AS QUESTÕES QUE ESTÃO ALÉM DO ALCANCE DOS NOSSOS OLHOS

O intuito desse título, assim como o do resto do texto, é causar reflexão. Você já parou para pensar que existem questões além do concreto, além daquilo que podemos ver? Quem vive 100% no mundo palpável não compreende nem 10% dele. Sim, porque o mundo concreto e o mundo abstrato coexistem e um não existe sem o outro. Por isso que existem as ciências humanas, pois só as ciências exatas não dariam conta de explicar os fenômenos que nos cercam e fazem parte de nossas vidas, de nossos egos. Por isso que existe a filosofia, a psicologia, os estudos das línguas: para explicar os fenômenos do que estão por trás daquilo que é visível.

Algumas dessas questões

Antes de tudo, devemos compreender que somos seres biopsicossociais, ou seja, possuímos nossa estrutura orgânica (fisiológica), somos dotados de um psiquismo (questões abstratas) e somos também seres sociais (pois vivemos em sociedade, em relação com o outro). Cada um desse aspecto compõe nossa subjetividade e eles estão em sintonia entre si, numa constante interação dialética.

Nossa estrutura orgânica é aquilo que podemos observar, e a partir dela nos alertamos sobre as questões psíquicas, pois sinais físicos podem indicar que algo vai errado com o psiquismo. Nossas interações sociais afetam nosso psicológico, e vice-versa, assim como a questão orgânica. Dá para entender como tudo está relacionado e tudo faz parte de cada um de nós?

Essas interações esculpem nossa subjetividade, os aspectos que nos tornam cada pessoa única, pois cada um possui um modelo de funcionamento diferente, criado pela relação de todas essas questões ao longo de nossas vidas. Por isso o entendimento desses três mundos diferentes é essencial para a compreensão do funcionamento de determinada pessoa. Não podemos considerar apenas uma dessas variáveis, pois estaremos olhando para menos de ¼ desse indivíduo. Infelizmente, essa não é a maneira de pensar da grande maioria.

O determinismo e a falta de conhecimento

Negar que ideias deterministas ainda imperam no Brasil, quiçá no mundo, é um ato de ingenuidade ou de falta de caráter. Um bom exemplo é o de apontar o dedo para pessoas pobres e dizer: “É pobre porque quer, se trabalhasse, se não fosse vagabundo, não estaria nessa situação. Isso é preguiça!”. Uma fala muito estúpida, até porque todo mundo adora ser pobre e é pobre porque quer, né? Não, isso é uma ideia determinista carregada de preconceito. Você observou a história de vida do sujeito? Ele já nasceu pobre ou isso ocorreu em determinado momento de sua vida? Como foi sua escolaridade? Será que ele passou fome na infância, precisando trabalhar para ajudar a família, consequentemente abandonando os estudos?

É muito fácil apontar causas e razões para problemas alheios quando se vive uma vida boa, sem qualquer tipo de dificuldades. Além de que cada um possui um ciclo vida diferente, há variáveis que interferem no destino de cada um, traçando caminhos diferentes. Também é mais fácil apontar o defeito da pessoa, fazer dela ser o único motivo de suas desventuras; é mais fácil culpar a vítima do que tentar resolver o caso. Voltamos ao tópico anterior, quando se deixa uma questão de lado, as outras perdem seu valor.

Podemos ligar o determinismo à ideais elitistas, ideais que buscam a manutenção do poder. Se o problema do pobre é resolvido com mais trabalho, o rico, dono de empresas, agradece, pois haverá muito mais mão de obra, muito mais oferta. Quem sabe ele pode até oferecer piores condições de trabalho e salários mais baixos, até porque essas questões não importam, o importante e ter emprego e isso resolverá todos os problemas do mundo. O governante perpetua seus discursos e seu poder, mantendo a população na ignorância, oferecendo uma educação muito básica, de qualidade questionável, mas ainda assim sendo venerado, por ser uma pessoa muito boa e oferecer serviços gratuitos à população (gratuitos e péssimos, mas são gratuitos, oras). E assim, alguns empresários e governos se aliam, visando apenas benefícios próprios, deixando a população às traças.

Dessa maneira as ideias deterministas de perpetuam, se aproveitando da ignorância de um povo, que é incapaz de pensar por si, de ser crítico perante os fatos que interferem diretamente em suas vidas. Dessa forma o social interfere no psiquismo, que interfere no orgânico, que interfere no social e assim vai…

Relacionando isso a eventos atuais

Vamos falar sobre uma questão que está em alta nas últimas semanas e que podemos ligar a tudo o que foi apresentado até aqui. Vamos falar sobre suicídio e o jogo da baleia azul.

São assuntos muito sérios, que devem ser tratados com extremo cuidado, e que hoje estão na boca do povo. E como o povo é formado por muita gente, por gente que pensa de maneira determinista, que desconsidera diversas questões, até esse assunto que é sério, está sendo banalizado.

Encontrar piadinhas ou discursos superficiais sobre o caso da baleia azul é muito fácil, basta acessar o Facebook. Há piadas que dizem “Se essas pessoas jogassem o jogo ‘carteira azul’ – uma alusão à carteira de trabalho – elas não pensariam em se matar”. Esse é mais um exemplo de ideia determinista, que tenta dizer que o trabalho resolve todos os problemas que uma pessoa pode ter. O trabalho pode tanto solucionar, quanto causar problemas na vida de alguém. Outros discursos dizem que tudo seria resolvido com uma boa chinelada. Não passam de uma visão desfocada sobre todas as questões que englobam o suicídio e esse jogo.

Um levantamento feito pela WHO (World Health Organization), aponta que quase 800,000 pessoas cometem suicídio a cada ano, no mundo todo. No Brasil, o índice aponta que a cada 100 000 pessoas, 6,3 se suicidam. Levando em conta que o suicídio é uma contradição ao nosso instinto de sobrevivência, esse é um número alarmante.

Um olhar biopsicossocial sobre a questão

Diversas variáveis podem levar alguém a cometer o ato de se suicidar. Por isso um olhar abrangente é o mais adequado para essa situação. Até mesmo no atendimento de pessoas com comportamentos suicidas não se considera apenas uma especialidade, sendo necessário um trabalho multidisciplinar. O psicólogo, por exemplo, que atender essa pessoa não trabalhará sozinho, ele contará com a ajuda do psiquiatra, do fisioterapeuta, de todo profissional que estiver disponível para ajudar a pessoa que está em sofrimento. A família também constitui parte importantíssima dessa equipe, talvez até a mais importante. Há diversos artigos acadêmicos que abordam esse assunto, como ESSE, por exemplo.

Uma pessoa que começa a jogar o jogo da baleia azul, pode ser alguém que já pensou em se matar, ou até mesmo alguém que jamais pensou nisso, apenas um curioso. E como os mais interessados são crianças e jovens adolescentes, as pessoas por trás disso, que estão ali manipulando esses seres ingênuos, acabam desencadeando os problemas que se sucederão. Uma criança certamente ficará com medo de ameaças, mesmo que esse tal moderador more longe, pois ela é apenas uma criança. Uma pessoa com comportamentos suicidas pode encontrar no jogo um pretexto para concretizar o ato, ou ele pode funcionar como um reforçador para a ocorrência esse tipo de pensamento e comportamento. O problema não está nas pessoas, está em suas questões sociais, nas questões que englobam a vida, e também está na pessoa que comanda esse tipo de jogo.

Como encontrar uma solução?

Temos aqui uma pergunta nada simples de ser respondida. Entretanto temos alguns recursos que ajudarão. O debate sobre esse tema, o fato de estar sendo divulgado pela grande mídia, é um algo muito importante, ao menos nesse caso, já que se trata de uma mídia corrupta. Não se ouvia falar sobre suicídio antes disso, não muito. Agora todos falam sobre o tema. É preciso que um fato lastimável, de grande proporção, aconteça para que as pessoas se toquem, para que abram os olhos e passem a enxergar além. Também é muito bom ver famosos falando sobre esse assunto, pois é uma maneira mais eficaz de levar essa discussão para as camadas menos instruídas da população. Porém, não basta apenas isso.

Não é muito comum ver profissionais da saúde se pronunciando nos grandes veículos de comunicação sobre o tema, muito menos ver psicólogos debatendo, levando um argumento com mais credibilidade à população. Ainda não há esse espaço. Uma grande pena, pois quem melhor do que pessoas que estudam esse tipo de assunto para criar um debate construtivo? Não seria essa uma maneira de quebrar paradigmas e apontar a importância de um olhar biopsicossocial sobre essa e outras questões? Bem, ainda há muito o que se fazer para que isso se torne uma realidade. Até mesmo os conselhos, que deveriam proteger suas respectivas profissões, não trabalham para que essa situação se altere. Principalmente os Conselhos de Psicologia, que apresentam uma deficiência nesse olhar mais amplo perante a profissão.

Comportamentos suicidas podem indicar um pedido de ajuda, por isso é um grande erro banalizá-los. Deve-se conduzir essa situação com carinho e atenção, e contar com a ajuda de profissionais especializados e capacitados. A morte para um suicida pode representar um alivio ou libertação, porém é um grande sofrimento para quem fica, para a pessoa que ficará a vida toda buscando um porquê. São questões que envolvem o indivíduo e a sociedade, jamais será algo individual.

Textões não resolverão esses problemas, porém são grandes fontes de informação, reflexão e debate (quando escritos de forma construtiva). Qualquer forma construtiva de se colocar o tema em evidência é válida. A internet está cheia de informações boas e ruins, basta filtrá-las. O conhecimento nunca é demais. Fugir da ignorância é sempre o melhor caminho.

Fica aqui a recomendação de leitura do livro “O último adeus” (Darkside Books, 2016). Nele, a escritora Cynthia Hand narra a sobre o sofrimento de uma família, na qual um membro acabou se suicidando. Muito da história é baseado na vida pessoal da escritora, pois o mesmo aconteceu em sua família. Uma boa reflexão sobre o assunto. E é isso que espero de você ao final dessa leitura, uma maior reflexão.

Por que não tentar acolher um sujeito passando por algum tipo de sofrimento, oferecendo ajuda, orientação e afeto, ao invés de criticá-lo?

Alan Martins

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Imagem de Jim Jackson (Modificado). Publicada sob licença CC0 1.0 Universal (CC0 1.0). Disponível em: https://www.pexels.com/photo/black-and-white-man-young-lonely-48566/.

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

7 pensamentos

  1. Muito bom esse post. Sobre a baleia azul, li um texto de uma psicanalista que dizia que os adolescentes costumam viver um luto. Não são mais da mamãe ou do papai e se sentem sem chão durante um tempo. Aqueles que têm a sorte de possuir uma grande identificação com um grupo ou namorado(a) ou uma causa em que acreditem sofrem menos, mas é uma fase da vida em que muitos pensam na morte e na falta que fariam ou não. Uma família que escute e converse com o adolescente sem podar suas idéias, além de ajuda especializada (se for o caso) são importantes. Acho que isso vale para todas as fases da vida. Boa semana!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sim, cada teoria explica a situação de uma forma, mas todas concordam que a adolescência é uma fase bastante conturbada. Seria interessante se todos os pais tivessem um conhecimento básico sobre esse assunto, assim poderiam dar mais apoio aos filhos, um suporte melhor para atravessar essa fase do nosso desenvolvimento. Obrigado pela leitura e uma boa semana para você também!

      Curtido por 1 pessoa

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