Deficiência e sociedade

Silhuetas deficiência e sociedade
Imagem elaborada por Geralt e publicada sob Licença (CC0 1.0). Disponível em: https://pixabay.com/photo-2731343/.

Antes de individual, a deficiência é um fenômeno social, que ocorre em uma família, em uma comunidade ou em uma sociedade. Não basta apenas olhar para o indivíduo, é preciso compreender também os conceitos e valores da sociedade onde ele está inserido. Como essa população encara a deficiência? Afinal, a sociedade tem grande influência sobre nossos comportamentos, em como agimos.

Por muito tempo, o sujeito deficiente foi visto por uma perspectiva médica: sadio ou não sadio. Todavia, estudos da antropologia e da psicologia social apontam que essas pessoas são encaradas como “desviantes”, pois fogem de um padrão de comportamento pré-estabelecido por uma sociedade, e o fato de seus comportamentos serem “indesejados” seria uma justificativa para a forma como são tratados (como divergentes). As sociedades criam um padrão de “normalidade”, quem se desvia desse padrão acaba sendo visto como diferente.

Existem determinados tipos de comportamentos (estereotipados) que é esperado de um indivíduo que apresente determinado tipo de deficiência; espera-se que, todos que apresentem determinada condição, se comportem da mesma maneira, ou de maneira muito parecida. Diversos estudos apontam que, devido às crenças nesses estereótipos, as pessoas deficientes passam a agir e a se compreender de determinada forma (passam a agir de acordo com os estereótipos), já que são tratados como incapacitados, com a sociedade corroborando para que isso ocorra; são os comportamentos das pessoas que contribuem para a manutenção desse “fenômeno”.

Segregação

Antes, muito mais do que hoje, os deficientes eram isolados. Isso ocorre por diversos fatores, como medo, preconceito, falta de conhecimento sobre a deficiência e outras crenças. Porém, esse tipo de tratamento para com os deficientes é prejudicial e só aumenta a segregação e o preconceito.

Havia a crença de que essas pessoas receberiam melhores cuidados se fossem isoladas dos considerados “normais”, pois necessitavam de uma atenção diferenciada. Mas esse isolamento apenas contribui para que os comportamentos estereotipados ocorram e se mantenham. Isoladas, elas apenas convivem com pessoas que apresentam condições semelhantes e suas potencialidades acabam não sendo desenvolvidas. Aprendemos com a observação, sendo assim, é preciso conviver com as diferenças para evoluir, encontrar desafios que nos impulsionem a aprender e melhorar.

Na verdade, esse isolamento ocorre quando uma sociedade não aceita a diferença. O discurso de que o isolamento seria melhor para as pessoas com deficiência funciona apenas como uma desculpa para disfarçar o preconceito. Afinal, se essas pessoas nunca forem inseridas à sociedade, jamais essa sociedade sentirá que deve se modificar, criar condições para que as pessoas com alguma deficiência sejam aceitas e recebam um tratamento de maior equidade.

Rótulos

Outro ponto negativo é a rotulagem verbal. Ao rotular uma pessoa, já estamos afirmando sua incompetência, o que passa muito longe de ser a verdade sobre suas capacidades. A rotulagem cria generalizações excessivas, o que afeta a identidade pessoal do sujeito, tendo como consequência a internalização desse rótulo. Isso é prejudicial, principalmente, em situações trabalhistas, quando a pessoa procura emprego e é vista como incompetente, devido ao rótulo que carrega.

Situação que acaba se relacionando com os termos de incapacidade e inferioridade. Uma pessoa pode ficar incapacitada por conta de um acidente, ou uma lesão estrutural ou funcional. Mas isso não faz dela uma pessoa inferior. A inferioridade se relaciona com a maneira que uma pessoa incapacitada é percebida por um grupo. Essa situação acaba trazendo mais dificuldades ao indivíduo do que sua própria condição orgânica ou psicológica.

Tomemos como exemplo uma pessoa que perdeu o movimento das pernas. Claro, sua movimentação não será a mesma de antes, o que não significa que ela não consiga mais se locomover. Tomar essa pessoa como um “coitado” não ajudará em nada, assim como dizer que, por conta de sua condição, ela não poderá fazer mais nada sem a ajuda de alguém, também não ajudará. Esse rótulo de inferioridade será apenas um empecilho na vida de uma pessoa com deficiência, ainda mais se esse rótulo for internalizado por ela. Piadinhas e apelidos podem causar grandes estragos.

Referência Bibliográfica

AMIRALIAN, M. L. T. M. A excepcionalidade como um fenômeno social. In: ______. Psicologia do excepcional. São Paulo: EPU, 1986. p. 37-43.

Alan Martins

Para uma maior compreensão, leia meu primeiro artigo sobre esse tema. CLIQUE AQUI


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

5 pensamentos

  1. Eu sou deficiente, mas tive uma educação tanto moral, como física e psicológica que me permitiram utilizar todas as minhas possibilidades. Tudo isso graças aos meus pais, porque se dependesse da sociedade e do governo..,
    O mais importante é o deficiente aceitar suas limitações e trabalhar os seus pontos fortes, como aliás todos deveriam fazer.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Por isso falar sobre o tema é importante. É importante que a sociedade conheça esse tema, ou a situação não evoluirá, não haverá melhorias. Uma população mais elucidada pode cobrar mais de seus governantes, para que sejam cumpridas todas as leis, colocá-las em prática. Esperar tudo do governo não é o certo, também temos que nos mobilizar, mas também temos que revindicar nossos direitos.
      Fico feliz em saber que você conseguiu desenvolver suas potencialidades. Ter independência é algo muito bom.
      Agradeço a visita e o seu relato.
      Abraço.

      Curtir

    1. Fico feliz que tenha gostado do texto. É um tema de muita importância, a divulgação por sua parte será bem-vinda. Todos deveriam ter essa noção sobre a deficiência. Me alegro em saber que concorda com essa visão.
      Obrigado pelas palavras.
      Abraço!

      Curtido por 1 pessoa

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