Minhas Leituras #61: Psicose – Robert Bloch

Capa do livro Psicose DarkSide Books

“A matéria-prima do clássico de Alfred Hitchcock”

Título: Psicose
Autor: Robert Bloch
Editora: DarkSide Books
Ano: 2013
Páginas: 256
Tradução: Anabela Paiva
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“Engraçado, pensava Sam, como acreditamos saber tudo sobre uma pessoa só porque a vemos frequentemente ou porque temos uma forte ligação emocional com ela.” (BLOCH, Robert. Psicose. DarkSide Books, 2013, p. 114)

Quem nunca viu aquela clássica cena, em preto e branco, de uma moça tomando banho, quando é surpreendida por alguém portando uma faca, pronto para assassiná-la? Foi do livro de Robert Bloch que Alfred Hitchcock retirou todos os elementos para seu clássico filme ‘Psicose’.

Fã de Lovecraft

H. P. Lovecraft foi uma enorme influência para Robert Bloch. Leitor ávido de seus contos, Bloch passou a escrever cartas para Lovecraft e ambos mantiveram contato por alguns anos. Foi uma relação de mestre e pupilo, pois o pai dos mitos de Cthulhu dava dicas valiosas e informações sobre como ingressar na carreira literária, além de indicar outros autores para contato.

Algumas décadas adiante, Bloch serviu como inspiração para outro autor, que se tornaria o grande nome da literatura de terror, Stephen King. O personagem Patrick Bateman, protagonista de ‘O psicopata americano’, escrito por Bret Easton Ellis, foi inspirado no protagonista de ‘Psicose’, Norman Bateman (reparem nos sobrenomes). Vários autores também citam a importância do autor de ‘Psicose’ para a literatura estadunidense. Graças à sua obra-prima, o cinema de terror e suspense transformou-se, com a ajuda de Alfred Hitchcock, que criou uma brilhante adaptação cinematográfica, filme cultuado até os dias de hoje, base para séries televisivas como ‘Bates motel’.

Com o grande sucesso de ‘Psicose’, Bloch passou a investir em seu personagem Norman Bates, escrevendo duas continuações. Porém a primeira parte dessa trilogia foi a que marcou, tornando-se um clássico e cravando o nome de seu autor na história da literatura.

“E quem é você para dizer que alguém deve ser internado? Eu acho que todos nós somos um pouco loucos de vez em quando.” p. 50

Direto ao ponto

Esse é um livro sem muita enrolação. Não há muito desenvolvimento de personagem, a não ser Norman, o grande nome do enredo. Podemos dizer que ‘Psicose’ é um thriller com elementos de terror, não um terror com monstros fantásticos, mas um perigo mais real: o ser humano.

Bloch não demora para chocar o leitor com uma morte bem violenta e sangrenta. A partir desse momento surge um mistério que será revelado lá pelos últimos capítulos. Todavia, esse mistério não é tão complicado de ser resolvido por alguém um pouco atento, basta levar em conta o título do livro, que é uma espécie de spoiler.

Uma leitura rápida e fluída, muito gostosa. O livro é dividido em diversos capítulos e não é longo, sendo possível finalizá-lo em um único dia. As bizarrices instigam a leitura, nos deixam querendo saber mais. Os personagens são comuns e agem por ímpeto. Nenhum deles, a não ser Norman, é marcante, mas passamos a nos importar com alguns, sentimos vontade de ajudá-los. Seria injusto dizer que existe um vilão. Como o título indica, trata-se de uma patologia, o que retira a culpa desse “vilão”, e o que deixa a história ainda mais interessante (como estudante de psicologia, sou suspeito a falar sobre esses assuntos).

“As mães são às vezes dominadoras, mas nem todas as crianças se deixam dominar.” p. 19

Inspiração psicanalítica

Para criar seu personagem mais conhecido, Bloch utilizou casos reais como fonte de pesquisa. Por exemplo o assassino Ed Gein, que colecionava partes de suas vítimas (ele é citado em ‘Mindhunter’, livro que já resenhei AQUI).

O conceito de psicose utilizado pelo autor foi baseado na psicanálise, bem aos moldes de Freud (veja o post onde abordo a visão freudiana sobre a neurose e psicose). Segundo o pai da psicanálise, todos possuímos um aparelho psíquico, formado pelo id, ego e superego. É um conceito metafísico, não se trata de algo palpável. Nossa personalidade seria constituída a partir do bom desenvolvimento desse aparelho psíquico, desde a infância até nos tornarmos adultos, passando por algumas fases que devem ser bem vivenciadas (de maneira positiva de preferência).

Grandes traumas, que interrompam o bom desenvolvimento dessas fases, podem comprometer a personalidade de uma pessoa, podendo culminar em neuroses ou até mesmo em uma psicose. É o que ocorre nesse livro, onde temos uma mãe puritana, controladora, que trata seu filho como criança, traumatizando-o posteriormente de outras maneiras, onde entra o conceito de complexo de édipo. Bem resumidamente, e dizendo o que tem a ver com aquilo que encontramos em ‘Psicose’, Freud dizia que, em certa fase da infância, o menino sente atração sexual por sua mãe e vê o pai (ou a figura masculina predominante) como um antagonista em seu caminho. Vale o mesmo para as meninas em relação ao pai. Preste atenção nisso quando ler o livro.

Encontramos três personalidades diferentes nesse protagonista, cada uma representando uma instância do aparelho psíquico freudiano. Uma controladora, outra impulsiva e outra mediadora, mais “pé no chão”. Para quem gosta de psicanálise, esse livro será muito divertido de ser explorado.

“A vida também é uma força, uma força vital. E, como a eletricidade, pode ser ligada e desligada, ligada e desligada. Eu a desliguei, mas sabia como tornar a ligar. Está compreendendo?” p. 201

Sobre a edição

DarkSide Books é sinônimo de livro bonito e bem produzido. Edição em capa dura, seguindo o design da primeira edição, publicada nos EUA em 1959. Por dentro, encontramos um lindo projeto gráfico, o que faz da leitura uma verdadeira experiência. As páginas são em papel off-white de ótima gramatura, com uma boa diagramação e margens bem espaçadas. Ao final, há uma espécie de álbum, contendo imagens retiradas do filme de Hitchcock.

Dizem que Bloch escrevia mal, um autor de pouca técnica. Se isso for verdade, Anabela Paiva melhorou muito a escrita do autor em sua tradução, que ficou muito boa, com um bom trabalho de revisão. Nessa edição, o texto não parece ter sido escrito por um autor de pouca técnica.

“Tem horas que precisamos parar de analisar e confiar nas nossas emoções.” p. 210

Conclusão

Uma bela edição desse grande clássico. A editora DarkSide Books caprichou demais no design, trazendo um produto de extrema qualidade, tanto por fora, quanto por dentro, numa ótima tradução de Anabela Paiva. Dizem que Robert Bloch era um autor de pouca técnica; se esse for o caso, a tradutora ajudou a melhorar sua escrita. Enredo instigante, prendendo o leitor até o final, apresentando bizarrices, mistérios e um dos personagens mais marcantes da história da literatura e do cinema, o estranho Norman Bates. Livro fácil e rápido de ler, apresentando elementos da psicanálise em sua base, por isso quem estuda essa área poderá desfrutar ainda mais do enredo. Acredito que o mistério não compõe uma parte principal dessa obra, até porque é algo de fácil solução. O que fez desse livro um clássico foi Norman, um cara que vai te surpreender e assustar.

“Nós não somos tão lúcidos quanto fingimos ser.” p. 231

Minha nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins

Livro Psicose DarkSide Books
Uma linda edição, grande homenagem ao filme de Hitchcock.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

15 pensamentos

  1. o curioso, para mim, Alan, é esse é dos raros livros em que o cinema o superou. o que não o diminui em nada, ao contrário. é um belo livro, que deve voltar para ser relido. (está muito perigoso ler suas ótimas resenhas, o verbo reler está sendo conjugado muito por mim). um grande abraço, Alan.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Esse é um desse casos raros, igual ‘Clube da luta’, onde o filme também supera o livro.
      Fico muito grato em saber que as minhas resenhas aguçam a vontade de voltar a ler livros que já foram lidos, acho que isso é mais difícil do que convencer alguém que ainda não tenha lido. É um bom sinal, então!
      Obrigado pelas palavras.
      Grande abraço.

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  2. Um dos meus livros favoritos na juventude. Eu o li depois de descobrir King e saber um pouco sobre o autor. Para mim felicidade, li o livro antes de assistir ao filme. Acho que sou uma das poucas pessoas que acha que livro e filme contam uma mesma história, mas com personagens bem diferentes. rs Eu prefiro o Norman do livro. Acho bem mais mentalmente perturbado.

    bacio e bom fim de semana

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    1. Bom dia. Muito obrigado, fico muito feliz com suas palavras!
      Quis chamar a atenção para como o personagem de Bloch foi bastante influente, na literatura, cinema e cultura pop. O livro de Bret Easton Ellis se chama ‘American psycho’, em inglês, o que já é uma grande referência. Depois temos o sobrenome do protagonista. Eles são personagens parecidos, mas diferentes, em enredos distintos, mas há essa ligação. São detalhes interessantes de serem notados.
      Você conhece o livro ‘O psicopata americano’ ou o filme que a obra inspirou? Eu gostei, achei muito bom. Recomendo também.
      Abraço.

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