Minhas Leituras #57: Memórias da casa dos mortos – Fiódor Dostoiévski

Livro Memórias da casa dos mortos, Fiódor Dostoiévski

“A sangrenta realidade de um presídio russo do século XIX”

Título: Memórias da casa dos mortos
Autor: Fiódor Dostoiévski
Editora: Martin Claret
Ano: 2016
Páginas: 334
Tradução: Oleg Almeida
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“Qualquer pessoa, seja ela quem for e por mais humilhada que esteja, vem a exigir, embora por mero instinto, embora inconscientemente, que respeitem sua dignidade humana.” (DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias da casa dos mortos. Martin Claret, 2016, p. 136)

Baseando-se em experiências pessoais, Dostoiévski apresentou ao mundo como funcionava o sistema carcerário do Império Russo durante boa parte do século XIX, neste livro narrado pela perspectiva de um ex-detento.

Quando o mundo quase perdeu um grande autor

Com apenas vinte e sete anos de idade, Dostoiévski estava vivendo um sonho. Suas obras ‘Gente pobre’ e ‘Noites brancas’ faziam um grande sucesso na Rússia, recebendo inúmeros elogios por parte dos críticos; o jovem autor era apontado como o futuro nome da literatura de seu país. Porém, com a mesma velocidade que o sucesso veio, uma situação aterradora apresentou-se.

Dostoiévski participava de um grêmio vinculado à ideais socialistas, que exercia uma forte oposição ao governo do Czar Nicolau I. Totalitário como era, o imperador não permitia oposição; todos os membros desse grêmio foram presos durante uma reunião. Muitos companheiros de Dostoiévski morreram fuzilados. Ele mesmo teria sido, mas Nicolau I mostrou que possuía “compaixão” e sentenciou o autor a quatro anos de trabalhos forçados, em um presídio na Sibéria, pelo seu crime de ler uma carta proibida em público.

Foram os piores anos de sua vida, muitos acreditavam que o jovem Dostoiévski não sobreviveria à vida em cárcere. Para a felicidade do mundo ele sobreviveu e, alguns anos após recuperar sua liberdade, escreveu uma obra clássica, inspirada no tempo em que passou na Casa dos Mortos.

“Há quem diga (ouvi falar e li a respeito disso) que o maior amor pelo próximo é, ao mesmo tempo, o maior egoísmo.” p. 105

Crítica social

As obras mais aclamadas de Dostoiévski são conhecidas por possuírem grande profundidade psicológica, trata-se de um autor que gostava de explorar o íntimo da personalidade de suas personagens. Todavia, podemos dizer que essa foi uma segunda fase de sua carreira literária.

Seus primeiros livros possuíam um grande teor social, ele gostava de mostrar como a sociedade russa de sua época era excludente, altamente desigual e elitista. Talvez ‘Memórias da casa dos mortos’ esteja entre essa transição de fases, pois possui características psicológicas, algumas explorações sobre o comportamento dos presidiários, mas o forte dessa narrativa é sua crítica social, explicitando as crueldades que existiam dentro das prisões e como o sistema carcerário era falho ao extremo.

O autor misturou realidade e ficção para compor esse “romance”. A narrativa é uma espécie de diário fictício, escrito por Alexandr Petróvitch, fidalgo condenado à prisão após assassinar sua esposa. Ele narra como foram seus anos na Casa dos Mortos, o que viu por lá, como eram seus habitantes, como o sistema funcionava e seus sofrimentos ao adaptar-se à nova realidade de trabalhos forçados. Prepare-se para conhecer autoridades cruéis e um sistema carcerário punitivo, onde castigos, como chibatadas, eram constantes e constitucionais.

“Há pessoas que, sem terem matado ninguém, são mais pavorosas que o autor de seis homicídios.” p. 131

Fazendo uma ponte com o presente

Falando de Brasil, nosso sistema prisional é justo? Todos são tratados da mesma forma, independente de origem, de situação socioeconômica?

Vemos, durante a leitura dessa obra, como os fidalgos condenados são tratados, pelos soldados e demais funcionários do presídio, de forma menos violenta do que aqueles presos de origem camponesa. A Rússia tratava o povo mais pobre como animais, eram pessoas com vidas sofridas. O contraste social era enorme, principalmente quando fosse para punir alguém com um castigo; os mais pobres sempre recebiam as piores formas de tortura. E havia certa inimizade entre camponeses e fidalgos, não se misturavam, como água e óleo, apesar de existir certo respeito mútuo.

Punir um preso o torna apto a viver em sociedade novamente, após cumprir sua sentença? Desde a época de Dostoiévski podemos observar que um sistema punitivo e violento não melhora a conduta de ninguém, ao contrário, cria-se mais problemas. Não seria um sistema educacional muito mais eficaz para proporcionar maiores oportunidades de reinserção social? A leitura de ‘Memórias da casa dos mortos’ está aí como um documento histórico para levantar e apoiar esse debate. Sua leitura mostra como um preso, privado de seus direitos, de sua liberdade, acaba perdendo sua identidade, com sua dignidade é esmagada, acaba sentindo-se como algo que não um humano (questões psicológicas muito interessantes abordadas pelo autor).

Ademais, governos totalitários e violentos, que retiram a liberdade individual, são grandes atrasos para a humanidade. A Rússia e sua história são exemplos disso. Os governos czaristas foram excludentes, elitistas, totalitários e violentos. Houve as revoluções, os governos socialistas subiram ao poder. A situação continuou a mesma. Esse país gigante em dimensões territoriais poderia ser gigantes em outros sentidos também, mas teve muito azar com seus governantes. Essa é uma questão importante desse livro: como a liberdade é essencial para o ser humano.

“O homem não consegue viver sem trabalho real, privado de propriedade legítima e normal: ele se degrada, transforma-se num animal.” p. 34

Sobre a edição

Realizando um grande trabalho com as obras de Fiódor Dostoiévski, esta é mais uma bela edição publicada pela Martin Claret. Capa dura, miolo em papel off-white (é bem parecido com o Pólen Soft, no livro essa informação não consta com precisão), ótima diagramação e margens de muito bom tamanho, facilitando a leitura e a abertura do livro, além de um lindo projeto gráfico. Para aqueles que gostam, a edição vem com uma fitinha para marcar as páginas.

Oleg Almeida, poeta e tradutor titular das obras russas publicadas pela editora, mais uma vez entrega uma excelente tradução. Escolhas de palavras que buscam manter o estilo corrido, estranho e, às vezes, coloquial de Dostoiévski, com muitas notas de rodapé que ajudam o leitor a situar-se na Rússia do século XIX. Um tradutor com grande conhecimento naquilo que faz, ainda mais por possuir o russo como um idioma materno. São traduções muito boas para conhecer a literatura russa de maneira mais fiel.

Minha edição foi cedida pelo próprio Oleg que, com muita gentileza, a enviou para mim, assim como algumas de suas obras autorais, que em breve aparecerão no blog. Recentemente ele me concedeu uma entrevista, que, por sinal, ficou muito bacana. Você pode visualizá-la clicando AQUI.

“[…] se, desde o primeiro encontro, a risada de alguém totalmente desconhecido for de seu agrado, não se acanhem em dizer que é uma pessoa boa.” p. 58

Conclusão

Experiência interessante para conhecer o lado de crítico social desse grande autor que foi Fiódor Dostoiévski (e continua sendo). O sistema prisional russo foi um dos mais sangrentos da história e o autor retrata isso com propriedade, em uma narrativa bastante descritiva, com poucos diálogos. E essa característica descritiva não deixa a leitura enfadonha, muito menos cansativa. É um livro onde você irá virar as páginas com muita velocidade e vontade, pois o fator histórico aguça a curiosidade. Apesar de antiga, a obra mostra-se bastante atual, pois aborda um tema recorrente, uma discussão ainda muito presente em nossa sociedade. Afinal, um presídio deve punir o condenado, ou buscar formas de reinseri-lo na sociedade. Formas estas que não usem de violência, mas talvez formas baseadas em educação, pois está mais do que provado que a violência não melhora a conduta de ninguém.

“O homem é um ser que se acostuma a tudo, e essa é, a meu ver, sua melhor definição.” p. 26

Minha nota (de 0 a 5): 4,5

Alan Martins

Livro Memórias da casa dos mortos, Fiódor Dostoiévski, Martin Claret
Uma edição muito bonita, de ótima qualidade, desse grande clássico. Um presente que recebi do próprio tradutor, o grande Oleg Almeida.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

11 pensamentos

  1. para mim, o seu livro mais contundente e ao mesmo tempo (liberta)dor. a narrativa precisa, quase cruel em momentos, realismo, mas bem mais além, uma tênue esperança, pois ao tratar a realidade tal como é lança discernimento e consciência. e pensar que os dias atuais se aproximam muito dessa realidade. um livro daqueles que classifico como não pode deixar de ser lido. muito obrigado, Alan. um grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Chega a ser assustador como esse livro, escrito há tanto tempo, mostra-se ainda muito atual, situações que ainda ocorrem em nossa sociedade, situações nada positivas. Concordo com você, uma obra que não deve deixar de ser lida, possui um grande valor histórico, social e, claro, artístico.
      Obrigado pelas palavras, Fernando.
      Grande abraço.

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