Clínica ampliada e psicanálise

Saúde mental
Elaborado sobre imagem de GDJ, publicada sob Licença (CC0 1.0). Disponível em: https://pixabay.com/photo-3285625/.

Uma das tendências da psicologia é a de se expandir e romper com seu modelo tradicional clínico/privado (atendimentos em uma clínica particular, dentro de um setting, com diversas regras), o que contribui para a criação da clínica ampliada, que diz respeito aos novos locais de atuação institucionais/sociais do psicólogo e outros profissionais da saúde. Esse modelo permite uma relação entre clínica e política, intervenções psicossociais, atenção básica, saúde mental, etc.

A práxis da clínica ampliada, baseada no referencial psicanalítico, tem lugar e eficácia singulares, permitindo uma escuta ao inconsciente, diferente de outros discursos que visam, por exemplo, a medicação. Por meio desse viés, os pacientes podem recobrir o real de seu mal-estar, contribuindo para a desalienação de seu “rótulo de doente”. Rótulo este que é mantido e reforçado por meio da medicação apressada, além de sua manutenção contribuir para o domínio médico sobre o saber, fazendo com que o sujeito perca sua autonomia, visando uma normatização dos afetos e das variadas condições de sofrimento.

Manuais como o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico Transtornos Mentais) e o CID-10 (Código Internacional de Doenças), foram criados para auxiliar a comunicação entre os profissionais da saúde, porém suas denominações geram rotulações. Ao contrário desse pensamento, no diagnóstico em psicanálise remete existe uma lógica subjetiva característica de cada sujeito, distintos modos de subjetivação — não são fatores que podem ser catalogados em manuais, pois cada pessoa vive seu sofrimento psíquico à sua maneira. A psicanálise não fica apenas nas aparências, vai em busca do que sustenta os sintomas manifestos.

O trabalho da clínica ampliada não pressupõe um setting, o atendimento regular, mas sim procura construir maneiras onde o paciente possa implicar-se aos tratamentos propostos. A clínica ampliada é uma das diretrizes que a Política Nacional de Humanização propõe para qualificar o modo de se fazer saúde. Sua ampliação permite uma maior autonomia do usuário do serviço de saúde, da família e da comunidade, pois integra a equipe de profissionais da saúde de várias áreas do saber, visando não só o atendimento, mas também a criação de vínculo.

Todo sujeito está vulnerável a alienação através do discurso, devido ao processo de identificação somado ao fato de que o Outro se constitui como desejo e realidade. A constituição do Eu só é possível passando e sendo atravessado pelo Outro.

O registro de perda primordial possibilita a existência da subjetividade, no momento em que se concretiza como representação simbólica das exigências pulsionais que colocam em evidência a incompletude do sujeito do inconsciente. A alienação subjetiva, como fenômeno psicológico constituído numa relação médico-paciente, em situações em que a prescrição de medicamentos e o diagnóstico, concretizam as diversas patologias contemporâneas como a causa do sofrer, temos apaziguamentos e normatizações subjetivas no sentido simbólico e pulsional. Ao receber um diagnóstico de doente, a pessoa passa a se sentir como um, mesmo que antes se sentisse diferente. E, às vezes, seu comportamento apenas expressava uma resposta a um momento difícil pelo qual ela estava passando, porém expressavam também os sintomas de uma patologia presente nesses manuais.

Banalizar a prescrição de psicofármacos é um erro, já que retira do ser humano a habilidade e a possibilidade de sofrer, de vivenciar a compreender a sua dor. A expressão da subjetividade garante ao sujeito uma possível saída do “mal-estar”, que é gerado pela enorme tentativa de normatização dos modos de subjetivação. É necessário a priorização do movimento do sujeito. A química impõe um “silêncio pulsional”, o que já prejudicaria um bom atendimento psicanalítico. Dessa forma, a criatividade inerente aos processos de subjetivação, como simbolização das condições de mal-estar, mostra-se imprescindível para a obtenção de uma mente saudável.

Alan Martins

Referências Bibliográficas

SAÚDE, Ministério da. Dicas em saúde: clínica ampliada. Disponível em: . Acesso em: 16 abr. 2018.

TAVARES, L. A. T. Clínica ampliada, impasses e complexidades cotidianas: desafios por uma ética da subjetivação. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE PSICOLOGIA DA UEM, 6., 2015. Anais… . Maringá: UEM, 2015.


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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