Psicoterapia na infância: viés analítico

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Imagem disponível em: Psychology Careers.

Sigmund Freud, apesar de nunca ter atendido pessoalmente nenhuma criança, foi o primeiro psicanalista a pensar em uma terapêutica voltada à criança. Observou que as crianças expressam suas ansiedades, fantasias e angustias através do brincar, a partir do estudo do caso do pequeno Hans.

Utilizando os conceitos psicanalíticos de Freud, Melanie Klein interpretou o brincar. Acreditava que através do brincar a criança domina realidades traumáticas e controla medos instintivos. O brincar, para a criança, seria o mesmo que a associação livre para os adultos.

Já Anna Freud pensava de outra maneira, discordando totalmente das ideias de Klein. Criou uma teoria mais educativa, reforçando aspectos positivos do vínculo, não considerando a relação do brincar da criança com a associação livre e os sonhos do adulto.

Utilizando a teoria de Melanie Klein como referência, o terapeuta encontra o material a ser investigado no brinquedo e na ação do jogo material. Observa-se, durante a seção, não apenas o ato de brincar, mas também a maneira como se brinca, as repetições, mudanças bruscas, os tipos de brinquedo utilizados e as fantasias envolvidas no ato. Esses aspectos possuem relação com a ansiedade predominante e as defesas utilizadas pela criança.

As interpretações feitas pelo terapeuta devem estar de acordo com o nível de compreensão de seu paciente. Não se deve, de maneira alguma, infantilizar a criança, ou diminuir o impacto da interpretação. É preciso atenção nesse momento, pois as ações da criança ao brincar podem significar um meio de expressão e tentativa de elaboração de conflitos, ou algum tipo de resistência.

Os pais, ou responsáveis, têm grande importância no processo de avaliação da criança, pois são fonte de diversas informações sobre ela. No momento da entrevista, diversos sentimentos de transferência e contratransferência podem emergir, além de informações de como funciona a dinâmica da família.

A entrevista lúdica acontece após a entrevista com os pais. Nesse momento a criança brinca da maneira que quiser, utilizando os materiais da sala de jogos. O terapeuta deve delimitar o espaço onde se poderá brincar, tempo, o papel de cada um no processo psicoterápico e o motivo das atividades.

O setting, ou seja, a sala do atendimento deve ser voltada à criança, com materiais adequados à sua altura, como cadeiras e mesas pequenas. O material dessa criança deve ser mantido em lugar seguro, onde sua privacidade será garantida. Além disso todo o material lúdico deve estar disponível em locais de fácil acesso, de acordo com a idade do paciente atendido. A sala deve possuir pia com água corrente, onde poderá ser possível se limpar.

As psicoterapias infantis de viés analítico são indicadas para conflitos interpessoais persistentes e atrasos, parada ou regressão no desenvolvimento adaptativo e emocional. Não é aconselhável esse tipo de terapia em casos onde a estrutura familiar é comprometida, onde os pais apresentam condutas perversas ou psicóticas.

A fase inicial do processo psicoterapêutico se configura no contato entre terapeuta e paciente, a relação que se cria e o estabelecimento do setting interno e externo. Na fase intermediaria da psicoterapia se manifestam o fenômeno da transferência e contratransferência. A transferência ocorre das projeções da família sobre o terapeuta, como responsabilidade pela cura da criança. A contratransferência emana no terapeuta em relação às projeções da família e da criança. A fase final da psicoterapia se dá no estabelecimento do termino do tratamento. Este pode acontecer de forma prematura ou terapêutica.

Existem outras modalidades de psicoterapias que podem ser utilizadas no atendimento de crianças. Por exemplo: terapia psicoeducacional, psicoterapia suportiva, psicoterapia comportamental, psicoterapia cognitiva e psicoterapia breve dinâmica.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

CORDIOLI, A. V. Psicoterapias: abordagens atuais. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

Alan Martins


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

10 pensamentos

    1. Associação livre é uma técnica da psicanálise. Consiste em deixar o cliente falar livremente, pois, acredita-se que, ao longo da terapia, ele próprio conseguirá fazer associações do que diz. O inconsciente irá “aparecer” nessas associações. Freud viu que hipnotizar não surtia efeito, e percebeu que, se deixasse a pessoa falar livremente, poderia obter melhores resultados para sua análise. Vou deixar uma citação que encontrei.
      “No seio da associação livre vai se produzindo um deslocamento da imagem, do fato como fixo, e este vai se incluindo em múltiplas imagens caleidoscópicas cujas combinações possíveis se multiplicam e onde o ritmo, a cadência, a intensidade maior de alguns fonemas, a excitação explícita no gaguejar de uma palavra, o sentido duvidoso de uma frase mal construída, tudo isso vai dando tonalidades diferentes a estas figuras que não passam desapercebidas à escuta sutil da atenção flutuante. Ao mesmo tempo, ao ser escutado pelo analista, o próprio sujeito que fala se escuta (S. L. Alonso, 1988, p. 2)”.

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      1. Fico feliz que tenha resolvido! Não sou especialista em psicanálise, apesar de gostar de alguns teóricos. Minha grande paixão mesmo é a área comportamental. Mas, é sempre bom conhecer todas as abordagens que a psicologia oferece. 😀

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    1. Muito obrigado. Acho que ficou simples, não um texto complicado. A psicanálise foi a pioneira em estudar o psiquismo de crianças, a maioria das psicoterapias infantis utilizam técnicas criadas por psicanalistas, seria a base delas. Então é bem interessante conhecê-la, mesmo que eu me identifique com a área comportamental.
      Agradeço o comentário e sua leitura. Grande abraço!

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  1. Já tinha ouvido falar do método da caixa de areia, penso que segue uma perspectiva mais junguiana e também pode ser utilizada em adultos. Em linhas bastante gerais, a criança está dentro de uma caixa de areia de brincar, com dimensões específicas, e tanto pode estar ali só a mexer e brincar com a areia como, também, construir narrativas com pequenas miniaturas. Pareceu-me interessante. Sempre tive curiosidade por essas coisas 😀 Um bom dia.

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    1. Acho que você vai gostar bastante em conhecer Melanie Klein, que começou a interpretar o brincar das crianças, vendo que essa atividade é uma maneira delas externalizarem seus conteúdos internos e inconscientes. A partir disso, outras abordagens adotaram o brincar como uma ferramenta de se aproximar da criança, de fazê-la se expressar, não da mesma forma que a psicanálise, mas com a mesma ferramenta. É uma terapia muito importante para a psicologia infantil.
      Obrigado pelo comentário. Um ótimo dia! 🙂
      Abraço.

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