Minhas Leituras #64: Memórias dum hiperbóreo – Oleg Almeida

Capa do livro Memórias dum hiperbóreo

“Quando o mito e o real se encontram na poesia”

Título: Memórias dum hiperbóreo
Autor: Oleg Almeida
Editora: 7Letras
Ano: 2008
Páginas: 76
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“E eu vivia —/ não consumia a vida/ nem a deixava puxar-me pelas orelhas —/ apenas vivia,/ contente com poucas coisas que tinha,/ e no lugar dos brinquedos surgiam os livros interessantes:/ contos diálogos e poemas.” (ALMEIDA, Oleg. Memórias dum hiperbóreo. 7Letras, 2008, p. 25)

Buscando inspiração nos mitos e antigos poemas gregos, Oleg Almeida criou uma história triste, sobre perdas e mudanças, que, de certa forma, remete à sua história pessoal.

O hiperbóreo

Formado em Letras pela Escola Central das Línguas Estrangeiras, em Moscou, o bielorrusso Oleg Almeida cresceu dentro de uma cultura completamente diferente da nossa. Chegou ao Brasil em 2005 e conseguiu se adaptar, tornando-se um cidadão brasileiro, no papel, em 2011.

Adotou a língua portuguesa para escrever suas poesias, mesclando a beleza de nosso idioma com toda sua bagagem cultural do Leste Europeu, local repleto de grandes autores. Até o momento, conta com quatro livros, de sua autoria, publicados, todos livros de poesia, sendo ‘Desenhos a lápis’ o mais recente, publicado nesse ano de 2018, obra que já apresentei AQUI.

Além de poeta, Oleg é um tradutor de mão cheia. Suas traduções mais populares são as de grandes clássicos da literatura russa, de autores como Dostoiévski, Púchkin e, mais recentemente, Tolstói. Seu trunfo é traduzir direto dos originais em russo, algo que o mercado brasileiro, marcado por traduções indiretas, necessita. Ele também domina a língua francesa e já verteu para o português, por exemplo, Charles Baudelaire.

Com todo o seu conhecimento literário e habilidades artísticas, este é um autor que tem muito a contribuir para a literatura brasileira, assim como para o mercado editorial, com seus poemas e traduções de alta qualidade e profissionalismo.

“Sei que não sei de nada;/ confesso, a contragosto, que nada conheço,/ que sempre me escapa a verdade sutil,/ e fica a saudade do Éden desmoronado.” p. 10

Inspiração grega

Um hiperbóreo, na mitologia grega, é alguém que vive ao norte distante (poderia ser traduzido por bóreas, o vento norte). Autores como Robert E. Howard e H. P. Lovecraft — que eram amigos — utilizaram esse mito em elementos de suas obras. Outro grande autor, Homero, também escreveu poemas baseando-se nesse mito.

É possível observar elementos de Homero em ‘Memórias dum hiperbóreo’, por ser uma história narrada em versos, que fala sobre viagens, sobre a Grécia Antiga e sobre mitos; observa-se que um dos maiores poetas gregos serviu como fonte de inspiração para Oleg Almeida.

Já que os hiperbóreos, supostamente, seriam pessoas que viviam ao norte da Grécia, além dos ventos, podemos considerar o próprio autor um hiperbóreo, alguém que nasceu e cresceu na Bielorrússia, país localizado na região Norte do planeta, ao norte da Grécia..

“Adeus, meu amor!/ De que adianta sofrer de te ver sofrendo,/ se ajudar-te não posso?” p. 52

Lado pessoal

Existem mais motivos para considerarmos Oleg Almeida um hiperbóreo. Este foi seu primeiro livro publicado no Brasil, três anos após sua mudança ao país. Apesar de hoje estar bem adaptado, o autor passou por algumas dificuldades ao desembarcar por aqui. Segundo ele, foi um momento bastante depressivo.

Como protagonista deste livro, temos o hiperbóreo, que narra sobre sua vida, suas memórias. É uma escrita triste, emocionante. Ao ver sua terra atacada, o personagem vê-se forçado a fugir, mudar-se para um país seguro, mais próspero. Nessa viagem, vamos da Grécia ao Egito, de Corinto a Alexandria, de Tebas a Mileto. Mudanças que não são nada fáceis, que deixam marcas, porém que devem ser superadas.

Dessa forma, podemos fazer um paralelo entre a vida do autor e a do personagem criado por ele. São quinze capítulos (ou seriam cantos?) que narram a história desse hiperbóreo, a partir de seu ponto de vista, seguindo um enredo. Oleg não se ateve a um modelo clássico de como fazer poesia, não há uma atenção em rimas ou métricas. O foco é na emoção transmitida pelo texto, fortemente marcada pela tristeza, num estilo quase barroco.

Se compararmos ‘Memórias dum hiperbóreo’ com ‘Desenhos a lápis’, notamos uma grande diferença, sendo o último muito mais despretensioso, engraçado e crítico, e o primeiro muito mais melancólico.

“Livro e memória, duas coisas de valor que tenho./ Se não existissem, minha solidão letal seria.” p. 58

Sobre a edição

Edição comum: brochura, capa com orelhas, miolo em papel Pólen Bold — papel expresso, que ajuda a “encorpar” o livro —, boa diagramação. Conta com um glossário ao final, visando elucidar o leitor a respeito de elementos da mitologia grega que foram empregados na obra.

“Como mudaste, meu mundo amável;/ oh, como mudaste!/ As rotas aéreas substituíram o romantismo marítimo,/ estrangulando tua imensidade” p. 67

Conclusão

Diferente de alguns livros populares que existem hoje, que são chamados de poesia, ‘Memórias dum hiperbóreo’ remete aos tempos onde a prosa não era tão popular e histórias eram narradas em forma de versos. Todos os quinze poemas (cantos) deste livro formam uma narrativa, contada a partir do ponto de vista do protagonista, o hiperbóreo. Obra carregada de emoção, que fala sobre perda, mudança e adaptação. Inspirado nos mitos e na cultura da Grécia Antiga, Oleg Almeida colocou um pouco de sua história pessoal nessa composição, também marcada por mudanças e adaptações à novas realidades. Não espere poesias presas a rimas, mas sim uma leitura triste, emocionante e visceral. Um livro escrito num momento difícil, por isso fala sobre momentos de dificuldade. Poesia capaz de emocionar qualquer leitor.

“Eu não rezava, portanto,/ nem reclamava da injustiça divina —/ tinha certeza de serem inúteis/ quaisquer orações e lamúrias banalizados/ pela enormidade da dúplice perda./ Dúplice… já que morreu em mim a criança,/ meu velho,/ no dia em que tu foras embora.” p. 42

Minha nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins

Livro Memórias dum hiperbóreo, Oleg Almeida
O mar é um elemento importante nesta narrativa

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

9 pensamentos

    1. É algo que não vemos com tanta frequência hoje esse tipo de escrita. Essa inspiração na cultura grega deixa a leitura muito mais interessante, dando mais liberdade ao poeta, além de ser um prato cheio para quem é fã de mitologia. Recomendo!
      Obrigado pela visita.
      Grande abraço!

      Curtido por 1 pessoa

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