Minhas Leituras #18: Travessuras da menina má – Mario Vargas Llosa

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“As dores do amor”

Título: Travessuras da menina má
Autor: Mario Vargas Llosa
Editora: Alfaguara
Ano: 2006
Páginas: 304
Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht
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Bem, no fundo eu sabia que [ela] nunca seria uma mulher normal. Nem queria que fosse, porque o que amava nela era também o indômito e imprevisível da sua personalidade. (LLOSA, Mario Vargas. Travessuras da menina má. Alfaguara, 2006, p. 240)

Ao ler a citação acima, já é possível obter uma ideia sobre a personalidade da menina má e do amor que o protagonista sente por ela. Sim, esse é um romance sobre uma história de amor, entretanto não se trata de um livro que fica preso a isso. Vargas Llosa consegue proporcionar ao leitor tanto uma história sobre um amor que perdura anos, recheada de momentos bem quentes, como também uma breve história da América Latina e sua situação política nas décadas de 60, 70 e 80.

Ricardito, o eterno apaixonado

Ricardo Somocurcio, um peruano, protagonista do livro, sempre teve o sonho de viver em Paris. Ele realiza esse feito após sua graduação na faculdade. Já na França, consegue um emprego na UNESCO, trabalhando como tradutor e intérprete. Sua profissão lhe permite viajar pelo mundo. Isso faz história se passar em diversos países, como Peru, França, Inglaterra, Japão e Espanha. Esses diferentes cenários proporcionam breves descrições culturais das épocas em que são apresentados na narrativa. A Paris revolucionária, a Londres hippie, a exótica Tóquio, a pobre cidade de Lima, com seus problemas sociais, e a variedade cultural de Madri.

Desde sua adolescência, Ricardo se vê apaixonado pela menina má, uma personagem fria, oportunista e cheia de diferentes faces, um verdadeiro camaleão. O objetivo dessa mulher é apenas o dinheiro e viver bem, vivendo à beira do precipício. O amor do protagonista dura por décadas. A história dos dois é um jogo de encontros e desencontros pela Europa e pelo mundo. Nosso protagonista sente uma enorme paixão e desejo por essa figura que o faz sofrer e também o faz feliz. E o que a menina má sente por ele? Isso nunca é claro, porém ela necessita de Ricardo. Ela é imprevisível, sempre imaginamos qual será sua próxima travessura.

“— Eu nunca disse “gosto de você”, “amo você” sentindo de verdade. A ninguém. Só disse essas coisas de mentira. Porque eu nunca amei ninguém, Ricardito. Menti para todos, sempre. Acho que o único homem a quem nunca menti na cama foi você”. p. 102

Um autor premiado

Mario Vargas Llosa é um dos nomes que encabeçaram o movimento literário conhecido como Boom Latino Americano, nas décadas de 60 e 70. Esse movimento é marcado pela expansão da literatura latino-americana, com diversos autores alcançando reconhecimento mundial. Llosa venceu diversos prêmios literários, sendo o vencedor do Nobel de Literatura em 2010.

É um escritor que se interessa muito por assuntos políticos e históricos sobre a América Latina. Já se candidatou à presidência de seu país, o Peru, em 1990, sendo derrotado no segundo turno por Alberto Fujimori. Isso se reflete em seus livros, que possuem alto teor político e histórico.

Em “Travessuras da menina má” isso não é diferente. Com sua leitura, conhecemos um pouco sobre os movimentos revolucionários que ocorriam na América do Sul, com foco maior no Peru, onde o MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria) buscava implantar a revolução, assim como em Cuba, país que patrocinava esses movimentos. Esses movimentos de esquerda sempre sofreram repressão dos militares, que se fortaleciam, chegando a implantar ditaduras em diversos países latino-americanos. Além disso, um pouco do que ocorria na Europa durante os anos 60 e 70 é descrito pelo autor.

“Era óbvio, a menina má nunca deixaria de me surpreender com suas audácias indescritíveis”. p. 132

Amor romântico

Como um personagem do livro descreve, esse tipo de amor é o pior, o que mais machuca, pois causa um sentimento de necessidade. É assim que o protagonista se sente. Seu amor pela menina má beira o ridículo, porém é um amor verdadeiro, que dura a vida toda. É muito fácil sentir pena dele, pois sua vida não é nada fácil, recheada de momentos ruins. Em muitos pontos da leitura, vamos ficar nervosos com as ações idiotas de Ricardito e pensar “Como pode ser tão burro?”.

Sobre a menina má, bem, ela vai encantar em certos momentos, como também vai causar indignação, com sua frieza e suas travessuras. Sua personalidade não pode ser prevista, não se sabe o que ela sente ou pensa de verdade. Suas diferentes faces é o que encanta o protagonista, ao mesmo tempo que o destrói.

Há muitas cenas de sexo, com certas partes um tanto explicitas. Ao ler o título do livro já se imagina isso, porém esse não é o grande ponto do livro, apesar de causar essa impressão. É uma verdadeira história de amor, com momentos tristes, alegres, bonitos e horríveis. Além disso, a mistura que o autor faz do realismo com a ficção deixa a narrativa mais encorpada, pois traz ao leitor algo a mais, não apenas uma historinha de sexo e amor. O livro já foi comparado à “Madame Bovary”. Para alguns críticos, o romance de Vargas Llosa é uma reescrita do clássico de Gustave Flaubert.

Narrado em primeira pessoa, pelo protagonista, o livro apresenta personagens amáveis e odiáveis, além do seu grande trunfo, a misteriosa, doce e detestável menina má. A leitura é bem tranquila, rápida e fácil. Muitas expressões locais, dos diferentes países presentes na narrativa, são apresentadas, o que causa maior realismo. Apresenta poucos diálogos e não há pausas dentro de um capítulo, como quebras que marcam uma mudança de cena. Tudo é narrado de maneira contínua. O livro é dividido em 7 capítulos longos, por isso algumas pausas seriam bem-vindas.

“— Reparei perfeitamente, até demais, há um bocado de tempo, e o pior é que não me vingo. Até parece que gosto. Somos o casal perfeito: a sádica e o masoquista”. p. 203

A edição

Essa edição que possuo, impressa em 2016, ainda apresenta a ortografia desatualizada, já que foi traduzido, pela primeira vez, em 2006. Ari Roitman e Paulina Wacht, os tradutores, já trabalharam juntos em diversas outras obras, tanto de Mario Vargas Llosa, quanto de outros autores e de outras editoras. O trabalho que executaram foi muito bom, mantendo diversas expressões, deixando texto mais próximo do original. A proximidade do idioma espanhol com o português também facilita essa aproximação, o que torna a tradução mais fiel.

Na parte física e estética, a edição segue o padrão adotado pela editora. Encadernação em brochura, capa comum com orelhas, papel Pólen Soft no miolo e boa diagramação, com fonte de bom tamanho para que a leitura não se torne cansativa. As várias reimpressões foram benéficas para a revisão do texto, sem erros grosseiros de ortografia.

Trata-se de uma história de um amor verdadeiro, com personagens inimagináveis, que cativam ao mesmo tempo que causam raiva. Leitura gostosa e despretensiosa, despertando diferentes tipos de emoção no leitor. Os momentos de sexo não estão ali apenas para ser apelativo, muito sobre o enredo é desvendado nesses momentos. O final é muito bom, o livro termina de maneira perfeita, qualquer final diferente seria um fiasco.

Minha nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins

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O título pode te deixar com uma cara tipo 😏, mas não se engane, o sexo está longe de ser o forte desse romance.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

21 pensamentos

    1. Foi o primeiro que li dele, gostei do estilo e da história em si. Me parece ser bem ao estilo dele, com o tema sexo bem aparente (muitos livros dele são desse jeito, pelo o que já pesquisei). Leia, acho que você vai gostar, é como uma releitura de ‘Madame Bovary’.
      Obrigado pelas palavras!
      Abraço!

      Curtido por 1 pessoa

  1. Do Lhosa só li “Cartas a um jovem Romancista” e “A Tia Júlia e o Escrevedor”. Mas entre a biblioteca do meu sogro e da minha casa, há vários títulos à espera de serem lidos. Gosto da prosa dele 🙂
    E depois da sua resenha, fiquei com vontade de ler esse. Obrigado!

    Curtido por 1 pessoa

      1. Acho que foi Euclydes da Cunha, em ‘Os sertões’. Você conhece o livro? Eu achei interessante o Llosa se interessar por esse assunto, alguém de outro país. Porém, ele é um cara que gosta da história da América Latina.

        Curtido por 1 pessoa

      2. Isso! Esse mesmo! Mas eu ainda não li. Tenho uma lista enorme de clássicos para ler… rs Nós também deveríamos prestar mais atenção para o resto da Améroca Latina 🙂 (falando no geral)

        Curtido por 1 pessoa

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