A evolução do conceito de deficiência

Placa pessoa com deficiência
Imagem publicada sob Licença (CC0 1.0). Disponível em: https://pixabay.com/photo-39397/.

O conceito de deficiência modificou-se ao longo do tempo, sendo este conceito relacionado às diferentes culturas e seus modos de compreender o homem. É possível classificar as concepções de deficiência em pré-científicas e científicas.

Concepções pré-científicas

Nas concepções pré-científicas, os valores culturais e éticos eram utilizados para explicar e tratar esses indivíduos. O comportamento de um deficiente já foi visto como uma consequência de forças sobrenaturais, aleijados eram sacrificados na Grécia Antiga, por conta de um padrão de beleza física. A ideia de sobrenatural foi fortalecida na Idade Média, onde os comportamentos de um deficiente eram explicados como uma possessão demoníaca, por exemplo, pois a Igreja exercia um grande poder nessa época. Ainda no fim desse período, surgiu o atendimento assistencial à essas pessoas, um leve avanço, já que antes não havia nenhum tipo de cuidado especial.

Concepções científicas

Com o fortalecimento das ciências, a partir do Renascimento, buscou-se por soluções científicas para a resolução de diversas questões do mundo. Os então “possessos” passaram a ser considerados “doentes”. A medicina se fortaleceu, com uma abordagem assistencialista, voltando-se à “doença” e não ao indivíduo.

Esses indivíduos recebiam um cuidado médico e assistencialista. Quando esse cuidado médico não surtia mais efeito, apenas o cuidado assistencial tinha continuidade. São atitudes que colocavam o deficiente em uma condição de incapaz, de coitado, uma pessoa inútil. Não é um tipo de trabalho que ajuda no desenvolvimento de potencialidades.

Visão das ciências sociais

A evolução das ciências sociais trouxe uma crítica à abordagem médica, que considerava a deficiência uma patologia. Começaram, então, a estudar o comportamento desses indivíduos e as influências sociais que agiam sobre eles. A então “doença” agora seria considerada uma “condição”.

Já temos um outro olhar a partir de então. Uma condição impõe algumas limitações, mas não uma total inutilidade. É esse novo conceito que influenciará na criação de políticas públicas, garantindo maior acessibilidade e equidade.

“Normalidade”

É preciso cuidado na hora de conceituar a deficiência, para não cair em um padrão de normalidade. Muitos testes foram elaborados para esse fim, criaram-se um padrão daquilo que é “normal”, porém nem todos são compatíveis com a realidade, não é possível mensurar tudo. Deficiências auditivas e visuais podem ser facilmente identificadas a partir de testes, porém questões emocionais, não. Seria mais fácil e adequado compreender a deficiência como um fenômeno que implica alguma dificuldade nas esferas comportamentais, sociais e educacionais.

Estereótipos e preconceitos

Existem estereótipos comportamentais para indivíduos com determinados tipos de deficiência, seja auditiva, motora, intelectual. Isso ocorre quando não se considera os fatores que levaram a pessoa a agir desse modo estereotipado. Os deficientes percebem, aprendem e se adaptam da mesma forma que os demais, apenas com alguma limitação a mais por conta de sua condição.

Podemos citar o exemplo das classes especiais que haviam nas escolas. Era uma atitude de segregação, baseado na ideia de que o isolamento seria melhor para aquelas crianças. Isso ocorria, também, pelo preconceito, pelo medo da diferença. Todavia, é necessário aprender a conviver com a diferença. Aprendemos com a observação; se fossemos exatamente iguais, agiríamos da mesma forma, seríamos réplicas uns dos outros. A manutenção de comportamentos estereotipados deve-se muito a esse isolamento.

Muitas das limitações no desenvolvimento de uma pessoa com alguma deficiência ocorrem por conta de como a sociedade (e a família dessa pessoa) lida com sua condição. É preciso desenvolver potencialidades, oferecer meios para a pessoa desenvolver-se, o que é o oposto de atitudes de piedade, superproteção e desvalorização. Os preconceitos, muitas vezes, são mais limitadores aos deficientes do que sua própria condição.

Alan Martins

Referência Bibliográfica

AMIRALIAN, M. L. T. M. Conceitos básicos. In: ______. Psicologia do excepcional. São Paulo: EPU, 1986. p. 1-9.


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

9 pensamentos

    1. Esse é um ótimo pensamento. Todos devem se mover para promover melhor acessibilidade a quem precisa, para facilitar a vida dessas pessoas e alcançar alguma equidade. Espero que vocês possam colocar várias ideias desse tipo em prática!
      Obrigado pela visita.
      Abraço.

      Curtido por 1 pessoa

    1. Era comum sacrificarem pessoas aleijadas na Grécia Antiga, tanto por padrão estético, como por questões militares, principalmente em Esparta, que contava com um forte exército. Ainda bem que muita coisa mudou para melhor, não?
      Obrigado pela visita.
      Abraço.

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  1. teu texto é exemplar e coloca bem a questão da deficiência. a grande questão é a a sociedade ou parcela dela ter consciência de que o deficiente precisa muito dessa compreensão. tenho testemunha verdadeiras agressões a deficientes que enojam o ser humano. vou dar um pequeno exemplo do desrespeito a uma pessoa com deficiência locomotora: estávamos em Gramado e na calçada havia uma pequena rampa para cadeira de rodas, para quem usa muletas, etc. pois ali, bem onde está a rampa estacionou um automóvel no mesmo instante em que uma deficiente física ia atravessar a rampa. falei com o motorista, mostrando a ele o absurdo de ele pôr o veículo naquele local. a resposta foi uma pérola: vou até o restaurante abrir a porta e volto logo, a pessoa que espere ou procure outra rampa. denunciei o motorista, por óbvio não aconteceu absolutamente nada com ele, que ainda se divertiu às custas do caso. pequeno exemplo de como se comporta a sociedade. não gosto de generalizar, mas isso é prática comum. belo e consciente texto, Alan. um grande abraço.

    Curtido por 3 pessoas

    1. É bem triste que situações desse tipo ainda sejam comuns, e são mesmo. À maioria das pessoas falta empatia. Muita gente não consegue se colocar no lugar de outra pessoa. Por isso comportamentos como o que você apresentou ocorrem, a pessoa não consegue perceber como uma rampa é importante para cadeirantes ou quem usa muletas, sendo que essa é uma facilidade para elas, não para pessoas em plenas condições motoras. Falta respeito e educação sobre esse assunto. Punições que deveriam acontecer em casos do tipo não ocorrem, a justiça é falha e é motivo de piada. Temos muito o que melhorar, a história mostra isso, assim como nossa realidade.
      Espero que o texto sirva como conscientização.
      Obrigado pelo seu relato, muito importante essa discussão.
      Grande abraço, caro Fernando.

      Curtido por 1 pessoa

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