Minhas Leituras #40: Mindhunter – John Douglas & Mark Olshaker

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“Este não é um manual sobre como caçar serial killers, mas é um bom livro”

Título: Mindhunter
Autor: John Douglas & Mark Olshaker
Editora: Intrínseca
Ano: 2017
Páginas: 384
Tradução: Lucas Peterson
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“Assassinos em série são, por definição, assassinos “bem-sucedidos”, que aprendem com a própria experiência. Precisamos apenas ter certeza de que estamos aprendendo mais rápido do que eles”. (DOUGLAS, John E. Mindhunter. Intrínseca, 2017, p. 147)

Serial killers existem há muito tempo, porém esse termo só foi cunhado centenas de anos depois. Desde Jack, o Estripador, até hoje, esse tipo de assassino tira o sossego de cidades, estados e até mesmo de um país inteiro. Identificá-los nem sempre é uma tarefa fácil, porém muitas pesquisas aumentaram a eficiência no trabalho de investigação. John Douglas, um ex-agente do FBI, conta nesse livro como ajudou na criação de um método que facilita o trabalho da polícia, resultando numa busca mais precisa desses assassinos em série.

De aspirante a veterinário a gente do FBI

Trabalhar para o FBI nunca foi uma ideia que passou pela cabeça do jovem Douglas. Na verdade, ele sonhava em ser veterinário, porém não levou os estudos a sério no final de sua adolescência. Deixando os estudos de lado, ingressou na carreira militar, quando foi convocado pelo serviço de alistamento obrigatório. Esse evento mudou sua vida. Não participou de nenhuma missão enquanto servia o exército, porém teve a possibilidade de se formar em psicologia, o que o ajudou a ser recomendado para trabalhar no FBI.

Construiu uma carreira sólida dentro da agência, fruto de muito trabalho, viagens pelo país e, principalmente, muita pesquisa. Seu conhecimento em psicologia foi de muita importância na sua contribuição para o desenvolvimento do método de análise de perfis, uma técnica investigativa que ajuda a encontrar um suspeito com muito mais precisão.

Como a ciência comportamental ainda estava se consolidando, não sendo uma ciência aceita por todos na década de 1970 e início de 1980, Douglas precisou superar diversos obstáculos, mesmo dentro do FBI. Tudo isso e muito mais é narrado nesse livro, escrito em parceria com o autor e roteirista Mark Olshaker.

“Porque a triste realidade é que os psiquiatras podem lutar o quanto quiserem, meus colegas e eu podemos usar a psicologia e a ciência comportamental para ajudar na captura de criminosos, porém, no momento em que conseguimos usar nossos conhecimentos, os piores danos já foram feitos”. p. 355

Entrando na mente de um assassino

Muito desse método desenvolvido pelo autor e seus parceiros do FBI baseia-se em se colocar no lugar do criminoso. Quais seus motivos para o crime? Qual o estressor que desencadeou sua ação? Qual seria seu próximo passo? Afinal, assassinos em série, como o termo sugere, fazem várias vítimas em sequência.

Mas, às vezes, é preciso tomar caminhos incomuns para conseguir a confissão de um suspeito. O agente precisa seguir o raciocínio do assassino, que, muitas vezes, coloca a culpa na vítima. Uma atitude intimidadora de uma vítima, para um criminoso inseguro, pode ser o desencadeador para o crime. Claro, a culpa nunca é da vítima, porém serial killers pensam de maneira diferente. Como Douglas diz “Para entender a pintura, é preciso entender o pintor”.

A análise de perfis permite traçar um perfil para o suspeito dos crimes se baseando em seu comportamento durante os atos, seu modus operandi, sua assinatura (uma característica imutável, sempre presentes em seus crimes, que se relaciona ao motivo dos mesmos), e pelas pistas deixadas. É um método baseado em ciência comportamental e em muitos estudos práticos e entrevistas com assassinos em série presos. É incrível a precisão do perfil que pode ser traçado, dizendo a idade, etnia, emprego, personalidade, infância e motivos do suspeito; até o carro que ele dirige pode ser suposto!

Tamanha precisão de uma análise, baseada em uma linha de pesquisa em formação, levantava dúvida e desconfiança de juízes e do alto escalão do FBI. Muitos chamavam o método de vodu. O Departamento de Ciência Comportamental, como se chamava no início, se desenvolveu de maneira quase clandestina. Foi necessário muito esforço para que se tornasse uma ferramenta de grande ajuda para as polícias dos Estados Unidos, e John Douglas foi um dos nomes que consolidaram esse departamento e esse método de investigação.

“Acabei cunhando o termo assinatura para descrever esse elemento singular, essa compulsão pessoal que se mantinha estática. E o usei como algo distinto do conceito tradicional de modus operandi, que é fluido e possivelmente mutável”. p. 66

Trata-se de um manual? Não!

Esse livro não é um manual sobre como identificar serial killers, ou algo do tipo. Essa nunca foi a premissa dos autores. É um pouco complicado classificar essa obra. Possui um lado autobiográfico, pois conta a história de John Douglas, desde sua juventude, até como ele se tornou um agente do FBI. E uma crítica pode ser feita quanto a isso, pois o autor muitas vezes se vangloria durante a narrativa. Sua contribuição dentro da agência é inegável, porém, a forma que ele conta seus feitos dá a impressão de que sua parte foi muito mais importante do que a de outros agentes. Ele passa a ideia de alguém exibido contando seus feitos.

Podemos dizer que o livro é um tanto quanto científico. Mesmo não sendo um manual, os autores — digo os autores, pois é difícil dizer quem escreveu determinada passagem, pois o texto parece escrito por apenas uma pessoa –— explicam como a análise de perfis funciona, e como o método se aplica na prática. E isso faz o livro se parecer com um thriller, pois os crimes que Douglas analisa são narrados como uma história. São todos crimes reais, em que o agente, ou alguém de sua equipe, trabalhou. Alguns criminosos notórios passam por essa análise, como Charles Manson, por exemplo.

Toda essa mistura dá originalidade ao livro. Entretanto, a leitura fica um pouco repetitiva da metade do livro para frente, pois as análises dos casos são feitas quase que da mesma forma, descritas da mesma maneira. Isso melhora nos dois capítulos finais, onde há uma característica mais científica, com uma forte crítica à psiquiatria e ao DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, na sigla em inglês). O capítulo final é muito legal, pois Douglas mostra seu lado humano, onde admite falhas, tanto profissionais quanto com sua família, que não recebia muita atenção sua, pois seu trabalho requeria viagens constantes. Mesmo assim, em alguns trechos um olhar determinista é apresentado, se referindo aos assassinos como “monstros”, pessoas irreversíveis. Não é aliviar a barra deles, mas essa é uma expressão controversa e contraditória a outras ideias apresentadas, ainda mais quando quem diz isso é alguém formado em psicologia.

Para quem gosta do tema serial killers, essa é uma obra muito completa.

“Há tantas coisas no trabalho de um agente da lei que são difíceis de compartilhar com pessoas de fora, até mesmo com um cônjuge. Quando você passa os dias examinando cadáveres mutilados, especialmente quando se trata de crianças, este não é o tipo de coisa que quer levar para casa”. p. 19-20

Sobre a edição

No dia 13 de outubro desse ano, a Netflix estreou a série homônima, que se baseia nesse livro e em outras obras de John E. Douglas. Um fator de grande incentivo para a editora resolver trazer o livro para o Brasil.

Temos uma edição padrão, brochura, capa mole com orelhas, papel Pólen Soft 70g/m², diagramação decente, boa para a leitura. A capa é baseada na arte da série, e ficou bacana, passando a ideia do livro de forma atrativa. Quem o traduziu foi Lucas Peterson, tradutor da série ‘Divergente’ e que já trabalhou em outras publicações da Intrínseca e de outras editoras. Uma tradução clara, com bom emprego dos termos técnicos. A revisão deixou passar um pequeno erro, mas não é nada de mais.

“Um paciente que visita um psicólogo sob circunstâncias normais tem um interesse real em revelar seus verdadeiros pensamentos e emoções. Mas um detento que deseja ser solto o mais rápido possível está interessado em falar o que o profissional quer ouvir”. p. 334

Conclusão

Um livro que pode agradar um grande leque de leitores. Amantes de literatura policial vão gostar das histórias reais que os autores apresentam. Quem se interessa pela temática serial killers tem aqui um prato cheio, mostrando como o FBI trabalha para analisar e capturar esse tipo de assassino. Também é uma obra que pode ajudar aqueles que pretendem seguir a profissão de policial, ou se tornar investigadores; ao menos vai aumentar o interesse de quem já sonha em trabalhar nessa área. Leitura fácil, escrita descomplicada. Um livro acessível a todos. Ninguém vai se tornar um especialista em assassinos em série ao terminar o último capítulo, todavia, um grande conhecimento, sobre como esses indivíduos pensam e agem, será adquirido.

“Assassinos em série fazem um jogo muito perigoso. Quanto melhor compreendermos a maneira como jogam, maior será nossa vantagem sobre eles”. p. 256

Minha nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins

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A capa descreve bem o conteúdo do livro: muitos casos de assassinatos, com alguns detalhes.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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