Minhas Leituras #59: Primeiras estórias – Guimarães Rosa

Capa do livro Primeiras estórias, de Guimarães Rosa

“A aventura de João Guimarães Rosa pelo mundo da prosa curta”

Título: Primeiras estórias
Autor: João Guimarães Rosa
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2016
Páginas: 200
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“Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.” (ROSA, João Guimarães. O espelho. In: Primeiras estórias. Nova Fronteira, 2016, p. 101)

Um dos últimos livros de Guimarães Rosa publicado em vida, ‘Primeiras estórias’ é uma coleção de breves contos, de gêneros sortidos, que mostram muito bem como o autor gostava de brincar com as palavras, de experimentar.

Linguista

Antes de tudo, vale ressaltar que João Guimarães Rosa foi um linguista, dominando sete idiomas e conhecendo e estudando a gramática de outros tantos. Estudar idiomas era uma espécie de passatempo para o autor.

Nasceu na pequena cidade de Cordisburgo, situada na região central de Minas Gerais. Cidades miúdas assim, ou Itaúna, onde trabalhou, foram influências para os cenários sertanejos que recriou em suas obras, como em ‘Grande sertão: veredas’. Mudou-se para Belo Horizonte, ainda pequeno. Graduou-se em medicina, exercendo a profissão até mesmo como médico voluntário da Força Pública.

Seu vasto conhecimento em línguas ajudou-o em sua posterior carreira diplomática, além, claro, de influenciar sua escrita, marcada pela transcrição da linguagem falada do sertão mineiro e de um forte experimentalismo. Ele gostava de “inventar” palavras, utilizar expressões características de certas regiões e, às vezes, de colocar acentos no lugar incorreto das palavras.

Foi um autor muito importante para a literatura brasileira, traduzido em diversos países. Muitos pesquisadores, hoje, dedicam-se ao estudo de suas obras. Venceu prêmios e ocupou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

“A vida de um ser humano, entre outros seres humanos é impossível. O que vemos, é apenas milagre; salvo melhor raciocínio.” In: Fatalidade, p. 91

Título curioso

Ao ler o título, temos a ideia de que os contos contidos no livro são os primeiros escritos do autor. Engana-se quem pensar assim. Trata-se da primeira aventura de Guimarães Rosa pela prosa curta, histórias que, às vezes, são um pouco menores que um conto, breves.

São vinte e um contos espalhados em cento e cinquenta e três páginas, numa média de sete páginas por conto. Dessa forma é bem fácil notar como são breves essas estórias.

Como cenário, todas contam com algum elemento do sertão, senão o próprio sertão em si. Porém o autor não se prendeu a um estilo único, nem a um gênero. Temos histórias com doses de comédia, outras mais sérias, algumas psicológicas, autobiográficas e até mesmo certos contos fantásticos. Ao experimentar esse novo estilo de prosa, Guimarães Rosa também experimentou diversos gêneros literários, formas variadas de falar sobre o cotidiano da vida no sertão.

“Todos preferiam ficar perto do defunto, todos temiam mais ou menos os três vivos.” In: Os irmãos Dagobé p. 61

Muito experimental

Não é nenhuma novidade dizer que Guimarães Rosa escrevia a linguagem falada pelos moradores do sertão, carregada de expressões locais, palavras ditas de maneira “errada”, ficando, em certos momentos, um pouco mais exagerado do que certos comediantes fazem quando tentam imitar o mineirês. Todavia, nesse livro ele foi um pouco além com seus experimentos, o que não agrada muito a leitura, pois o foco da narrativa confunde-se, fica enrolado, podendo dificultar a compreensão daquilo que a estória diz. Esteja preparado para conhecer muitos termos, palavras novas!

Isso não afeta todas as estórias, mas afeta boa parte delas. Não sou muito fã desse tipo de escrita. Não falo sobre apenas diálogos; toda narrativa é escrita dessa forma, os narradores também utilizam a linguagem falada. De certo modo, é um livro ótimo para quem estuda a língua portuguesa do Brasil, um prato cheio; porém, para leitores que leem por prazer, por gostar de livros, ‘Primeiras estórias’ não é uma das leituras mais agradáveis.

Temos estórias que são passáveis, assim como outras muito boas. Posso citar algumas: ‘O espelho’, com alto teor psicológico; ‘Famigerado’, pelo seu humor; ‘A menina de lá’, carregado de magia e tristeza; e ‘Luas-de-mel’, que lembras histórias do cangaço, o faroeste brasileiro. Não espere nenhuma obra-prima. Vou deixar a lista de estórias no final do post.

“Então, o fato se dissolve. As lembranças são outras distâncias. Eram coisas que paravam já à beira de um grande sono. A gente cresce sempre, sem saber para onde. In: Nenhum, nenhuma, p. 88

Sobre a edição

A editora Nova Fronteira vem reeditando toda a obra de Guimarães Rosa, em uma nova coleção produzida com muito esmero. Edição em capa dura, com um belo projeto gráfico, páginas em papel off-white de boa gramatura e bom espaçamento de margens. A fonte poderia ser de tamanho um pouco maior, para facilitar a leitura, até porque estamos falando de um livro de duzentas páginas (o tamanho da fonte é igual ao que encontramos em livros com mais de oitocentas páginas). Poderiam ter caprichado mais nessa parte.

Há alguns extras: o poema ‘Um chamado João’, que Carlos Drummond de Andrade compôs ao saber da morte de Guimarães Rosa e uma introdução de Paulo Rónai. No geral, é uma bela edição, para colecionador ficar com vontade de comprar.

“Ninguém é doido. Ou, então, todos.” In: A terceira margem do rio, p. 71

Conclusão

Livro que mostra João Guimarães Rosa explorando novas formas de prosa, no caso, a estória (um conto bem curto). Escrita característica do autor, que transcrevia a linguagem falada, aquela popular do sertanejo, informal, carregada de expressões locais. Para completar, a escrita dessas estórias é muito experimental, pois estamos falando sobre um autor que dominava muitos idiomas e que gostava de brincar com as palavras, e até de criar algumas. Não gosto muito de livros escritos dessa forma, que descaracterizam muito as palavras (com acentos em lugares incorretos, em algumas ocasiões), isso deixa a leitura arrastada, pouco agradável. É um estilo capaz de agradar com maior eficácia aquelas pessoas que estudam línguas e semântica. Já para quem lê por prazer, essa é uma nova aventura, porém uma que não pode ser tão divertida assim, pois, apesar de haver algumas estórias bacanas, boa parte delas não impressiona.

“Antes falar bobagens, que calar besteiras…” In: Partida do audaz navegante, p. 141

Minha nota (de 0 a 5): 3,5

Alan Martins

Livro Primeiras estórias, Guimarães Rosa, capa dura
Edição muito bonita e padronizada, nessa nova coleção
Clique para ver a lista de estórias

•As margens da alegria
•Famigerado
•Sorôco, sua mãe, sua filha
•A menina de lá
•Os irmãos Dagobé
•A terceira margem do rio
•Pirlimpsiquice
•Nenhum, nenhuma
•Fatalidade
•Sequência
•O espelho
•Nada e a nossa condição
•O cavalo que bebia cerveja
•Um moço muito branco
•Luas-de-mel
•Partida do audaz navegante
•A benfazeja
•Darandina
•Substância
•— Tarantão, meu patrão
•Os cimos


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

17 pensamentos

  1. Mais um belíssimo post, Alan.
    Tenho pena de não ter lido mais de nossa belíssima literatura…
    Acho que está na hora de voltar a frequentar as bibliotecas e ver se consigo encontrar alguma coisa aqui, de fácil acesso…
    Mandar vir livros do Brasil é IMPOSSÍVEL… Sai muito caro… 😦
    Também vou ver se acho alguma biografia sobre Guimarães Rosa…
    Obrigado!

    Curtido por 1 pessoa

      1. Hum… Sim, eu diria que é bastante fácil encontrar autores Brasileiros aqui, mas sem duvida que apenas os clássicos e autores mais conhecidos. O resto fica impossível. Vi quanto custava para trazer um livro que estava interessado e que não há cá (As Águas Vivas Não Sabem de Si), E custava tipo quase 70€ 😲 Mas encontra-se. Agora, não tenho acesso aqui a muita coisa que você mostra, infelizmente 😑

        Curtido por 1 pessoa

      2. Mas era caro assim porque vem do Brasil de uma livraria famosa que quer lá saber… Lembro que procurei uma graphic novel do Astronauta, uns anos atrás, e estava o mesmo preço, 70€. Depois encontrei aqui por 14€…
        E sim. Publica-se muita coisa traduzida. Mas como sai mais caro que os livros originais, eu acabo comprando em Inglês quando o original é nessa língua. Aqui os ebooks também são mais baratos que os físicos, com uma diferença maior que no Brasil.

        Curtido por 1 pessoa

      3. Eu tenho lido bastante em digital. Comprei um Kobo uns 3 anos atrás e no ano passado comecei a usar a sério. É uma mão na roda para ler “em trânsito” e como eu fico entre 40 minutos e uma hora entre comboio/autocarro, é bastante confortável para ler 🙂
        Mas ainda compro mais livros físicos.

        Curtido por 1 pessoa

  2. Olá Alan, eu ADORO suas resenhas, dá vontade de sair correndo para comprar o livro. Quantas horas vc lê por dia? Como é sua rotina de leitura? Desculpe-me por perguntar, mas estou numa fase que não consigo ler muito… Minha meta é um livro por mês e já estamos (praticamente) em abril e eu só li UM livro… Bjos meu amigo.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Fico muito feliz em saber que gosta das resenhas!
      Olha, eu procuro ler quando tenho algum tempo vago durante o dia, o que é difícil por conta de trabalhar, estudar e do meu estágio. Mas sempre sobra algum tempinho, às vezes se eu acordar um pouco mais cedo, na hora do almoço e um pouco antes de dormir. Dá para tentar ler um capítulo nesses horários, ou algumas páginas. Aos domingos tenho mais tempo, aí consigo ler por mais tempo e adiantar a leitura. O principal, acredito, é buscar ler no tempo que você tem, aos poucos, não precisa ler muito de uma vez, a não ser que haja tempo para isso.
      Não tem muito segredo, é preciso foco, para não se distrair com outras coisas. Aos poucos um livro é finalizado, antes de nos darmos conta disso!
      Espero ter ajudado. 😀
      Beijos.

      Curtido por 3 pessoas

    1. Obrigado! É bom saber que gostou da resenha. 🙂
      Temos que admitir que Guimarães Rosa era um autor muito inteligente e que gostava das palavras, de trabalhar com elas. Acho que a sensação é mais de ter o mesmo conhecimento sobre as origens das palavras. Ele era igual ao Tolkien, buscava os significados arcaicos de uma palavra, assim podia criar uma outra, ou aplicá-la de uma forma inusitada.
      Não sei se eu gostaria de escrever de maneira “difícil”, até porque não é o meu estilo favorito de leitura. Mas, como você disse, é ótimo para desbloquear-se, um novo desafio, sair da mesmice. Além de ser ótimo para treinar o foco na leitura.
      Para quem gosta de escrever, é um autor que vale a pena conhecer!
      Obrigado pela visita.
      Grande abraço.

      Curtido por 1 pessoa

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