A SOCIEDADE A PARTIR DE DURKHEIM

A sociedade contemporânea vive e se organiza de maneira individualista, por conta do modelo econômico em que estamos inseridos: o capitalismo. O sentimento de pertencer ocorre em âmbitos mais estreitos, como pertencer à família. É raro ter o sentimento de pertencer a algo que extrapole os limites da família, como pertencer à comunidade onde se vive.

Os laços que prendem os indivíduos nos mais diferentes tipos de sociedade são dados pela solidariedade social. Segundo Émile Durkheim, essas solidariedades podem ser do tipo mecânica e orgânica (Ribeiro, 2016).

Para melhor compreender o conceito de solidariedade social, temos que entender dois conceitos: a consciência coletiva e a consciência individual. A consciência individual, como o próprio nome diz, é própria, possui características peculiares, ligada à nossa personalidade, de certo modo. Já a consciência coletiva seria a combinação de todas as consciências individuais, influenciando-as. Os valores morais referem-se aos sentimentos comuns do grupo onde se está inserido enquanto indivíduo, sendo transmitida pela vida social, de geração em geração (Ribeiro, 2016).

Podemos usar como exemplo de solidariedade mecânica grupos indígenas isolados. O sentimento de pertencimento entre os índios é muito maior do que o de populações de grandes centros industrializados. Há uma consciência coletiva muito maior. O desejo individual é o desejo coletivo. Na solidariedade orgânica perde-se o vínculo coletivo. Como no modelo de trabalho capitalista, onde há a divisão do trabalho, cada pessoa torna-se parte de uma grande engrenagem de um sistema individualista (Ribeiro, 2016).

Da maneira que vivemos atualmente, não prestamos atenção ao que ocorre a nosso redor. Fazemos o mesmo trajeto todos os dias, visitamos os mesmos centros comerciais, as mesmas ruas. Apesar disso, não sentimos que fazemos parte desse ambiente, sequer notamos as pessoas inseridas nele.

Ações que visam promover o bem são valorizadas pela sociedade. Quem faz um ato de caridade é bem visto. Podemos dizer que a sociedade (suas regras morais) induz e incentiva os indivíduos a serem caridosos. Isso pode se encaixar na ideia de fato social.

Os fatos sociais consistem em maneiras de agir, pensar e de sentir exteriores ao indivíduo e dotadas de um poder coercivo. Não deve ser confundido com fenômenos psíquicos, muito menos orgânicos. Deve-se reservar e atribuir a eles qualificações sociais (Durkheim, 2001).

Como vivemos em uma sociedade orgânica, há a intenção de que uma pessoa possa desejar o bem à outra, fazendo um gesto simples, mas que a arrancará do estado individualista.

“[…] ainda que o imperativo social dado pela consciência coletiva seja enfraquecido numa sociedade de solidariedade orgânica, é preciso que este mesmo imperativo se faça presente para garantir minimamente o vínculo entre as pessoas, por mais individualistas que sejam. Do contrário, teríamos o fim da sociedade sem quaisquer laços de solidariedade”. (Ribeiro, 2016)

Qualquer fato social é imitado, com tendência para generalizar-se. Sua capacidade de expansão não é a causa, mas a consequência de seu poder sociológico (Durkheim, 2001).

Ervin Goffman diz algo interessante sobre os vínculos que unem os indivíduos a entidades sociais, e que se relacionam ao objetivo desse trabalho:

“[…] A participação do indivíduo na entidade — uma ideologia, uma nação, um ofício, uma pessoa ou mesmo uma conversa — terá alguns aspectos gerais. Sentirá obrigações: algumas serão duras, pois incluem alternativas obrigatórias, trabalho a ser realizado, serviço a ser cumprido, tempo ou dinheiro gastos; outras serão mais suaves, pois exigem que sinta participação, identificação e ligação emocional. Portanto, a participação numa entidade social impõe compromisso e adesão”. (Goffman, 1974, p. 147-148)

Referências Bibliográficas:

DURKHEIM, Émile. O que é um fato social? In: DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martin Claret, 2001. Cap. 1. p. 31-40.

GOFFMAN, Ervin. Agir e ser. In: GOFFMAN, Ervin. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 1974. p. 147-158.

RIBEIRO, Paulo Silvino. “Émile Durkheim: os tipos de solidariedade social“; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/sociologia/Emile-durkheim-os-tipos-solidariedade-social.htm>. Acesso em 18 de setembro de 2016.

Alan Martins

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Imagem de Émile Durkheim, em domínio público. Disponível em: http://marde-rooz.com/wp-content/uploads/2015/12/fb1669.jpg.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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