Treinamento de Pais e Habilidades Sociais Educativas

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Imagem por Aaandrea (editada). Publicada sob Licença (CC0 1.0). Disponível em: https://pixabay.com/photo-2432569/.

O temperamento impulsivo, desafiador e intolerante a frustrações, associado a déficits cognitivos e inabilidade no manejo social podem constituir um quadro de características de comportamentos inadequados, caso a criança obtenha ganhos com a não realização de tarefas, acesso a privilégios e atenção. Famílias disfuncionais são chamadas de negligentes, com pouca ou nenhuma autoridade ou envolvimento com a criança.

O modelo eficiente, ou democrático-recíproco, onde a disciplina é construída a partir de uma base de confiança mútua, onde os pais adotam um estilo mais contratual com a criança, sob a forma de combinados, é o que mostra mais resultados positivos.

Programas direcionados aos pais foram criados em muitos países. São programas que os ensinam a ser “terapeutas comportamentais” de si e dos próprios filhos. Qualquer modificação efetiva e duradoura dos comportamentos da criança pressupõe uma mudança prévia na forma com que os cuidadores lidam com ela.

Quando os pais apresentam um melhor repertório de habilidades sociais educativas, seus filhos tendem a apresentar mais comportamentos adequados. Um fator de risco ligado a comportamentos desadaptativos é a exposição a modelos agressivos. O repertório cognitivo-comportamental deficiente, em relação às habilidades sociais, pode resultar em relacionamentos predatórios pouco gratificantes, o que pode acarretar em expectativas hostis em relação ao outro.

Um exemplo de Treinamento de Pais e Habilidades Sociais

O programa de Treinamento de Pais e Habilidades Sociais (TP-HS) visa enfatizar as diferenças de perspectiva de pais e crianças. Esse programa foi implementado em uma escola municipal de Belo Horizonte (MG), que atendia crianças e adultos. Teve como objetivo orientar os participantes de maneira didática, sobre os fundamentos da análise aplicada do comportamento, instruí-los quanto à necessidade de motivar seus filhos a se comportarem bem. O pressuposto do programa é o de que a criança precisa ser reforçada de modo frequente, contingente e sistemático. Foram encontros semanais, com duração de uma hora e trinta minutos. Prendas eram sorteadas a cada encontro e os pais recebiam pontos para participarem de um sorteio final.

A primeira etapa consistiu-se na verificação e discussão das tarefas propostas e realizadas pelos pais na sessão anterior. Na segunda, apresentava-se o “passo” da sessão conforme a sequência pré-estabelecida, incentivando os pais a relatar suas dificuldades e acertos. Na terceira e última etapa, explicava-se a nova tarefa a ser realizada no decorrer da semana. A partir da segunda sessão, realizaram-se etapas de intervenção, organizada em nove passos.

Passo 1 – Porque as crianças se comportam mal: este passo tem o objetivo de desenvolver a compreensão dos pais sobre os fatores que influenciam o comportamento da criança. Também é realçada a importância da observação das consequências de comportamentos desadaptativos e pró-sociais na família.

Passo 2 – preste atenção no bom comportamento de seu filho: tem como objetivo treinar os pais para diminuir a atenção sobre determinados comportamentos e aumentar o uso de maneiras mais afetivas de atendimento.

Passo 3 – Aumentando a brincadeira independente: nesse passo, estimula-se os pais a participarem de ensaios comportamentais, com o objetivo de monitoramento das atividades independentes da criança. Cria-se situações onde os pais aprendem a elogiar a criança quando ela brinca de maneira independente.

Passo 4 – Prestando atenção no comportamento de seguir instruções: Procura-se orientar os pais a dar instruções corretas aos filhos, apresentando instruções curtas de fácil execução, valorizando o desempenho da criança.

Passo 5 – Ensinando a “ler” o ambiente social: Este passo complementa o treino e observação da sessão anterior, com outras habilidades. Os participantes observam os colegas e relatam o que viu sendo consequenciado positivamente pelo terapeuta, descrevendo os desempenhos e depois exercícios que possibilitam a identificação e interpretação de comportamentos não-verbais serem criados.

Passo 6 – Facilitando a empatia: A aprendizagem do conceito e a importância da empatia para relacionamentos saudáveis são enfatizados nessa fase. Os pais são treinados para dar mais atenção aos problemas dos filhos, ouvindo-os de maneira mais atenta, oferecendo modelos de comportamentos empáticos no ambiente.

Passo 7 – Melhorando o comportamento na escola: Apresenta-se a importância do trabalho colaborativo entre pais e professores. Orienta-se os pais a monitorar as tarefas escolares, comunicando esse monitoramento aos professores.

Passo 8 – Representação de papéis: Apresenta de maneira simplificada o modelo da teoria de papéis. O treinamento é realizado por meio de ensaios comportamentais e role play (interpretação de papéis).

Passo 9 – Desenvolvendo a capacidade de se expressar: Informações sobre assertividade são introduzidas. Explica-se a diferença entre comportamento passivo, agressivo e assertivo. O objetivo é a promoção de contingências ambientais favorecedoras para a aquisição e a manutenção de comportamentos assertivos.

Resultados

Os procedimentos foram avaliados por meio de inventários e questionários sobre os comportamentos das crianças, onde foram coletadas informações socioeconômicas e sobre a composição familiar. O Questionário de Situação Doméstica (com o objetivo de identificar as diferentes situações nas quais a criança apresenta problemas em casa) e o Inventário de Comportamentos Inoportunos (que quantifica a frequência de comportamentos inadequados da criança), também foram utilizados.

No final, verificou-se que a assiduidade dos participantes se situou acima de 80%. O inventário de Comportamentos Inoportunos apontou uma queda acentuada na média e o mesmo ocorreu com os resultados do Questionário de Situação Domésticas. Também foi verificado que algumas atividades realizadas nas sessões de treinamento foram elaboradas ou adaptadas pelos pais e aplicadas nas situações domésticas. Relatos apontaram as mudanças na qualidade do relacionamento entre pais e filhos, com melhoras nos comportamentos das crianças.

Grande parte dos pais adotavam uma postura rígida às respostas inadequadas dos filhos. Os resultados mostraram que seus comportamentos foram alterados, além de serem reforçados positivamente com essas mudanças.

Alan Martins

Referência Bibliográfica

PINHEIRO, M. I. S. et al. Treinamento de habilidades sociais educativas para pais de crianças com problemas de comportamento. Psicol. Reflex. Crit., 19-3, p. 407-414, 2006.


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

7 pensamentos

    1. É muito difícil expandir programas do tipo para escolas públicas, principalmente. Sequer existem psicólogos dentro das escolas. Além disso, há uma forte resistência dos responsáveis, que veem esse tipo de intervenção com medo, já que é possível verificar muitos erros dentro da instituição dessa forma, e ninguém quer ter o trabalho de corrigir, é mais fácil manter como está. Infelizmente, esse é o pensamento recorrente.

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