Minhas Leituras #33: Contos, volume 1 – H. P. Lovecraft

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“Edição com uma boa seleção de contos”

Título: Contos, volume 1
Autor: H. P. Lovecraft
Editora: Martin Claret
Ano: 2017
Páginas: 213
Tradução: Alda Porto; Lenita Maria Rimoli Esteves; Vilma Maria da Silva
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“O máximo horror muitas vezes paralisa a memória de uma forma misericordiosa”. (LOVECRAFT, H. P.. Os ratos na parede. In: Contos, volume 1. Martin Claret, 2017, p. 115)

Quando se fala em literatura de terror, um nome que não podemos esquecer é o de Howard Phillips Lovecraft. Autor clássico do gênero, é uma inspiração para qualquer autor atual. Suas obras marcam um tipo de terror cósmico, de algo que vem de fora, que é estranho. Esta edição reúne dez contos de temáticas distintas, porém sempre com algo em comum: uma situação estranha e assustadora que envolve os protagonistas. Preparado para conhecer um pouco sobre o horror clássico?

Ícone de um gênero

A vida de Lovecraft foi marcada por complicações desde sua infância. Sofreu várias perdas, como a de seu pai, que teve um surto psicótico e foi internado. Já na vida adulta, enfrentou diversos problemas financeiros. A morte de seu grande amigo, e também escritor, Robert E. Howard, o afetou profundamente. Seus últimos anos foram conturbados, pois sofria de um câncer no intestino delgado, o que o levou a óbito, de maneira precoce.

Hoje consideramos Lovecraft como um dos grandes nomes da ficção de terror, porém nem sempre foi assim. Veio obter fama apenas após sua morte. Em vida, escreveu para diversas Pulp Maganizes, que publicavam literatura de fantasia e terror. Os temas que abordava em suas obras variavam entre profecias antigas, influência extraterrestre e ficção científica. Ficou conhecido por ser o criador do ‘Mito de Cthulhu’.

Possui uma escrita considerada controversa devido sua aversão à etnias não-Anglo-saxônicas. Seus personagens, de etnias distintas à caucasiana, são descritos de forma pejorativa e estereotipada. Todavia, também criticava aqueles que eram contra a ciência, não possuindo um conservadorismo científico. Apesar disso tudo, trata-se de um autor que todo fã de literatura de terror deveria conhecer.

“Há quem diga que as coisas e os lugares têm alma, e há quem diga que não; não me atrevo a dar meu próprio parecer a respeito, apenas falarei da Rua”. In: A rua, p. 33

Contos variados

Os contos presentes nessa edição possuem temáticas variadas. Uma semelhança entre eles, que pode ser citada, é uma revelação final, surpreendente. Não diria que são histórias que dão muito medo, mexendo com a imaginação, podendo lhe causar pesadelos. São contos criativos e imaginativos, carregados de mistérios e marcados pelo perigo do desconhecido.

Por exemplo, temos um conto onde o protagonista está perdido numa caverna escura e percebe a presença de uma figura estranha, ameaçadora. No final dessa história, teremos um grande plot-twist. O último conto, que pode ser considerado uma novela, fala sobre um jovem médico que busca reanimar os mortos. Para isso, realiza diversas experiências com a ajuda de seu maior amigo. Essa é uma digna história de terror, pois o resultado desses experimentos é perturbador, assim como seu desfecho.

Se comparado a autores clássicos, o terror de Lovecraft é um pouco mais gráfico e violento. Algumas situações podem causar pavor pela descrição de uma cena grotesca. O autor gosta de chocar. Mas são choques rápidos, os contos são curtos e de leitura rápida. Mesmo se tratando de um gênero literário menos erudito, temos que elogiar a escrita de Lovecraft, que é muito precisa nos detalhes, sem enrolação. Ele chega ao ponto de forma magistral.

Pode-se notar sua influência em diversos filmes e livros atuais. Um dos autores que mais gosto de ler é Stephen King. Ele admite abertamente que Lovecraft é uma de suas inspirações e isso fica claro em suas obras, principalmente em seus contos. Sua importância para o terror, de maneira geral, é imensurável. Ao lê-lo, percebemos sua criatividade e sua inteligência, com várias referências à obras antigas e personagens históricos, que existiram de verdade, o que traz certo realismo aos seus escritos, deixando-os mais instigantes.

“Refleti, de forma trivial, que há uma boa dose de patologia na personalidade de uma pessoa eminente que decaiu na vida”. In: Ar frio, p. 83

Sobre a edição

Esta edição traz alguns contos inéditos e outros presentes na grande coletânea de contos de Lovecraft ‘Grandes contos’, da própria Martin Claret. A tradução ficou por conta de três grandes nomes da tradução no Brasil, profissionais muito competentes. Uma delas deixa claro, na introdução do livro, como Lovecraft é um autor importante para o gênero do terror, assim como ele foi uma pessoa extremamente conservadora. Por conta disso, as tradutoras e a editora resolveram modificar algumas passagens que poderiam ser consideradas racistas, como situações onde personagens são comparadas a símios. Essas mudanças não retiram o brilho das obras, muito menos distorce o enredo. É apenas uma questão de bom senso por parte delas (há partes onde esse tipo de comparação ainda está presente).

Um livro muito chamativo esteticamente. Em capa dura, com acabamento em Soft Touch, que dá uma textura aveludada à capa. Utilizando cores chamativas, o projeto gráfico impressiona. Miolo em papel Pólen Soft de excelente gramatura. As páginas são grossas, quase não dá para ver o que está escrito na página de trás. Boa diagramação, fonte de bom tamanho. E detalhe: a cor da fonte é o marinho, que combina e se harmoniza com as cores utilizadas no restante do livro.

Com um texto bem revisado, temos uma bela introdução à obra lovecraftiana. Boa empreitada da Martin Claret, que, aparentemente, trará outros volumes com mais contos do autor, alguns presentes em ‘Grandes contos’, outros ainda inéditos.

“A arte mórbida não me choca, e quando um homem tem o gênio que Pickman tinha considero uma honra conhecê-lo, independentemente da direção tomada por seu trabalho”. In: O modelo Pickman, p. 132

Conclusão

Fãs de Lovecraft e de terror vão adorar essa edição. O volume apresenta os contos ‘A fera na caverna’, ‘A rua’, ‘O que vem da lua’, ‘O perverso clérigo’, ‘Ele’, ‘Ar frio’, ‘Os ratos nas paredes’, ‘O modelo Pickman’, ‘A gravura da casa maldita’ e ‘Herbert West – Reanimador’. São histórias rápidas e fáceis de ler, que irão divertir, apavorar e entreter.

Edição caprichada, digna à importância de Lovecraft para a literatura. Você teme o desconhecido? Em caso de resposta afirmativa, esse é um livro que vai te apresentar situações aterrorizantes, tirando-o do conforto, além de prender sua atenção com o clima de mistério. Muito mais do que recomendado.

“A idade é mais caridosa para com esses personagens que, apesar de sua alma elevada, são incompletos, cujo pior vício é a timidez, e que são enfim ridicularizados por todos em virtude de seus pecados intelectuais […]” In: Herbert West – Reanimador, p. 181

Minha nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins


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Todas as obras de H. P. Lovecraft estão disponíveis em domínio público. É possível acessá-las clicando AQUI (site em inglês).


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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

32 pensamentos

  1. Eu gostaria de deixar aqui a minha sincera desaprovação à atitude da editora de mudar de forma consciente trechos dos contos, em um processo chamado pelos mesmos de amortecimento que para mim não passa de censura à obra. Se os autores ficaram tão inconfortáveis ao traduzirem a obra ou se a editora não teve culhão para deixar a obra o mais parecido possível com sua versão original, então que deixassem para outra editora publicar ou outros tradutores traduzirem. Isso é uma atitude que abre precedentes horríveis, onde já se viu, alterar a obra só por que os tradutores ficaram desconfortáveis com a mesma? se foi desse jeito que o autor escreveu, deveria ser desse jeito que a obra deveria ser publicada. Graças a essas atitudes isso atrapalha o estudo da obra do autor. Se baseando nesses textos, como eu posso abrir um debate sobre o autor ser racista ou não em suas obras se o texto foi alterado?

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    1. Realmente, houve esse amortecimento. Acredito que não muda muita coisa, mas deturpa a obra do autor. Se hoje escrever certas coisas pode ser alvo de críticas, ser considerado um preconceito, na época do autor isso não era visto dessa forma. Mês que vem sai o primeiro volume de Lovecraft pela editora Darkside, vamos ver como eles trataram a obra. Vamos esperar que tenham optado por um caminho diferente.
      Um grande abraço, obrigado por comentar!

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      1. Sim… Mas de um tipo muito específico. Lembro de um conto de um homem que encontra um livro, que afinal era o necronomicon, e dpeois disso tudo acontece… Mas é um terror que “cresce” sem pressão. Sem forçar. Sem “hollywood” no meio…

        Curtido por 1 pessoa

  2. Muito boa resenha Alan; não conheço o autor, mas fiquei interessado na resenha mesmo.
    Não consigo resenhar você poderia me dar umas dicas?
    Qual autor fácil de encontrar pra baixar na internet você indicaria pra tentar resenhar?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Muito obrigado!
      Bem, eu acredito que não há muito segredo. Leia o livro e tente coletar o máximo de informação possível. Depois você escreve sua experiência com a leitura, suas impressões, altos e baixos. Algo que ajuda é dividir o texto em tópicos, facilita a leitura e compreensão.
      Não sei se existe livro fácil de resenhar ou não. Acho que fica mais fácil falar sobre algo que você gosta e possui maior intimidade. Um gênero literário que você gosta de ler, para começar.

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  3. Ler Lovecraft é sem dúvida uma experiência para além do gênero. Penso que ele entrelaça sua narrativa com passagens que nos remetem a outros gêneros com muita, digamos, espontaneidade. Gosto de ler seus contos. Muito bom, Alan. Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Foi o primeiro livro de contos que li dele. Gostei muito. Não diria que esses contos são aterrorizantes, porém são muito criativos e gostosos de ler. Com certeza, como você disse, o autor vai além do gênero. Vale a pena conhecê-lo.
      Obrigado pelas palavras.
      Abraço, bom feriado.

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