Minhas Leituras #71: Admirável mundo novo – Aldous Huxley

Admirável Mundo Novo Biblioteca Azul Capa

“Individualismo e liberdade são importantes?”

Título: Admirável mundo novo
Autor: Aldous Huxley
Editora: Biblioteca Azul
Ano: 2014
Páginas: 312
Tradução: Vidal Serrano e Lino Vallandro
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“Mas é que, quando não se conhece a História, os fatos relativos ao passado, em geral, parecem mesmo incríveis.” (HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Biblioteca Azul, 2014, p. 53)

Ao contrário de uma utopia, a distopia apresenta um mundo perfeito e totalmente funcional, realmente utópico, porém com algumas privações, sendo as mais recorrentes as privações de liberdades e individualidades. ‘Admirável mundo novo’ popularizou esse gênero literário tão apreciado hoje.

Família Huxley

Aldous Huxley foi um membro da famosa família Huxley, da qual vários membros se destacaram nas áreas da medicina, artes, ciência e literatura. Aldous honrou essa tradição familiar, destacando-se com seus livros. Por muito tempo, os nomes dos candidatos ao Nobel de Literatura eram revelados ao público e, em sete ocasiões, o de Aldous Huxley apareceu na lista de indicados. Apesar de nunca ter sido laureado, seu nome era presença constante.

Quando adolescente, o autor ficou praticamente cego por quase três anos, consequência de uma doença ocular, a ceratite. Conseguiu recuperar a visão, todavia com muitas sequelas; ele passou a vida toda em busca de métodos que melhorassem sua visão. Esse triste fato acabou com seus sonhos de juventude, sorte que encontrou seu espaço na literatura.

Escreveu, além de romances distópicos, diversos ensaios, poemas e roteiros de cinema. Em 1954, publicou o livro ‘The doors of perception’ (‘As portas da percepção’), que fala sobre sua experiência com drogas psicodélicas. Faleceu em 1963, vítima de um avançado câncer de laringe.

“Não há civilização sem estabilidade social. Não há estabilidade social sem estabilidade individual.” p. 64

Novo mundo (não tão admirável assim)

Após uma grande guerra, o mundo entraria em colapso, seria um apocalipse atômico. Para evitar essa catástrofe, foi criado um governo mundial, baseado em disciplina, hierarquia e controle. É um mundo perfeito, onde tudo funciona.

Essa perfeição tem um preço: individualidade é um pecado contra o Ford, figura que substituiu Deus, afinal religiões foram abolidas; agora prestam-se culto ao todo poderoso Ford. O coletivismo impera, pensa-se em conjunto, não como indivíduo.

Para que o governo obtivesse controle sobre a população, a reprodução vivípara teve que ser interrompida. Agora os seres humanos são produzidos em fábricas, em larga escala, através de um método artificial de fecundação. Detalhe: as classes baixas são frutos de uma única célula, ou seja, todos gêmeos; apenas as classes mais altas são resultado de células diferentes. Desde cedo, cada embrião é condicionado, por meio do condicionamento clássico de Pavlov, a aceitar o governo, seu destino, sua vida e sua função na sociedade. Dessa forma é possível criar uma população “perfeita” e sob controle. É comum obras distópicas utilizarem o condicionamento clássico em intenções como esta.

Entretanto, o ato sexual não foi proibido. Há um incentivo, na verdade, já que pessoas felizes são menos propensas a se rebelar contra um governo. Não há casamento, todos são de todos (fim da propriedade privada). Para manter essa felicidade, existe a droga soma, que causa os mesmos efeitos de uma droga estimulante, mas sem causar efeitos colaterais, como a ressaca.

Poucos resquícios da cultura anterior ainda existem. Em certas regiões do mundo, foram criadas reservas de selvagens. Selvagens, nesse caso, são pessoas que vivem como índios e cultivam hábitos do passado. Um personagem que nasceu em uma dessas reservas terá um papel importantíssimo nessa história.

Eis o “admirável mundo novo” apresentado por Aldous Huxley.

“Quanto maior é o talento de um homem, mais poder tem ele para desviar os outros.”  p. 181

Não pense por si

Bernard Marx (os nomes dos personagens são reflexos de figuras históricas, e dizem muita coisa), que trabalha em um Centro de Condicionamento, é um pouco diferente dos demais membros da alta classe. Pontapé inicial para o enredo: ele passa a ver-se de maneira individual, a questionar certas coisas.

O ponto central desse romance é a liberdade de ser quem você é, de pensar por si, de ser indivíduo. Há uma grande crítica ao coletivismo, ideias como o comunismo ou socialismo. Mas, ao mesmo tempo, existem críticas ao consumismo e à produção em massa, como o fordismo. Não é um livro nem de esquerda, nem de direita, muito menos um meio-termo. É uma obra que evidencia a importância da liberdade.

George Orwell, autor de ‘1984’, livro inspirado em ‘Admirável mundo novo’, acreditava que Aldous Huxley inspirou-se em ‘Nós’, livro de Ievguêni Zamiátin, descrito como a primeira distopia (já escrevi uma resenha sobre esse livro, leia-a AQUI). Aldous sempre negou essa suspeita, porém as semelhanças são notáveis. Um governo totalitário, sociedade sob controle, um personagem que passa a pensar por si; cabe ao leitor tirar suas próprias conclusões, já que a verdade dificilmente será descoberta.

Quem gosta de Shakespeare encontrará inúmeras referências ao ler ‘Admirável mundo novo’, pois há muitas citações de suas obras clássicas. Huxley utilizou Shakespeare como uma forma de contato entre esse mundo distópico e o anterior. O próprio título do livro foi retirado de uma passagem de ‘A tempestade’.

“[…] pois estar superexcitado ainda é estar insatisfeito.”  p. 111

Sobre a edição

Edição comum. Brochura, capa com orelhas, miolo em papel Pólen Soft, boa diagramação. Há um prefácio escrito pelo próprio autor, que, talvez, seja melhor ser lido após o romance, já que, para alguns, pode conter spoilers.

A tradução, apesar de antiga, é competente. Os tradutores tiveram boas sacadas na adaptação de certos termos. A linguagem, às vezes, revela sua idade, afinal, como tudo, a linguagem também evolui com o tempo. Uma nova tradução poderia ser interessante.

“O que o homem uniu, a natureza é incapaz de separar.” p. 42

Conclusão

Sem Aldous Huxley e seu ‘Admirável mundo novo’, não teríamos obras como ‘1984’, ‘Fahrenheit 451’, e obras mais recentes, como ‘Jogos vorazes’. A importância de Huxley para o gênero distopia, tão popular hoje, é inegável, todavia, temos que admitir que, antes dele, houve Ievguêni Zamiátin e seu livro ‘Nós’. Esse admirável mundo novo não é tão admirável assim, pois seu funcionamento requer a privação de liberdades individuais, o que nunca é bom. Apesar de ser uma leitura tediosa em certos momentos, a reflexão proporcionada é o que importa. Desde que nascemos, somos condicionados a aceitar muitas coisas. Se pensarmos bem, nós sequer questionamos certos fatos que privam nossa liberdade. 2018 é ano de eleições no Brasil, e aqui temos uma leitura muito importante em uma época como essa. Felicidade ou liberdade, qual a melhor escolha? É possível ser feliz sem liberdade? Um governo controlador e intervencionista seria o mais ideal? Leia ‘Admirável mundo novo’ e reflita sobre essas questões.

“Não são os filósofos, mas sim os colecionadores de selos e os marceneiros amadores que constituem a espinha dorsal da sociedade.” p. 22

Minha nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins

Livro Admirável Mundo Novo Aldous Huxley
Edição simples, mas bem produzida.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

12 pensamentos

  1. Muito bom relembrar dessa leitura com sua resenha Alan. Admirável mundo novo, tão antigo e tão atual… Que realmente as pessoas pensem no valor da liberdade, que na minha opinião ultrapassada o da felicidade. Felicidade são momentos, liberdade de expressão é um direito adquirido que não vale a pena ser vendido, manipulado e nem desperdiçado. Acontece que na liberdade tem o peso da escolha, que nem todos gostam de carregar…

    Curtido por 1 pessoa

    1. Qualquer tipo de liberdade é muito importante, não somente o de expressão. Existem tantas coisas que não podemos fazer sem que haja algum tipo de repressão (concordo que algumas nós mesmos nos impedimos, por esse medo do peso da escolha). Um livro muito importante, talvez um dos que mais evidenciam a importância da liberdade, e como sua falta é catastrófica.
      Obrigado pela sua reflexão.
      Abraço!

      Curtido por 1 pessoa

    1. Uma intervenção militar só criaria um Estado mais forte e, quanto mais Estado, menos liberdade. Então esse não é caminho a se seguindo, se você preza pela liberdade. Essas pessoas deveriam ler esse livro, com certeza!
      Obrigado pelo comentário!
      Abraço.

      Curtido por 2 pessoas

    1. Essas máximas condicionadas são engraçadas. Acho também engraçado como imaginavam a teoria de Pavlov sendo utilizada para o mal dessa forma (sendo estudante de psicologia e adepto da terapia comportamental, acho isso algo bem difícil de ser feito, todo esse condicionamento).
      Concordo com você, esse é um livro que faz pensar, muito mais que os livros que solicitam em vestibulares e nas escolas. Mas talvez se por isso mesmo que não cobrem essa leitura! Afinal, o governo também nos condiciona, por meio de punições, até que aceitemos um fato, calados, ou como o mais correto.
      Agradeço as palavras e suas visitas constantes. 🙂
      Grande abraço!

      Curtido por 1 pessoa

      1. A organização social proposta em Admirável Mundo Livro é a que aparenta estar mais longe da nossa realidade, se comparada com as outras distopias famosas da Literatura.
        Se bem que seria interessante existir algo semelhante ao Soma kk.

        Eu que agradeço pelos textos. Continue assim.

        Abraço!

        Curtido por 1 pessoa

  2. este é um livro emblemático, minha geração o “devorou” e muito dos elementos citados por você trazem a história para os dias de hoje. outro livro sobre a questão dramática e segunda maior perda para uma pessoa, a privação da liberdade – está presente em 1984 do G. Orwell. dele, muitas citações podem ser colhidas. outra bela resenha, Alan. grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. É um livro que todos deveriam ler, por causa de toda essa reflexão que pode gerar no leitor. É um aviso sobre como a privação de liberdades pode se tornar catastróficas. Serve para fazermos ligações com a nossa realidade, afinal não somos 100% livres.
      Obrigado pelas palavras.
      Grande abraço!

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