Minhas Leituras #24: O médico e o monstro – Robert Louis Stevenson

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“Um clássico da literatura gótica e do horror”

Título: O médico e o monstro: o estranho caso do dr. Jekyll e sr. Hyde
Autor: Robert Louis Stevenson
Editora: Penguin-Companhia
Ano: 2015
Páginas: 160
Tradução: Jorio Dauster
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“Causei a mim próprio uma punição e um perigo que não posso revelar. Se sou o maior pecador, sou também o maior sofredor […]” (STEVENSON, Robert Louis. O médico e o monstro: o estranho caso do dr. Jekyll e sr. Hyde. Penguin-Companhia das Letras, 2015. p. 96)

Poucos livros conseguem se tornar ícones de um gênero literário. A obra de maior sucesso de Stevenson é lembrada até hoje, mais de cem anos após sua publicação original, em 1886. A grande maioria das pessoas já ouviu falar em ‘O médico e o monstro’, inspiração para diversos autores, livros, filmes e peças de teatro. Um clássico da literatura gótica e do horror, que vai muito além da intenção de espantar o leitor: é também uma leitura do homem e de seus desejos mais obscuros.

Quebrando a tradição familiar

Stevenson foi membro de uma família tradicional de engenheiros, muito famosos na Escócia. Foram responsáveis pela construção dos mais conhecidos faróis da região. Esse também seria o futuro do autor, caso ele não decidisse estudar direito.

Escrever sempre foi o que ele quis, uma arte que amava. Teve contos publicados desde seus vinte e um anos de idade. Se casou com Fanny Osbourne, uma estadunidense alguns anos mais velha. Ela possuía um filho de outro casamento, com o qual Stevenson chegou a publicar uma obra em conjunto, mais tarde. Os três passaram por algumas dificuldades financeiras até a carreira do autor escocês deslanchar, com a publicação de ‘O médico e o monstro’ (originalmente publicado como ‘Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde’, ou ‘O estranho caso do dr. Jekyll e sr. Hyde’; brasileiro gosta de criar títulos diferentes dos originais, alguns que até dão spoiler).

O romance foi um sucesso, chegando à marca de cerca de quarenta mil cópias vendidas, seis meses após sua publicação. Dessa forma, Stevenson conseguiu fama e dinheiro, podendo escrever com mais tranquilidade. Seu sucesso foi tão grande que, os temas presentes em sua obra-prima, inspiraram diversos autores, entre eles Oscar Wilde, autor de ‘O retrato de Dorian Gray’. Além disso, o termo “dr. Jekyll e sr. Hyde” foi cunhado para descrever pessoas com vidas aparentemente normais, mas que guardavam algum mistério.

A morte prematura do autor, vítima de tuberculose (a doença dos artistas), ocorreu em 1894. Uma pena, pois ele ainda poderia ter contribuído muito para a literatura e diversas obras incríveis poderiam terem sido escritas.

“Não, senhor, tenho uma regra: quanto mais esquisito parece, menos eu pergunto”. p. 66

Pequena-grande obra

Esse romance possui 89 páginas nessa edição, é pouco maior que uma novela. Mesmo com poucas palavras, Stevenson conseguiu dizer muita coisa.

A história é narrada em terceira pessoa, pela perspectiva de Utterson, advogado e grande amigo do dr. Jekyll, um próspero médico londrino. Certo dia, Utterson fica sabendo sobre um tal sr. Hyde, que dizem frequentar a casa do celebre doutor. Isso instiga o advogado, que começa a suspeitar de um golpe, pois ele cuidava da herança de Jekyll.

Porém, o advogado acaba descobrindo muito mais do que imaginava. Em uma Londres gótica, onde a penumbra reina em conjunto com a névoa, coisas inimagináveis ocorrem. As aparências enganam, os olhos não conseguem ver nem 50% dos fatos, e é isso que Utterson vai acabar descobrindo ao longo do livro.

Causei a mim próprio uma punição e um perigo que não posso revelar. Se sou o maior pecador, sou também o maior sofredor […]” p. 96

Enxergando além do visível

Este é um daqueles livros repletos de interpretações, para se ler nas entrelinhas. Há coisas para serem decifradas em quase tudo. Comecemos pelo nome Hyde, que soa como hide, (esconder ou ocultar, em inglês). Uma das interpretações é essa, ocultar os desejos mais desagradáveis, porém que estão presentes em todos nós. O mesmo ocorre com o nome Jekyll, com as quatro últimas letras formando a palavra kill (matar em inglês). Matar também é um desejo nada agradável, que deve ser mantido escondido.

Interpretando a obra pelo viés da psicanálise, vemos o ego e o id (o eu e o isso, como Freud escreveu). O id representa nossas pulsões mais incontroláveis, os desejos mais animalescos. É a parte do aparelho psíquico que está sempre em busca do prazer; geralmente essas pulsões estão sob controle do superego e pelos mecanismos de defesa. Em indivíduos neuróticos (os “normais”), as questões inconscientes estão recalcadas, elas não são conscientes, não se tem acesso a elas. Isso garante uma vida saudável, equilibrada.

No livro, vemos o dr. Jekyll como o ego e o sr. Hyde como o id. Hyde é uma busca eterna pelo prazer, pelos desejos mais imorais. É dito que não se pode viver um prazer pleno, o nirvana, ninguém suportaria tal situação. Além disso, o id é o desconhecido, pois o que está inconsciente é algo que não se sabe a respeito, à primeira vista. A estranheza que o sr. Hyde representa nos mostra isso: ninguém suporta ver o prazer pleno, e se estranha com aquilo que se desconhece.

É uma narrativa de dualidade. Somos bem ou mal, ou somos os dois? Essas interpretações mostram a grandeza da obra e do autor, por isso foram inspiração para diversas outras obras e ainda continua sendo.

“Todos concordavam num único ponto: a perturbadora sensação de uma deformidade não identificada que tanto impressionava a quem o tinha visto”. p. 87

Sobre essa edição

Uma das características das edições da Penguim-Companhia são os extras. O livro conta com um prefácio de Luiz Alfredo Garcia-Roza, falando sobre como a obra de Stevenson foi importante para a literatura de mistério, e uma introdução escrita por Robert Mighall, Ph.D. em ficção gótica e ciência médico-legal vitoriana na Universidade de Wales, onde comenta sobre as diversas interpretações possíveis a partir da leitura de ‘O médico e o monstro’.

A capa segue o padrão de publicação do selo, uma versão paperback, contando com boa diagramação e papel Pólen Soft para o miolo do livro. A tradução ficou por conta de Jorio Dauster, um diplomata e empresário brasileiro, que já traduziu dezenas de livros. Tradução muito boa, assim como o trabalho de revisão, que apenas deixou passar um errinho (ao menos que eu percebi). As diversas notas presentes na edição complementam e ajudam a localizar o leitor na gótica Londres do século XIX criada por Stevenson.

“Às vezes penso que, se soubéssemos tudo, ficaríamos mais satisfeitos em partir”. p. 95

Um clássico que deve ser lido

A leitura do livro não parece datada, não se utilizou de palavras difíceis, nem cansativas. É uma leitura fluida, rápida e divertida. O livro sempre busca o mistério e algumas partes são narradas através de cartas, algo comum nos livros de horror daquela época. Existem diversas edições do título disponíveis no mercado, esta consta com uma boa tradução e alguns extra bem legais, além de ser barata. Caso esteja procurando um livro de mistério e horror, este é uma boa pedida.

“Outros virão, outros me superarão nessas mesmas linhas; e ouso sugerir que o homem será um dia conhecido como um conjunto de cidadãos multifacetados, incongruentes e independentes”. p. 125

Minha nota: (de 0 a 5): 4,5

Alan Martins

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Tubos de ensaio e uma silhueta deformada; que clichê!

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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