Minhas Leituras #62: Desenhos a lápis – Oleg Almeida

Capa do livro Desenhos a lápis, Oleg Almeida

“Poesia em forma de diário e vice-versa”

Título: Desenhos a lápis
Autor: Oleg Almeida
Editora: Scortecci Editora
Ano: 2018
Páginas: 72
Encontre este livro na Amazon: https://amzn.to/2rWcigG

“Não é que tivesse vencido/ meus medos e preconceitos,/ mas entendi que do mal não se esconde debaixo da cama/ e contentei-me com isso.” (ALMEIDA, Oleg. Desenhos a lápis. Scortecci Editora, 2018, p. 16)

Se São Paulo, a maior cidade do Brasil, é capaz de surpreender qualquer brasileiro que a visite, imagine quais impressões esse colosso pode causar em alguém de outro país! Oleg Almeida, nascido na Bielorrússia, converteu todas as surpresas que encontrou na capital paulista em poesia.

Poeta de dois mundos

Oleg Almeida nasceu e cresceu na Bielorrússia. Formado em Letras pela Escola Central das Línguas Estrangeiras, em Moscou, trabalhou por um período na iniciativa privada. Chegou ao Brasil em 2005, obtendo a cidadania brasileira em 2011.

Cultivou uma enorme paixão pela literatura desde cedo, encantando-se principalmente com os clássicos. Isso é observável em sua poesia. Além de poeta, Oleg é tradutor. Em parceria com a editora Martin Claret, já traduziu diversas obras de autores como Dostoiévski, Tolstói e Púchkin, diretamente dos originais em russo — traduções muito prestigiadas (clique AQUI e veja minha resenha do livro ‘Crime e castigo’, que foi traduzido por ele). Amante da literatura francesa, já verteu para o português grandes nomes, como Charles Baudelaire.

Sua carreira como poeta lusófono é composta por diversos prêmios literários e quatro títulos publicados. São eles: ‘Memórias dum hiperbóreo’ (7 Letras, 2008), ‘Quarta-feira de Cinzas e outros poemas’ (7 Letras, 2011), ‘Antologia cosmopolita’ (7 Letras, 2013) e, o mais recente, ‘Desenhos a lápis’ (Scortecci, 2018). Para conhecer mais sobre o autor, clique AQUI para ler a entrevista que ele me concedeu.

“O verme olha para o sol, deslumbrado,/ embora não saiba o que é aquilo.” p. 34

Um diário em versos

Poderíamos dizer que o livro é uma espécie de diário que Oleg Almeida escreveu enquanto passou alguns dias em São Paulo, registrando em forma de versos cada elemento dessa metrópole que chamou sua atenção.

Um paulistano, por estar acostumado com o que vê todos os dias no percurso que faz de sua casa ao trabalho, talvez não consiga notar os detalhes que o autor deste livro conseguiu. A condição de “gringo” concedeu-lhe certa neutralidade, aquela mesma que os cientistas devem ter em suas pesquisas. E essa condição é um prato cheio para a criatividade de um poeta.

Ao longo de sessenta e cinco poemas breves (poemetos), o mais brasileiro dos bielorrussos apresentará a diversidade da Pauliceia (não confundir com o pequeno município do interior do Estado de São Paulo), esta que é uma cidade que possui diversas outras dentro de si, um oceano cultural, gigante de concreto.

“A beleza não diminui a selvageria,/ só a mascara:/ basicamente somos assim,/ pósteros de Caim.” p. 45

Estilo livre

Para escrever os pequenos poemas que compõem esta coletânea, o autor resolveu utilizar a liberdade. Não uma liberdade excessiva, estética, mas sim tomando a liberdade de expressar sua opinião sobre o que foi observado. O leitor pode esperar por críticas sociais, ironia e bom humor.

Ao caminhar pelas ruas, principalmente em uma grande cidade, encontramos muita hipocrisia. Oleg não tem medo de expor essa hipocrisia e não mede as palavras, o que rende boas risadas devido ao humor ácido. Todavia, ainda há espaço para o amor e o encantamento com as novidades encontradas ao visitar um novo local.

São poemas rápidos, modernos e sem títulos (são apenas enumerados). A preocupação do autor é a mensagem transmitida com sua arte, não rimas ou métrica. Pessoalmente, é o tipo de poema que eu gosto. Sim, também gosto muito de rimas, porém uma mensagem por trás dos versos é algo quase imprescindível.

Um livro que fala sobre a principal cidade brasileira através do olhar de alguém que veio de outro país. Leitura rápida e prazerosa. Há coisas das quais apenas tomamos consciência quando alguém de fora nos aponta, Oleg nos faz abrir os olhos para esses detalhes que deixamos passar.

“[…] os servidores passam sem vê-lo;/ quando o empurram casualmente,/ pedem desculpas e veem, com grande pasmo,/ que o mendigo tem olhos verdes.” p. 10

Sobre a edição

Edição comum, brochura, capa com orelhas, miolo em papel Book Slim Millenium (de coloração off-white, semelhante ao Pólen Soft), boa diagramação em um bonito projeto gráfico, muito agradável à leitura.

Minha edição tem um quê de especial. Recebi-a do próprio autor, que a enviou junto a um outro livro de sua autoria — que em breve apresentarei por aqui —, com dedicatória e tudo.

“Há quem a xingue de puta/ e quem lamente a sua vida desperdiçada,/ porém vários pais de família dormem com ela/ e tudo corre às mil maravilhas.” p. 23

Conclusão

Poemas breves, críticos, sarcásticos, bem-humorados, romanescos. Foram escritos com muita liberdade, falando de formas diferentes sobre um tema principal, que é a cidade de São Paulo, que abrange em si inúmeros outros temas. Uma ideia muito interessante a de compor um diário em forma de poesia, pois este é o registro das impressões que marcaram Oleg Almeida ao visitar a selva de concreto. Espere uma leitura tranquila e divertida, conheça um pedaço do Brasil pela ótica de um estrangeiro, abra os olhos para pequenos detalhes. Escrita moderna e descomplicada, inteligente e composta por palavras muito acertadas. Livro que pode ser lido em pouco tempo e, chegando ao final, você sentirá vontade de começar outra vez.

“[…] ‘meu lado ruim e meu lado bom, tu que me chamas/ de inferno na terra, retém tua língua, pois é preciso/ morreres para saber se há vidas melhores!'” p. 39

Minha nota (de 0 a 4): 4,5

Alan Martins

Livro Desenhos a lápis, Oleg Almeida
Este é meu primeiro livro autografado pelo próprio autor.

Parceiro
Livros mais vendidos Amazon
Clique e encontre diversos livros em promoção!

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

Anúncios

Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

8 pensamentos

  1. São Paulo nunca me surpreendeu, desde a minha chegada cá é que ela me espanta, todos os dias. E sempre que passo por certos lugares enxergo Baudelaire, Eliot, Borges e Mário de Andrade. Vamos a largos passos a tropeçar em sombras que são restos dos restos de alguém.
    Agora preciso ler Oleg e ver o que foi que ele colheu.
    Grazie

    Curtido por 1 pessoa

    1. Acredito que você vai gostar do livro então. Oleg conseguiu colher não apenas coisas boas, mas muita coisa ruim que ocorre também foi observada. É uma visão bem realista, sem romantização. Dê uma chance!
      Obrigado pela visita.
      Abraço.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s