Minhas Leituras #14: Ouça a canção do vento & Pinball 1973 – Haruki Murakami

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“O início de um grande autor”

Título: Ouça a canção do vento & Pinball 1973
Autor: Haruki Murakami
Editora: Alfaguara
Ano: 2016
Páginas: 264
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Tradutora: Rita Kohl

Onde há uma entrada, há sempre uma saída. A maioria das coisas é assim. Caixas de correio, aspiradores de pó, zoológicos, garrafas de shoyu. Também tem coisas que não são assim, claro. Ratoeiras, por exemplo (Murakami, 2016, p. 139).

Um ícone da literatura japonesa

Talvez a literatura japonesa não seja a literatura estrangeira mais difundida no Brasil, a influência dos animes e dos videogames japoneses parece ser muito maior do que a da literatura por aqui. Entretanto, Haruki Murakami, um dos maiores nomes da escrita japonesa da atualidade, é muito apreciado pelos brasileiros. Murakami é um autor aclamado mundialmente, vencedor de diversos prêmios, com toda certeza seu nome será lembrado por muitos anos. Ouça a canção do vento & Pinball 1973 são suas primeiras publicações. Trata-se de duas novelas que, junto do romance Caçando carneiros (Alfaguara, 2014), fazem parte de uma trilogia, a trilogia do Rato. As duas novelas foram publicadas separadamente, em 1979 e 1980 respectivamente, porém a editora Alfaguara publicou-as juntas em um único livro, pela primeira vez no Brasil.

A edição traz uma introdução escrita pelo próprio Murakami, onde ele fala um pouco sobre sua juventude e o início de sua vida como escritor, que tem tudo a ver com essas duas novelas. Podemos classifica-las como uma literatura surreal, já que apresentam um mundo real, do Japão do final da década de 1960 e início de 1970, mas de uma forma inacreditável, com personagens agindo de maneira fora do comum, com um enredo um tanto quanto nonsense. Ao ler a introdução, notamos que o início de Murakami na literatura também se deu de forma surreal, ao menos segundo como ele descreveu. Além desse, li apenas um outro livro do autor até o momento em que escrevo esse post, Norwegian Wood (Alfaguara, 2008). Este também pode ser classificado como surreal, apresentando situações inimagináveis para uma vida comum. Assim, podemos dizer que o estilo de escrita de Haruki é apenas um reflexo de sua própria vida.

Relação entre suas obras e suas influências

Podemos perceber muitas semelhanças entre Ouça a canção do vento & Pinball e Norwegian Wood. As personagens são jovens, universitários, adoram tomar cerveja e fumar cigarros, o estilo da escrita é bem semelhante, há a citação de muita literatura, uma personagem chamada Naoko está presente em ambos os livros, alguns personagens se assemelham. Essa impressão de semelhança se formou no decorrer da leitura. Muito da vida do autor está presente em ambos os livros também, sua história pessoal ajuda a formar o enredo e as personagens das duas obras.

Por serem as primeiras obras publicadas de Murakami, nota-se uma falta de maturidade na construção das histórias; até por isso ele não gostou muito da publicação de ambas para o inglês, não de início, pois afirmava se tratar de escritos de um autor ainda amador. Porém, fica claro que ele seria um autor de sucesso, temos aqui um esboço de um grande escritor, além de sua forma de escrita particular. Mesmo que Murakami julgue as duas novelas como trabalhos amadores, não podemos julga-las como ruins. Não, a escrita em ambas é boa e é notável uma evolução na segunda. Isso se deve ao fato do autor ser um leitor voraz, amante dos clássicos, que influenciam suas obras. Um autor em que ele parece se basear muito é Franz Kafka, pois sua escrita se assemelha ao do brilhante autor tcheco. Se você se interessar, confira a resenha que fiz sobre o livro Essencial Franz Kafka, clicando AQUI.

O enredo

Vamos agora para o enredo de Ouça a canção do vento & Pinball 1973. A primeira se passa durante as férias de verão do protagonista sem nome, em sua cidade natal, também sem nome. Narrada em primeira pessoa, a história é sobre esse protagonista e seu amigo, o Rato. Não há muitas personagens, além dos dois protagonistas há o dono do bar onde grande parte do enredo acontece, seu nome é J, e há uma moça que o protagonista conhece ao longo da novela. Não há um objetivo em si nesse enredo, o próprio narrador apresenta, em primeira pessoa, um pouco sobre sua vida, um pouco sobre seu passado e o que acontece durante uma determinada férias de verão. O tom da escrita é um pouco filosófico. Murakami misturou elementos da realidade com fictícios, assim como Carlos Ruiz Zafón faz com maestria – veja a resenha de seu livro Marina (Suma de Letras, 2001) AQUI. O protagonista fala sobre o autor fictício Derek Hartfield, que até parece que realmente existiu pela forma que nos é apresentado. Os temas dessa novela são amadurecimento, descoberta da sexualidade e há um momento onde se fala sobre aborto. Ouça a canção do vento é dividida em vários capítulos bem curtos, que podem ser lidos de maneira muito rápida.

Pinball 1973 é um pouco mais longo que a anterior, apresentando menos capítulos, porém maiores. A história ocorre um pouco depois dos eventos da primeira, seguindo a vida do protagonista sem nome e do Rato. Aqui, o surrealismo é ainda maior. Também é difícil dar algum objetivo ao enredo, que é sobre pinball, assim como o título indica. Uma história sobre o mundo do pinball é criada por Murakami, também sintetizando realidade com ficção. Esse é um jogo muito apreciado pelo protagonista sem nome e pelo Rato, fazendo parte da juventude de ambos. O protagonista, que agora vive em Tóquio e trabalha com traduções (outra semelhança com a vida de Murakami), vive em uma casa com duas jovens gêmeas que apareceram por lá do nada. Ele procura por uma máquina de pinball em específico, a Spaceship, que é muito rara e que fez parte de sua vida. Sim, são coisas que não fazem muito sentido, e isso dá um toque de humor em ambas as novelas. A escrita de Murakami também é influenciada pela música, ele cita diversas canções e artistas em todos os seus livros, pois é um grande fã dessa arte, em principal do jazz. A história é narrada em primeira pessoa pelo protagonista sem nome, porém, os capítulos sobre o Rato são apresentados em terceira pessoa, já que eles não se encontram em nenhum momento. Pinball 1973 é um pouco mais divertida do que a primeira.

Descubra Murakami

Este livro é uma grande oportunidade para conhecer o autor, caso você ainda não conheça nenhuma de suas publicações. Será possível ver a evolução de sua carreira artística e de suas habilidades como prosador, além de poder conferir que, desde cedo, Murakami possuía o dom da escrita. Além disso, trata-se do início de uma trilogia, então é melhor ler esse livro para depois mergulhar em Caçando Carneiros, que ainda vou ler e trazer uma resenha. Muito melhor começar por esse do que por Norwegian Wood, que pode se tornar um pouco enfadonho, afastando o leitor das demais obras do autor. Dance dance dance (Alfaguara, 2015), funciona como um epílogo para a trilogia do Rato, porém é um pouco desconexa do enredo.

Sobre a edição

A editora Alfaguara caprichou bastante nessa edição. Possui capa dura, com um belo degrade, que também está presente nas bordas do miolo, veja a imagem abaixo, tornando o livro bastante chamativo em uma prateleira (principalmente se você julga os livros pela capa). Esteticamente, é um dos mais bonitos que já vi. O miolo é em papel Pólen Soft de boa qualidade e boa diagramação para a leitura. A tradução foi feita do japonês pela tradutora Rita Kohl e ficou muito boa. Há apenas alguns erros de sintaxe, encontrei umas três palavras escritas de maneira incorreta.

Resumindo

Um livro de leitura fácil e rápida. Não é o melhor do mundo, por se tratar das primeiras escritas do autor, e até ele concorda nisso. Uma boa introdução para a literatura japonesa (não tão japonesa assim, já que Murakami é muito influenciado pela cultura ocidental e é até criticado por isso em seu país). Surrealismo ao pé da letra.

Minha Nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins

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Edição caprichada, muito linda. A editora não mediu esforços na parte estética.

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Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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