Freud e o ato falho

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Imagem por Robin Higgins (editado). Publicada sob Licença (CC0 1.0). Disponível em: https://pixabay.com/photo-2681508/.

Em um breve texto de 1935, intitulado ‘As sutilezas de um ato falho’, Sigmund Freud (1856-1939), o fundador da psicanálise, apresenta um de seus conceitos, o ato falho, e como o título deixa bem claro, a questão central é a sutileza desse ato.

Caracteriza-se um ato falho um erro na fala, escrita, memória ou até mesmo uma ação física. O sujeito o compreende como errado, por exemplo, ter dito uma palavra, quando sua real intenção era falar outra. Entretanto, para a psicanálise, não houve um erro, mas sim um desejo do inconsciente que foi realizado através do ato falho, que acaba tomado por um erro devido ao conteúdo inconsciente ser desconhecido ao sujeito.

Freud analisa as sutilezas dos atos falhos por meio da narração de um fato de seu cotidiano. Certa vez, resolveu presentear uma amiga com uma pedra para um anel. Decidiu escrever um bilhete para acompanhar o presente, e notou que havia escrito uma palavra desnecessária, bis, expressão comum, que pede uma repetição (como por exemplo, pedir bis após uma banda tocar uma música). Fazendo uma autoanálise, Freud percebeu que havia repetido a palavra fur (para), duas vezes e interpretou o uso de bis como um ato falho, sinalizando a repetição de fur.

Este é o ponto chave que caracteriza a sutileza de um ato falho, além de um alerta para uma autoanálise incompleta. Após escrever o bilhete, conversando com sua filha, Freud se lembrou de que já presenteara a amiga com uma pedra semelhante, sendo assim, estaria repetindo o presente, algo que não é considerado amigável de se fazer. Refletindo mais a respeito desse caso, também notou que não sentia vontade de dar a tal pedra de presente, pois gostara tanto do objeto que o queria para si. Isso mostra que a objeção de não repetir era um disfarce para sua real vontade de possuir tal pedra.

O ato falho se relaciona com a negativa, um outro conceito da psicanálise, apresentado por Freud no texto ‘A negativa’ (1925). A única maneira de um objeto reprimido no inconsciente chegar ao consciente, é através da negação. Negar algo é um julgamento intelectual, praticamente uma afirmação: “Sim, eu prefiro reprimir isso!”. Ou seja, a negação é o substituto intelectual da repressão. Como o ego-prazer deseja apenas introjetar em si as coisas boas e expelir as ruins, negar algo é o mesmo que querer expulsar de si algo compreendido como mau.

Por meio de um texto simples, uma descrição do cotidiano, Freud apresenta um exemplo claro de um ato falho, mostrando suas sutilezas e como, mesmo os processos mentais mais modestos, podem ser complicados; o inconsciente tenta nos “pregar peças” afim de realizar seus desejos. Na clínica psicanalítica, os atos falhos são importantes objetos de análise, que podem levar a interpretações por parte do terapeuta e a insights, por parte do analisado. Ademais, há um apontamento sobre os perigos de uma autoanálise, sem a conversa com sua filha, ele, talvez, não tivesse esse tipo de reflexão acerca de seu ato falho. Por isso a figura de um terapeuta é sempre importante, buscar uma análise com uma pessoa competente é indispensável.

Alan Martins

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund. As sutilezas de um ato falho. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. A negativa. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

9 pensamentos

  1. Sempre achei esse tema fascinante Alan…e é incrível como essas parapraxias revelam muito mais do que as vezes gostaríamos de admitir… a mente humana é realmente admirável! Abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sim, é bem interessante mesmo esse jogo mental, que acontece sem termos noção. Uma coisinha que parece sem sentido, um erro, pode revelar muitas coisas. Isso foi o que Freud mostrou ao mundo, além de diversos outros conceitos.
      Obrigado pela visita, abraço!!

      Curtido por 1 pessoa

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