Minhas Leituras #11: Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? – Philip K. Dick

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“Ficção científica e filosofia”

Título: Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?
Autor: Philip K. Dick
Editora: Aleph
Ano: 2014
Páginas: 272
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O que nos torna humano? O que nos diferencia de outras coisas? Seria a empatia? Essa talvez seja a principal questão abordada por Philip Kindred Dick em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?. Livro que não é apenas uma simples ficção científica, das boas aliás, mas é um livro que aborda questões sobre o ser humano, com grande teor filosófico.

A trama ocorre em São Francisco, no ano de 1992 (no original, pois essa data foi alterada em edições publicadas posteriormente). Somos apresentados a um mundo distópico, que entrou em colapso após uma guerra nuclear, sendo tomando pela poluição e pelo bagulho (sujeira, lixo). Uma camada de Poeira (em maiúsculo, como no livro) radioativa cobre a atmosfera, não sendo possível ver o céu, o sol, a lua e nem as estrelas. Essa Poeira matou a maioria dos animais, transformando os animais vivos em “bens” extremamente valorizados. Os animais não foram os únicos afetados pela poeira, muitos humanos sofreram alterações cerebrais por conta dela, o que resulta em grandes incapacidades mentais. Essas pessoas afetadas pela Poeira são chamadas de Especiais, ou Cabeças de Galinha, pelos demais; são pessoas desprezadas e segregadas, que vivem em locais abandonados e afastados dos grandes centros, trabalhando em empregos que requerem menos capacidade intelectual, além de não serem admitidos nas colônias. A Terra já não é tão densamente habitada como antes, muitos emigraram para colônias espaciais, como as que existem em Marte, para fugir desse mundo desolado. Foi necessário encontrar uma forma de que a exploração de novos planetas se tornasse viável, isso impulsionou a criação de androides, que a cada dia ficavam mais inteligentes e mais parecidos com os seres humanos. Alguns androides acabavam se rebelando, pois viviam como servos. Assim encontravam um meio de fugir para à Terra, onde não são bem-vindos, já que eles são capazes de matar qualquer um que atrapalhasse seus planos de viver como um humano.

Uma profissão foi criada para o propósito de caçar esses androides rebeldes: os caçadores de recompensa, uma unidade da polícia. Eles recebem uma quantia em dinheiro por cada andy que aposentam (eliminam). Rick Deckard, o protagonista, é um caçador de recompensas que recebe a tarefa de aposentar seis androides Nexus-6 (nada a ver com os smartphones da Motorola), que são o que há de mais avançado em tecnologia. E isso tudo em apenas um único dia. O livro todo se passa em apenas um dia da vida de Deckard.

Se os androides são tão parecidos com os humanos, como diferencia-los, para não matar uma pessoa no lugar de uma máquina? Aqui entra uma parte muito interessante do enredo. PKD criou um teste de empatia, chamado de Escala Voight-Kampff. O teste é composto por perguntas e por uma máquina que mede o nível de empatia a partir das respostas obtidas. A empatia é o que diferencia os humanos dos andys, que não conseguem demonstrar reações empáticas por nada e por ninguém. Além de filosofia, o enredo também demonstra certo caráter psicológico, principalmente no teste de empatia, que lembra muito os testes psicológicos, apesar de ser baseado em estudos do matemático Alan Turing. Também é possível fazer uma ligação do livro com o Estádio do Espelho de Jacques Lacan.

No universo criado por PKD, os humanos estão sempre em busca da empatia. Uma regra seguida por todos é a de criar algum tipo de animal, para serem bem vistos e acolhidos pela sociedade. Por serem raros, os animais vivos custam muito caro, são artigos de luxo, principalmente os de grande porte. Nosso caçador de recompensas possuía uma ovelha que, como todo ser vivo, morreu. Ele a substituiu por uma ovelha elétrica, uma cópia fiel da verdadeira. Porém, animais elétricos não são vivos, não é possível demonstrar empatia por um robô. Por isso é necessário guardar segredo, caso seu animal seja falso. Podemos fazer uma ligação desse fato com nossa sociedade consumista. Pagamos caro para possuir artigos de luxo, para sermos aceitos de certa forma, já que consumistas valorizam esse tipo de coisa. Caso você não possua tal item, você se torna um nada, um excluído. Se compramos um item falso, não queremos dizer que não se trata de um artigo original, há um fetiche em ostentar algo de valor.

As pessoas desse livro não precisam se preocupar com como estão se sentindo ou com quais vontades possuem, pois existe um gadget capaz de sintetizar emoções, basta regular a frequência e uma pessoa passa de triste a feliz de maneira instantânea. O mesmo vale para sentimentos ruins, como a esposa de Deckard, que, cansada de se sentir sempre feliz, decide experimentar um pouco do sentimento de depressão. Um paralelo com o uso de drogas, licitas ou ilícitas, é valido. Muitas drogas são utilizadas de forma irresponsável, em busca de sentir-se mais alegre, de maneira estimulante, até mesmo para aumento de capacidade intelectual momentânea. Isso é algo que ocorre em nossa realidade. A “caixa de empatia” é outro aparelho utilizado pelos humanos no livro. Também é uma forma de demonstrar empatia e uma maneira de expressar a humanidade. Apenas os humanos podem se fundir com Wilbur Mercer em uma espécie de realidade virtual para exercer o mercerismo, uma religião praticada pela maioria da população. Nessa fusão, é possível compartilhar os próprios sentimentos com os demais utilizadores, além de praticar a empatia pela entidade de Mercer. Em contrapartida, temos Buster Gente Fina, um comediante que possui um programa no canal do governo, transmitido também via rádio. Buster é um grande crítico do mercerismo (o motivo disso é revelado perto do final da história). Seu programa, que possui grande tendência alienadora, é quase ininterrupto, ficando fora do ar por apenas uma hora diária. É um show de grande sucesso, assistido e ouvido por milhares de famílias.

Quem gosta de ficção científica e de romances filosóficos, aqueles que nos fazem pensar, vai gostar muito de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?. Philip Kindred Dick criou um mundo que parece distante e próximo ao mesmo tempo. Distante pelos avanços tecnológicos e pelo futurismo, entretanto repleto de questões contemporâneas. Podemos considerar o autor um grande visionário, se levarmos em conta que o livro foi escrito na década de 60. Em 1982, a obra foi adaptada para o cinema, o que contribuiu para sua popularidade. O filme Blade Runner é considerado um cult da FC. Com Harrison Ford no papel principal, o enredo apresenta algumas diferenças, certos aspectos do livro foram retirados, sendo essa lacuna preenchida por mais ação. Mas isso não afetou seu sucesso e o próprio autor afirmou que as duas obras se completam mutualmente. Infelizmente ele não conseguiu assistir à adaptação, pois faleceu pouco antes de sua estreia nos cinemas. Porém o sucesso previsto foi atingido, trata-se de um filme que se tornou referência para o universo cyberpunk, inspiração para diversos outros filmes e jogos de videogame.

Sobre a edição publicada pela Aleph, só há elogios. O livro possui diversos conteúdos extras sobre o autor e sobre o enredo. A capa apresenta um design simples e vem com uma “jaqueta” (veja na imagem abaixo), que pode ser retirada, um charme a mais. Foi impresso em papel Pólen Soft, com páginas grossas, que não estragam tão fácil. Fonte de bom tamanho para a leitura e com um bom espaçamento entre as linhas. Ou seja, a editora não economizou no capricho.

Minha nota (de 0 a 5): 5

Alan Martins

androides sonham com ovelhas eletricas
Aqui temos o livro “peladinho” de um lado, e ele vestindo sua “jaqueta” do outro.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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