Minhas Leituras #21: Rosto de caveira, os filhos da noite e outros contos – Robert E. Howard

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“A editora está de parabéns, mas precisa melhorar”

Título: Rosto de caveira, os filhos da noite e outros contos
Autor: Robert E. Howard
Editora: Martin Claret
Ano: 2013
Páginas: 306
Tradução: Bárbara Guimarães
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Eu passei a acreditar que a humanidade flutua sobre as margens de oceanos secretos dos quais não tem nenhum conhecimento. HOWARD, Robert E. Rosto de caveira, os filhos da noite e outros contos. Martin Claret, 2013. In: Na floresta de Villefore, p. 176-177.

A polêmica editora Martin Claret, após sofrer acusações e processos por conta de plágio em suas traduções, o que ocasionou no fracasso da venda de partes de suas ações à Objetiva, em 2007, resolveu se redimir e investir em obras clássicas, de domínio público, com traduções próprias. Pode-se notar, hoje, uma grande quantidade de livros da editora nas lojas, tanto físicas quanto virtuais, em edições caprichadas e com preços acessíveis. Buscando a atenção do público mais jovem, trouxe ao Brasil uma coletânea com algumas histórias de Robert E. Howard, um dos maiores escritores de fantasia e terror dos EUA, que fez grande sucesso nas décadas de 1920 e 1930.

Um pouco sobre o autor

Robert Ervin Howard escreveu diversos contos para a revista pulp ‘Weird Tales’, especializada na publicação de fantasia e terror. Foi um dos nomes mais presentes na revista, que publicava autores conhecidos, como H. P. Lovecraft, com o qual Howard criou uma forte amizade.

Foi o criador do gênero conhecido como sword and sorcery, que são histórias fantásticas, com grandes heróis, monstros e muita luta de espadas. Os RPGs dos anos 1980 remetem muito a esse gênero. O maior sucesso do autor, ícone do sword and sorcery, é Conan, o bárbaro, que é conhecido até hoje, no cinema e nos quadrinhos.

Obteve fama e conseguiu ganhar bastante dinheiro com as vendas de suas histórias, porém foi uma pessoa com a saúde mental debilitada, dizem que sofria de uma forte depressão. Acabou se suicidando, aos 30 anos de idade, após saber que sua mãe, que estava muito doente, não possuía mais chances de vida. Sua morte foi muito sentida por H. P. Lovecraft e a literatura de fantasia e terror perdeu um dos seus grandes ícones. Por sorte, anos depois, o gênero fantasia voltou a ver os dias de glória e se agigantou, com os grandes trabalhos do mestre J. R. R. Tolkien.

“[…]enxergava em você não o bêbado arruinado que as suas roupas esfarrapadas indicavam, mas uma alma ferida, uma alma terrivelmente machucada nas trincheiras da vida”. In: Rosto de caveira, p. 69

Uma mistura de diferentes gêneros

A edição traz uma novela, ‘Rosto de caveira’, e alguns contos: ‘Na floresta de Villefore’, ‘Cabeça de lobo’, ‘A serpente do sonho’, ‘A hiena’, ‘A maldição do mar’, ‘O aterrorizante toque da morte’ e ‘Os filhos da noite’.

Algumas histórias são de ação e aventura, a África é uma temática muito utilizada pelo o autor e também é o cenário para algumas das histórias. ‘Rosto de caveira’ é uma mistura de fantasia e história de detetive e fala sobre o tráfico e vício em drogas, como o haxixe e o ópio (antigamente existiam diversas “casas de ópio”, um local frequentado por usuários da droga). Outros contos pendem mais ao terror, com histórias de lobisomens, fantasmas e monstros marinhos.

É possível notar uma grande influência das lendas criadas por Lovecraft, um autor que Howard admirava muito, porém seu toque particular faz com que suas narrativas sejam originais. As batalhas corporais e com armas são muito bem descritas e imersivas, é um ponto forte na escrita do autor. Seus temas são um pouco clichês e batidos, hoje em dia. Apresenta vilões canastrões, que riem malevolamente, e mocinhos que resgatam donzelas em perigo. Apesar de se tratar de contos escritos há mais de 80 anos, a escrita ainda é atual, não se parecem com obras antigas, como alguns clássicos do modernismo. A fantasia é um gênero atemporal.

“A morte era uma coisa pavorosa, um terror de abalar a mente, concedendo a um homem sem vida uma malevolência horrorosa”. In: O aterrorizante toque da morte, p. 276

A editora se redimiu, mas ainda precisa melhorar

O esforço da Martin Claret para ganhar espaço no mercado literário brasileiro é notável. Temos aqui uma edição produzida com muito cuidado, fazendo um grande apelo visual. Apesar de ser uma edição em capa simples, com orelhas, o projeto gráfico foi feito com esmero, com páginas que apresentam cores, dando um aspecto muito bonito ao interior do livro, nas partes que separam os capítulos. O papel utilizado no miolo é o Pólen Soft, aparentemente, pois a editora não informa isso, como muitas fazem na última página de seus livros; porém se trata de um papel amarelado (off-white), não o branco. A diagramação está excelente para a leitura, com margens amplas.

Bárbara Guimarães foi a tradutora que desempenhou um ótimo trabalho, as escolhas de palavras não deixaram dúvidas e apresenta algumas notas de rodapé para facilitar o entendimento de certos termos. Há uma apresentação de Lilian Cristina Corrêa, doutora em Letras, onde escreve um pouco sobre a literatura fantástica, suas origens e influências, algo que complementa a leitura, trazendo um pouco mais de conhecimento e não apenas o entretenimento.

Apesar de todos esses pontos positivos, a editora precisa melhorar em alguns. Há muitos erros ortográficos nesse livro, que passaram batidos pela revisão. Teve até o número 0 (zero) saindo entre palavras (um exemplo: palavra0). São alguns erros bem grotescos. Se fossem um ou outro tudo bem, mas foram vários. E, em algumas partes das histórias, os diálogos ficam um pouco confusos, pois não há a utilização de travessão ou aspas para indica-los. Vemos que a editora deseja crescer e apresenta edições com grande apelo físico e com boas traduções, porém precisa melhorar na revisão, caso queira abarcar uma grande fatia do mercado editorial brasileiro. Mesmo que esses erros não comprometam o entendimento, poderiam ser evitados e deixam o texto feio.

“Como dois navios à deriva nas margens da vida, havíamos flutuado até nos encontrar[…]” In: Rosto de caveira, p. 73

É um livro recomendado, sim

Os fãs de fantasia e terror vão adorar conhecer algumas das obras de Robert E. Howard, um dos mestres desses gêneros. A Martin Claret está de parabéns por trazer ao Brasil um livro que foge do padrão dos best-sellers e livros young adults, que são a maioria por aqui. É uma leitura rápida e gostosa, que nos faz lembrar de filmes de terror e ação trash dos anos 1970 e 1980. Tente ignorar os erros que foram apontados acima, que não vão prejudicar a leitura e aprecie um autor pouco difundido por aqui. Howard criou muito mais do que apenas Conan e merece seu lugar nas prateleiras dos leitores de fantasia e terror do Brasil.

“E, acima de tudo, por que devo ser um homem que nunca vi nem ouvi falar?” In: Rosto de caveira, p. 54

Minha nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins 

Referência

Link para a matéria da Folha de São Paulo, que fala sobre os processos contra a Martin Claret: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0411200716.htm


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Será que essa caveirinha aí faz alguma alusão ao título? 🤔

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

29 pensamentos

  1. Por coincidência vi esse livro na livraria outro dia, e reconheci o nome do autor como o criador do Conan, o Bárbaro. Fiquei curioso para ler esse livro também, ainda mais depois de ter lido a resenha. (Alan vais fazer com que eu gaste meu dinheiro todo em livros… hahahah)

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ha ha, minha intenção não é deixar ninguém pobre, não! 😂
      Se você curte Conan, vai gostar de conhecer essas outras obras do autor, que são bem divertidas, revolucionárias para sua época. Recomendo, pois é a única edição com contos de Robert E. Howard que pode ser encontrada.
      Fico feliz que tenha gostado do post. Obrigado. Grande abraço.

      Curtido por 1 pessoa

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