AS DIFICULDADES EM SER QUEM VOCÊ É

O mundo está cheio de problemas e isso não é novidade para ninguém. Se formos listar todos esses problemas, poderíamos criar um dicionário. Sem quaisquer pretensões, este artigo pretende discutir, criar na cabeça do leitor um debate sobre um problema muito recorrente na vida de todos e que fere um direito individual, que jamais deveria ser violado.

Algo que nossa sociedade gosta de fazer é ditar regras, dar opiniões, julgar a vida do outro. É muito difícil ser quem você é, ou quem você gostaria de ser. Não há como você expressar toda sua subjetividade, tudo aquilo que o torna sujeito, um ser único, sem que uma pessoa lhe aponte o dedo para dar sua opinião cretina. A sociedade é amplamente coerciva, e isso os sociólogos já sabem há muito tempo.

As pessoas que conseguem ser quem são, que são capazes de evadir das críticas, devem ser as pessoas mais felizes e mais completas do mundo e devem existir poucas delas. Poder exercer sua essência é imprescindível para ser feliz, e para a saúde mental de cada indivíduo também. Até por isso, se falando em saúde mental, o modelo manicomial de atendimento vem sendo substituído por modelos psicossociais, pois o modelo manicomial se baseia no viés psiquiátrico, de internação, onde a pessoa é incapaz de expressar sua subjetividade. Nesse modelo, o sujeito não pode ser quem é, ele vive uma rotina prescrita, com horários contados. Além de que os medicamentos psicotrópicos criam mudanças orgânicas no sistema nervoso central, muitas vezes criando seres vazios, humanos que mais se parecem com robôs. Podemos encontrar muitas críticas para o modelo psicossocial, porém é um modelo que não coloca a pessoa como um doente, ela é vista como mais um ser humano que possui sua história, sua própria essência, como um ser único. Ela permite que ele seja capaz de expressar quem é. Diferente do modelo manicomial, ele permite a liberdade (essa é a palavra-chave).

Quando não permitimos que alguém possa agir do modo que quiser, isso em relação a ele mesmo, sem se agredir ou agredir alguém, estamos fazendo com que esses desejos frustrados sejam reprimidos em seu psiquismo. O que por si só já é capaz de ter um efeito devastador na vida da pessoa, sendo capaz de iniciar diversos modos de sofrimento psíquico. Ela terá que agir de uma forma que agrade a todos, da maneira que a sociedade impõe.

Mesmo que as pessoas soubessem de todo estrago que é possível causar ao ficar fazendo piadas de um homossexual, de chegar a usar de violência para querer modificar sua maneira de ser, mesmo assim ela continuaria a dar sua opinião sobre a vida dos outros. Primeiro porque todos têm o direito de falar, o direito de livre-expressão também não deve ser violado. Entretanto discursos com esse tom são uma forma de violência, que fere o direito individual de cada um. É um debate complicado, cheio de visões diferentes. Uma filosofia. E segundo, as pessoas são más. O ser humano não é um ser limpinho e puro. Gostamos de causar dor e sofrimento nos outros, seja por pura psicopatia, ou para afogar nossas mágoas, tentar aliviar as próprias frustrações. Continuando com o exemplo da sexualidade, aqueles que passam o dia pensando em gays e falando mal deles, certamente estão tentando diminuir a frustração de não poder exercer a própria subjetividade. Pode ser inveja da completude do outro.

Porém, nem tudo é tão simples e se resume em um discurso tão raso. Existem diversos motivos por trás das maneiras que agimos, dos valores que cultivamos e preservamos, por aquilo que acreditamos ser o correto. Cada sociedade foi formada de uma maneira, criando sua história, cultura e valores próprios. Muita coisa já foi normal no passado, mas hoje somos seres evoluídos (ou deveríamos agir como se fossemos), e somos racionais. Não devemos aceitar tudo como certo, mesmo que seja algo cultural. Se isso for agressivo para alguém, não deve ser valorizado. O conhecimento científico que possuímos deve sobrepor certos valores.

Podemos trazer tudo isso para discussões do dia a dia. A ideia machista de que meninos só podem brincar com brinquedos considerados masculinos, ou usar cores de “macho”. Muitas crianças são punidas com violência por ideias assim. O que é horrível. Ainda mais se analisarmos a situação pelo viés da psicanalise, que diz que as crianças expressam sua subjetividade, as questões inconscientes, através do brincar. Outra ideia machista está relacionada ao trabalho, onde mulheres não podem exercer determinada profissão por se tratar de uma profissão de homem. A sexualidade da pessoa é colocada em dúvida pela sua função laboral. Mesmo se a pessoa trabalhar fazendo programas sexuais, sua sexualidade não pode ser julgada por outro que não ela mesma, já que a questão econômica entra em jogo nessa situação. E não importa se estamos falando de homem ou de mulher, questões machistas aferam ambos da mesma forma.

Instituições também gostam de ditar a vida das pessoas. O Estado é formado por diversas delas. Mas vamos simplificar a conversa. Os governos gostam de dizer o que é certo e o que é errado. Infantilizam a população de diversas maneiras e em diversas situações. Em um país tão amplo como o Brasil, onde há diversas culturas diferentes, será mesmo que um cara engravatado lá em Brasília é capaz de dizer o que é melhor para cada um? Nem mesmo um prefeito conhece os problemas de todos de sua cidade. Além disso, as coerções exercidas pelos governos são as mais cruéis, pois se utilizam de grande violência física, ou econômica, ou podem te privar de sua liberdade.

Um outro agente que adora dizer como cada um deve viver é a mídia. Levada por questões econômicas, os meios de comunicação gostam de colocar regras não somente no modo de vida de cada um, mas na sua alimentação, naquilo que deve vestir, na sua saúde, etc. E são assuntos de interesse de todos, exercendo grande influência social. Por isso as dietas da moda estão tão em alta, os cortes de cabelo, as roubas da moda. Muitos profissionais se corrompem em prol disso. Somo maus, machucamos os outros por dinheiro e ganância.

Quem disse que não se pode ser feliz com o corpo que você tem? Quem disse que você deve usar aquela marca? Quem disse que você não pode sair com pessoas do mesmo sexo? Quem disse que não pode existir amizade entre homem e mulher? Essas e muitas outras são perguntas que podemos fazer a nós mesmo e refletir sobre como isso nos constitui e forma a sociedade na qual estamos inseridos. Devemos ser críticos, não nos deixar abalar por qualquer coisa. Devemos lutar pela liberdade individual.

Esses são os pequenos atos fascistas de cada dia. Fascismo é uma palavra que está em moda e que poucos realmente sabem seu real significado. São muitos os que possuem um discurso lindo perante a vários problemas, e que são fascistas sem ao menos notar, ou sabem e são grandes cretinos.

Nossa, mas que autor mais lindo! Ele é tão mente aberta, sem preconceitos. Que ser perfeito! Não, estou muito longe disso. Em uma festa de pecadores, eu possuo entrada vip. Ninguém está livre de defeitos. Todos nós erramos. O problema está em continuar errando. Isso é o que separa o inteligente do ignorante. Enquanto o ignorante permanece seguindo os próprios erros, esperando que algo mude, o inteligente identifica seus erros e busca encontrar meios para superá-los.

Alan Martins

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Imagem de Allen Skyy. Publicada sob licença Creative Commons 2.0. Disponível em: https://www.flickr.com/photos/acousticskyy/3651475141/

Licença Creative Commons
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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

2 pensamentos

  1. “…é um modelo que não coloca a pessoa como um doente, ela é vista como mais um ser humano que possui sua história, sua própria essência, como um ser único. Ela permite que ele seja capaz de expressar quem é.” essa é a parte que mais gosto, a parte que não dá mais “direito” a outros taxarem alguém de louco e segrega-la totalmente do convívio social, priva-la de uma necessidade humana, “estar em relação”. ” Pode ser inveja da completude do outro.” Era exatamente o que eu estava tentando dizer a muito tempo kkkkk. São tantas coisas que nos atravessam como seres humanos e cada coisa que nos constitui e encaramos de uma forma única.. nossa maravilha e nossa perdição parecem estar num mesmo objeto dentro de nós, pulsão de morte e de vida nos desequilibrando… A consciência é uma conquista grandiosa e esta “Em uma festa de pecadores, eu possuo entrada vip.” já é o começo para que tenhamos mais empatia, compreensão e tentar no mínimo respeitar o outro em sua dor, em sua diferença, estranheza, ou o que quer que seja sem desumaniza-lo.

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