por se tratar de um estudo pioneiro no Brasil e também devido ao fato desse estudo buscar favorecer e padronizar uma ação assistencial a ser oferecida pelo Serviço de Psicologia do hospital aos pacientes cardiopatas.

Foram coletados os dados sociodemográficos e clínicos dos pacientes, assim como o relato oral sobre as estratégias de enfrentamento de estresse. O Inventário Beck de Ansiedade (BAI) foi utilizado para medir a presença e intensidade de sintomas de ansiedade. A presença de sintomas de depressão e sua intensidade foi mensurada com o Inventário Beck de Depressão (BDI). Já os sintomas físicos e psicológicos de estresse foram medidos com o Inventário de Sintomas de Estresse para Adultos de Lipp (ISSL). Também foram coletados dados sobre medidas fisiológicas, de pressão arterial, frequência cardíaca, Índice de Massa Corpórea (IMC) e HDL-colesterol.

Após a aceitação do Comitê de Ética e dos participantes, os grupos foram constituídos, de forma aleatória, de acordo com a disponibilidade dos pacientes, tendo um caráter psicoeducativo e psicoterapêutico, com enfoque cognitivo-comportamental. A duração foi de 12 sessões semanais, com 2h em cada encontro. Os temas abordados foram o autoconhecimento, FR, proteção das DCVs, manejo de estresse, resolução de problemas e modificação de comportamentos relacionados a FR de DCVs.

Dois psicólogos conduziram os grupos e, embora a intervenção fosse baseada na TCC, outras demandas surgiram no processo, o que acarretou na inclusão de sessões focadas em outros assuntos, como a orientação nutricional.

Apenas os dados dos pacientes que concluíram sua participação na pesquisa foram coletados, com uma frequência de, no mínimo, oito sessões de grupo e às entrevistas pré e pós-intervenção.

Resultados

Os resultados da pesquisa evidenciam uma prevalência elevada de transtornos psicológicos na avaliação anterior à intervenção grupal, quando comparada à prevalência em uma amostra não-clínica: nesse estudo, 45,1% dos participantes apresentaram sintomas de ansiedade em nível leve, moderado ou severo, e 53,9% apresentaram sintomas de depressão. Quando comparada com amostras clínicas levantadas de 1994 a 2009, a porcentagem de pacientes que apresentaram sintomas de ansiedade e depressão nos níveis leve, moderado e severo é semelhante.

Nesse trabalho, foi observada uma redução dos sintomas de estresse após a intervenção em grupo, com um número estatisticamente significativo de participantes alterando sua forma de enfrentamento e reduzindo o uso de estratégias ineficazes, como brigar, fumar ou beber.

Embora não foram observadas muitas mudanças em relação aos dados de pressão arterial e lipidograma, os resultados desse estudo apontam uma redução na proporção de pacientes com sintomas de ansiedade, depressão e estresse em níveis mais graves após a intervenção cognitivo-comportamental.

Conclusão

Há uma escassez de estudos que abordem intervenções psicológicas com pacientes cardiopatas, o que revela que esse é um tema que requer maior atenção dos psicólogos. Apesar de limitações no controle de algumas variáveis, a pesquisa conseguiu avaliar a eficácia da intervenção psicológica grupal sobre sintomas de ansiedade, estresse e depressão e medidas fisiológicas em pacientes cardiopatas. A redução na frequência e intensidade de ocorrência dos sintomas psicológicos demonstram ser possível obter melhora clinicamente significativa dessas variáveis após uma intervenção psicoterapêutica, de abordagem cognitivo-comportamental, em grupo.

Alan Martins

Referência Bibliográfica

GORAYEB, R. et al. Efeitos de Intervenção Cognitivo-Comportamental sobre Fatores de Risco Psicológicos em Cardiopatas. Psic.: Teor. e Pesq., 31-3, p. 355-363, set. 2015.

 


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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