O manejo de uma terapia analítico-comportamental

Sessão de psicoterapia
Imagem disponível em: http://hospitaligesp.com.br/psicologia/.

Colombini e Perguer, em um artigo, descrevem doze sessões de terapia analítico-comportamental com uma cliente, em uma clínica-escola. Descrevem a cliente como uma mulher de 54 anos, camareira, solteira, branca, católica e com nível de escolaridade Ensino Médio. Uma análise baseada em teóricos da área foi feita a partir da descrição de cada sessão.

Para começar

Na primeira sessão, a cliente fez relatos de sua vida de maneira genérica, utilizando muito a conjunção “mas”. Os autores sugerem que na primeira sessão o terapeuta forneça uma compreensão sobre o problema apresentado e que o terapeuta fale menos que o cliente. Indicam, também, que quaisquer relatos sejam reforçados com atenção social, o que estimula positivamente o comportamento de ir à terapia. Além disso, o terapeuta deve se portar como uma audiência não-punitiva, ouvir o cliente sem criticá-lo ou julgá-lo, afim de estabelecer confiança.

O emprego de perguntas abertas está relacionado a melhores resultados na terapia, comparando-se com a utilização de perguntas fechadas. Porém, no caso apresentado pelos autores, o uso de perguntas fechadas mostrou-se mais efetivo. É apontado que o terapeuta não deve completar as respostas da cliente, pois isso pode induzi-la ao uso de palavras que não sejam as que utilizaria de fato.

Primeiras “suspeitas”

A cliente fez um comentário sobre o sexo do terapeuta, na segunda sessão. Isso poderia indicar alguma inibição pelo fato de ele ser homem. Presumem-se que os homens poderiam ser estímulos pré-aversivos para ela, dependendo de sua história de relacionamentos com pessoas do sexo masculino. Exaltam o fato de a cliente voltar à segunda sessão, o que indica um engajamento à terapia de longo prazo. Certas perguntas feitas pelo terapeuta poderiam estar funcionando como um bloqueio de esquiva, que é um tipo de controle aversivo, que pode gerar comportamentos de contracontrole. Em situações de resistência, deveria ser permitido que a cliente controlasse o direcionamento dos assuntos conversados.

Relatou-se que o filho da cliente insistia para que ela encontrasse alguém. Entretanto ela dizia não querer namorar. O comentário sobre seu filho dizer para que tenha um relacionamento, seguido pela sua negativa a um namoro, pode indicar um tacto com função de mando. O objetivo desse relato pode ser a vontade de não falar sobre esse assunto.

Coletando e relacionando dados

Em determinada sessão, a cliente relatou seu histórico familiar, sobre seu pai ser rígido, sobre sua gravidez indesejada, onde o pai da criança fugiu, e de sua fuga do interior para a capital paulista por conta da não aceitação da gravidez por sua família. Esse histórico de experiências ruins com homens pode fazer com que a pessoa imagine que todos os relacionamentos sejam potencialmente dolorosos e fracassados, levando a pessoa a evitação de novos relacionamentos.

Os assuntos abordados pela cliente indicam um comportamento de esquiva sobre outros assuntos, como, possivelmente, sentimentos ruins em relação ao filho, tais como culpa e rejeição. Revelou que sua tia se suicidou. Esse relato levou o terapeuta a se atentar a eventuais ideações suicidas, pois a literatura indica que a probabilidade de suicídio é maior entre amigos e familiares de pessoas que cometeram suicídio. Um relato de que a cliente se sentia sem ânimo e sem esperança preocupou o terapeuta, novamente. Isso o fez procurar alternativas para soluções de problemas da cliente, que poderiam gerar sentimentos de esperança.

Indivíduos com histórico de incontrolabilidade podem apresentar certas características, como: queda da motivação para a emissão de respostas, interferência na aprendizagem de novas relações operantes e alterações fisiológicas. A cliente apresentava um tipo de autorregra. Ela teria aprendido que coisas ruins sempre acabam acontecendo.

Considerou-se a religiosidade da cliente em relação ao seu relacionamento com sua mãe. Os autores presumiram que, apesar das adversidades, ela deve seguir a regra de “Honrar pai e mãe”, presente no ‘Quarto Mandamento da Bíblia’. Desobedecendo essa regra, ela se sentiria culpada, passível de punições por comportamentos pecaminosos. Outros relatos em relação a sua família indicam que a cliente sentia-se injustiçada, que sua mãe amaria seus irmãos mais do que a ela. Essa cliente não obtinha o reconhecimento da mãe. A falta de afeto pode gerar sentimentos de baixa autoestima. Esse sentimento de não ser querida pode ter sido aprendido em sua história de vida.

Finalizando

No fim do artigo, os autores concluíram que obtiveram resultados positivos com a cliente, principalmente pela evolução de precisão de seus relatos. Observam a importância da audiência não-punitiva exercida pelo terapeuta, que foi o possível autor desse avanço. A cliente assumiu as dificuldades no relacionamento com sua mãe e com seu filho, além de ter ido buscar ambientes que lhe proporcionassem mais satisfação, como a mudança de um emprego considerado ruim, para um novo que lhe trouxesse novas esperanças.

Referência Bibliográfica

COLOMBINI, F. Augusto; PERGHER, N. Kuckartz. Decisões clínicas na terapia analítico-comportamental. Acta Comportamentalia, Guadalajara, 17, 2, p.235-253, 2009.

Alan Martins


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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