Terapia Cognitivo-Comportamental: atuação hospitalar

Leito hospitalar cama hospital
Imagem por Julie Viken, publicada sob Licença (CC0 1.0). Disponível em: https://www.pexels.com/.

A função do psicólogo hospitalar é o de utilizar técnicas e conhecimentos voltados a uma atividade curativa e preventiva, visando restabelecer o estado de saúde do doente e de seus acompanhantes. Sua atuação não se restringe apenas ao ambiente hospitalar; a psicologia hospitalar também se insere no campo da psicologia da saúde, que objetiva o tratamento da saúde e prevenção de doenças.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) diz que o psicólogo hospitalar atua nos âmbitos secundário e terciário de atenção à saúde. No Brasil, a atuação do psicólogo em hospitais aconteceu de forma tardia. Os primeiros trabalhos eram pautados na psicologia clínica, pois ainda se tratava de um campo indefinido. Com o tempo, profissionais passaram a se interessar pela área, e diversas entidades, como a Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar, foram criadas. Porém, ainda hoje a psicologia hospitalar busca maior definição de seu espaço teórico-prático.

As demandas que chegam aos psicólogos hospitalares são estratégias para lidar com uma maior efetividade do trabalho multidisciplinar com a equipe de trabalho e o foco na intervenção terapêutica. Por isso é importante, para o estabelecimento de relações de colaboração entre pacientes e equipe, a adoção de uma postura ativa, direta e breve, postura esta bastante condizente com os princípios da terapia cognitivo-comportamental (TCC).

A Terapia Cognitivo-Comportamental

Para a TCC, as emoções e comportamentos das pessoas são influenciados pelo modo como elas pensam e interpretam os eventos, focando na modificação de padrões de pensamentos e de crenças disfuncionais, o que influenciará na mudança de comportamento de um indivíduo. O fato de a TCC focar em metas e na participação ativa do paciente, com ênfase no presente e na resolução de problemas, faz essa abordagem ser bastante adequada ao ambiente hospitalar. É possível adaptar estratégias da TCC para serem utilizadas no atendimento individual ou em grupo, dependendo da especificidade da instituição e do paciente.

Apenas no final da década de 1980 é que a TCC passou a ser desenvolvida no Brasil, por isso é ainda uma abordagem em plena expansão. Um dado interessante, levantado por Almeida e Malagris em 2015, mostra que, de 125 psicólogos entrevistados, apenas 32% afirmaram utilizar a TCC como base teórica.

Bibliografia Brasileira

Os autores do artigo realizaram um levantamento bibliográfico de artigos brasileiros, que abordam a utilização da TCC em hospitais, publicados entre 2003 e 2013. Após a aplicação de critérios de exclusão, conseguiram o total de 28 artigos. Oito desses artigos são de revisão de literatura, que discutem possibilidades da aplicação da TCC no ambiente hospitalar geral, e outros que abordam o papel da TCC em temas comuns ao hospital geral.

Alguns dos autores pesquisados relatam que o hospital é um ambiente caracterizado pelo clima de desconforto, sensação de ruptura da rotina, sofrimento físico e emocional, ansiedade e medo do futuro, o que gera, nos pacientes e acompanhantes, uma série de pensamentos e sentimentos ante a expectativa relacionada à doença. O psicólogo hospitalar assume um papel de facilitador do processo de saúde/doença, oferecendo suporte emocional à equipe, aos pacientes e aos acompanhantes.

Nessa revisão, a TCC foi indicada como uma maneira eficaz de estimular a adesão ao tratamento médico, promover hábitos saudáveis e auxiliar os pacientes na avaliação de seus pensamentos automáticos inadequados, que mantêm o estado de humor, e promover estratégias de enfrentamento à hospitalização.

O que pode ser feito no hospital?

Como o ambiente hospitalar apresenta uma mudança de setting, apresentando uma grande demanda e um tempo reduzido de intervenção, é preciso que adaptações sejam realizadas, de acordo com a realidade de cada instituição. O terapeuta cognitivo deve adotar algumas posturas ante o paciente, como fazer uso de linguagem clara e objetiva; adotar uma postura acolhedora; buscar recursos internos adaptativos do paciente para enfrentamento da doença e estabelecer metas realistas.

Assim como na clínica, o primeiro passo é a realização da avaliação psicológica do paciente. Para isso, alguns dados devem ser coletados, como o sofrimento do paciente, seus sentimentos e comportamentos perante à hospitalização; sua relação com a equipe; sua percepção sobre a doença; níveis de ansiedade, depressão e desesperança, por meio das Escalas Beck — Inventário de ansiedade de Beck (BAI), Inventário de Depressão de Beck (BDI) e Inventário de Desesperança de Beck (BHS) —; e as crenças do paciente sobre si mesmo.

Após a avaliação e formulação do caso, o próximo passo é a definição de metas do tratamento com base nas cognições que mantêm os sintomas atuais. Essa intervenção visa o aumento da qualidade de vida do paciente, o estabelecimento de recursos de enfrentamento, o treinamento de habilidades de resolução de problemas, a redução dos níveis de ansiedade e depressão e a redução do estresse causado pela internação. As principais técnicas utilizadas são: treino de habilidades sociais, psicoeducação, relaxamento, dessensibilização sistemática e distração cognitiva.

Algumas técnicas que podem ser utilizadas

O treino de habilidades sociais é importante para que os pacientes aprendam a serem mais empáticos e assertivos. É interessante que o psicólogo foque na responsabilidade, na autoeficácia e na motivação, pois o paciente também é responsável pelo seu tratamento. Essa técnica pode ser utilizada com a família do paciente, assim como com os médicos e enfermeiros.

A psicoeducação consiste em informar ao paciente dados sobre seu diagnóstico, etiologia, evolução da doença, tratamento indicado e prognóstico. Sendo assim, a tarefa do terapeuta é familiarizar o paciente em relação aos seus problemas, esclarecendo sobre as consequências e implicações de seu diagnóstico.

Técnicas de relaxamento são de grande eficácia e podem ser utilizadas pelo paciente no próprio leito hospitalar e em casa, após a alta. Essas técnicas têm como objetivo a diminuição da excitabilidade do indivíduo, como a diminuição da ansiedade, da inquietação e o manejo da dor. Algumas técnicas para redução de ansiedade, que podem ser utilizadas, são: a dessensibilização sistemática (expor o paciente a estímulos ansiosos, definidos hierarquicamente, e fazê-lo permanecer relaxado ao se deparar com esses estímulos), e a distração cognitiva (mudar o foco da atenção para outras situações que não a preocupação atual).

Conclusão

Ao final do artigo, os autores concluem que a publicação nacional sobre a atuação de terapeutas cognitivo-comportamentais em hospitais ainda é incipiente, apesar de ter aumentado nos últimos anos. Os resultados também mostram que a TCC, quando aplicada no ambiente hospitalar, é capaz de reduzir a ansiedade, a sintomatologia depressiva e o estresse gerado pela situação de crise. Trata-se de uma terapia diretiva, focada no presente, com postura empática, que oferece suporte emocional e enfatiza a colaboração do paciente.

Entretanto, há uma carência de estudos empíricos brasileiros sobre intervenção em pacientes hospitalizados, principalmente com permanência rápida no hospital.

Alan Martins

Referência Bibliográfica

PERON, N. B.; SARTES, L. M. A. Terapia cognitivo-comportamental no hospital geral: revisão da literatura brasileira. Rev. bras.ter. cogn., 11-1, p. 42-49, jun. 2015.


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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