Minhas Leituras #46: Edda em prosa – Snorri Sturluson

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“O livro sobre mitologia nórdica mais completo do mercado brasileiro”

Título: Edda em prosa: Gylfaginning e Skáldskaparmál
Autor: Snorri Sturluson
Editora: Ed. Barbudânia
Ano: 2014
Páginas: 344
Tradução: Artur Avelar
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Eles não sabiam onde era o seu reino, mas eles acreditavam que ele governava tudo na terra e nas nuvens, o céu e as estrelas, o mar e o clima. A fim de que isso pudesse estar relacionado e ser relembrado, eles deram seus próprios nomes a tudo, mas com as migrações de povos e multiplicação de línguas, essa crença mudou de muitas maneiras. (STURLUSON, Snorri. Edda em prosa: Gylfaginning e Skáldskaparmál. Ed. Barbudânia, 2014, p. 14)

Nunca a mitologia nórdica esteve tão em alta na cultura pop. Há diversas séries e filmes inspirados nesse tema. Uma das fontes mais preciosas sobre essa mitologia é o ‘Edda em prosa’, escrito no século XIII, livro sobre o qual falarei neste post, atualmente a edição mais completa disponível no Brasil.

Sobre o autor

Nascido por volta de 1179, Snorri Sturluson foi um historiador, político e poeta islandês. Teve uma vida política influente e agitada, sendo eleito duas vezes para o parlamento islandês. Tornou-se amigos de reis, com grandes contatos nos países nórdicos.

Escreveu muitos textos sobre história, porém seus escritos sobre mitologia são os mais conhecidos, uma das principais (se não a principal) fontes sobre mitologia nórdica. Não eram apenas compilados sobre deuses antigos e seus cultos, mas também levantamentos de hipóteses sobre a criação desses deuses e as origens dos mitos.

Sua vida política o levou à fama e à morte, que ocorreu em 1241, ao ser assassinado, vítima de uma conspiração política norueguesa.

“Há homens que são conhecidos como Campeões, Paladinos, Homens de Guerra, Bravos, Valentes, Durões, Dominadores, Heróis. Contra estes estão os seguintes termos: Mole, Fraco, Sem Fermento, Insípido, Derretido, Medroso, Covarde, Espreitador, Fracote, Odioso, Degenerado, Patife, Vil, Cão, Vadio, Vagabundo, Reles, Imbecil, Inútil, Filho da Miséria”. p. 300

Fonte de conhecimento

Como o próprio nome diz, esta versão é apresentada em forma de prosa, se diferenciando de uma outra versão do ‘Edda’, que é escrita em forma de versos. É um estilo de narrativa um pouco diferente do que temos atualmente, se assemelhando à Bíblia. Além disso, originalmente não havia separação por capítulos, nem parágrafos, o que só ocorreu em versões posteriores, em traduções para o inglês.

Esta edição contém dois livros: o Gylfaginning (A Ilusão de Gylfi), que é a narrativa sobre os deuses nórdicos, a origem do mundo, do homem e de diversas outras coisas, contando a saga dos deuses até a chegada do Ragnarök; e o Skáldskaparmál (Poesia dos Escaldos), onde o autor discute e faz ligações entre a poesia e a mitologia, apresentando exemplos de metáforas e nomes. A versão original apresenta mais um livro, o Háttatal, que foi omitido desta edição, opção do tradutor, por se tratar de algo mais técnico sobre construção de poesias.

Vale ressaltar as hipóteses levantadas por Sturluson, que acreditava que figuras reais inspiraram os deuses de Asgard (Æsir), como grandes reis e imperadores, além de outras crenças e cultos. Ele também faz algumas ligações com o cristianismo, apontando este como grande influenciador dos mitos (ele viveu em uma época onde o cristianismo já havia chegado aos países nórdicos).

Temos aqui uma edição muito completa, grande fonte de conhecimento sobre os mitos e também sobre história.

“Ela [a vaca Audumla] lambia os blocos de gelo, que eram salgados; e no primeiro dia que lambeu os blocos, então saiu deles durante a noite o cabelo de um homem, no segundo dia, a cabeça de um homem, no terceiro dia um homem inteiro estava lá”. p.30

Leitura um pouco cansativa

Pelo estilo de narrativa, até mesmo por ser um texto antigo, a leitura não se mostra muito prazerosa. Há muitos nomes de difícil pronúncia, que não são importantes para se compreender o que a obra quer dizer, além de muitos se repetirem diversas vezes.

Tudo é apresentado de forma direta, o que talvez seja realmente o objetivo do autor, apresentar as origens das coisas através da mitologia nórdica, entretanto, isso deixa a narrativa “seca”, meio sem graça. Há algumas narrativas bem construídas, em forma de pequenas histórias, principalmente no Gylfaginning, que é o melhor dos dois livros, pois o Skáldskaparmál funciona mais como um guia para poetas da época de Sturluson, cheio de exemplos reais, de versos e metáforas compilados por ele.

Claro, esta é a edição mais completa para quem deseja se aprofundar nesse tema, porém há outros livros que podem servir melhor como uma introdução, que vão deixar o leitor mais interessado em continuar pesquisando. Como exemplo, posso citar o ‘Mitologia nórdica’, de Neil Gaiman, onde ele apresenta a mitologia nórdica do início ao fim, com narrativas muito semelhantes às encontradas no ‘Edda em prosa’ (fonte que ele usou como referência), porém com uma construção muito mais interessante e moderna, mais gostosa de ser lida.

“Um salão fica ali, belo, sob a árvore perto da fonte, e fora do salão há três donzelas, que são chamadas assim: Urdr ou Passado, Verdandi ou Presente, Skuld ou Futuro; essas donzelas determinam o período de vida dos homens: nós a chamamos de Nornas […]” p. 46

Sobre a edição

Devemos agradecer ao tradutor e aos responsáveis por trazerem esta obra para o Brasil, pois fazia falta em nosso mercado algo parecido. Artur Avelar utilizou as obras em inglês de Ramus Anderson (The Younger Edda, 1879) e Arthur Gilchrist Brodeur (The Prose Edda, 1916), além do texto original em islandês antigo, como bases para sua tradução, que ficou muito boa, um grande trabalho que, aparentemente, foi feito apenas por ele (não há nomes de editores ou revisores).

A edição é bem simples, com capa mole e sem orelhas, páginas em papel offset (branco), a diagramação poderia ser melhor, com mais espaçamento entre as linhas e uso de hifenização. Ademais, a obra apresenta mais de cem imagens, pinturas antigas, inspiradas nos mitos nórdicos. É difícil criticar a edição por seu aspecto físico, pois é quase uma publicação independente e o livro nem foi impresso no Brasil, vindo dos EUA (tem até um selo de importação). Mas fique claro, o idioma do livro é o português do Brasil.

“Então o Poderoso Governante de Roma/ Em suas terras rochosas confirmou/ Seu poder; dizem que Ele se assenta/ Ao Sul, na Fonte de Urdr”. p. 261

Conclusão

Para quem gosta de mitologia nórdica, temos uma excelente fonte de conhecimento neste livro. Quem está iniciando-se sobre o tema, terá uma obra bem completa em mãos, entretanto não é a edição que apresenta o texto mais agradável de se ler. Acredito que esta talvez não seja a melhor introdução, aquela que cativa o leitor, porém é a melhor para aprofundar os conhecimentos. Livro de inegável valor histórico e cultural.

“[…] e por minha fé, tudo o que e ute disse é igualmente verdade, embora haja algumas coisas que você não pode colocar à prova”. p. 76

Minha nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins

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Uma edição simples, porém muito completa, com exemplos de como a mitologia nórdica inspirou, também, a arte.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

10 pensamentos

  1. No meio desses heróis, Deuses, forças, fraquezas, impotências e omnipotências, é engraçado perceber que a mitologia foi a primeira tentativa para se explicar a complexidade humana. Nunca passará de moda. E, apesar de também sermos um reflexo do nosso tempo, os mitos transportam algo de muito humano que transcende todas as épocas. Pessoalmente, identifico-me mais com a greco-romana e a egípcia 🙂 Aliás, há críticos que dizem que a cultura judaico-cristã tem influências, também, dessas mitologias. É um território bastante amplo a ser desbravado. Abraço 🙂

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    1. Ao longo de todos esses anos, todas essas culturas e mitos se misturaram, com a civilização se expandindo. É interessante o fato de que os deuses da mitologia nórdica não são onipotentes, nem oniscientes (se Odin não tivesse seus corvos, ele não saberia do que ocorre nos mundos). Eles apresentam fraquezas e defeitos, assim como nós humanos. Como você apontou, quem sabe eles não foram inspirados nas próprias fraquezas dos humanos, uma representação para explicar nossa psique. Esse livro é muito bom, realmente enriquecedor, um tema que vai ser debatido por muito tempo ainda.
      Obrigado pelas suas palavras! Seus apontamentos são sempre bem-vindos! 🙂
      Grande abraço. 😀

      Curtido por 1 pessoa

      1. Obrigadíssima 😀 Exacto, tens razão! Não é por acaso que a psicanálise em geral foi buscar termos à mitologia 🙂 . São histórias, claro, e como tal, destituídas de cientificidade psicológica, mas é divertido pensar nesses mitos e nos seus significados. Por um lado, admito que também ajuda. Aconselho o livro ‘Flores do Mal’ do Baudelaire. Penso que o encontrarás com facilidade. Tem imensas referências à mitologia celta. Grande abraço! 🙂

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      2. Tanto que na psicanálise existe o complexo de Édipo e também se fala em muitas outras coisas que vêm da mitologia, como o narcisismo. Obrigado pela dica, vou procurar esse livro. Não conheço muito sobre mitologia celta, e seria muito legal poder conhecer algo.
        Grande abraço, um ótimo dia para você! 😀

        Curtido por 1 pessoa

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